Amor em tempos de quarentena

Foto de Denis Geier por Pixabay

 

O amor é uma força. Está aí um clichê que fingimos não saber ser clichê para podermos usar uma outra vez. Não me refiro só ao amor romântico mas às várias manifestações de amor: amor de mãe, de pai, amor pela humanidade, amor universal, amor…

Minha mãe dizia algo que adoro: o amor funda uma nova moral. A pessoa está ali, agarrada nos seus dogmas, nos seus (pre)conceitos estabelecidos e ama o diferente. Pronto! Cai tudo por terra. O amor abre os olhos para a diferença, grita ao coração pela aceitação e incorpora novos sentidos.

Por que essa filosofia de botequim com os botequins fechados pela quarentena? Dia dos Namorados está à frente! E me divertem as boas histórias alheias. Entre os mais próximos coleciono, nestes dias de isolamento, algumas de amor: um noivado; um namoro iniciado na quarentena que virou “morar junto” ; duas gravidezes; um triângulo amoroso formado no isolamento; um amigo que estava namorando antes, o namoro minguou pelo afastamento físico e ele já começou um novo namoro, com direito à viagem para se encontrarem, contrariando o bom senso do “fica em casa”.

Eu li, pela rede, a história de um casal na Itália que se conheceu nas sacadas. Ele e ela se paqueravam à distância, refugiados na segurança de suas casas, sonhando conhecer, tocar, ouvir a voz do outro no ouvido. E o fizeram, assim que relaxaram a quarentena. Posaram para uma foto do jornal, os sorrisos escondidos pelas máscaras, denunciados pelos olhos felizes. Como esse, tantos encontros inusitados. Uma amiga dançava no seu apartamento, vendo seu vizinho dançar também e, num de seus textos poéticos, ela se perguntava: “havendo mundo amanhã, será você meu próximo amor baldado?” (*). Se sua poesia é ficcional ou real, não sei. Mas a voz dela é a nossa voz, olhando para os lados, através das janelas, descobrindo horizontes, criando meios de não permanecermos emparedados para exercer o que em nós pulsa: nossos sentimentos, nossa libido, nossos sonhos.

Foto-de-prostooleh (licença Freepik)

Acho o amor a força mais revolucionária que há. Aqueles que amam são capazes dos maiores gestos, os que promovem reais mudanças. O amor embebece sem idiotizar, revoluciona sem machucar, finca bandeiras sem territorializar. Não é um “para sempre”, se não investimos nisso concretamente. O sonho romântico em si só é insustentável. O amor precisa ser exercido, apesar das imperfeições. Sabe-se frágil diante dos apelos individuais e dos desafios do mundo e, por isso, precisa de investimento para manter-se aceso. Acolhe, abriga e deixa os julgamentos de lado. Vela à distância, com toda potência, os entes queridos nas linhas de frente ou os adoecidos nos leitos hospitalares, alcançando-os com pensamentos, preces e a energia possível, para jamais se sentirem abandonados à sorte. Transpõe lonjuras através da tecnologia: videochamadas que não substituem beijos molhados mas trazem o calor da voz, o som da gargalhada, o brilho do olhar. O amor resiste. Cultivá-lo nos dá força e altera os pensamentos e sentimentos mais íntimos.

Em tempos de quarentena, o vírus isolou casais: cada um em sua casa. Também precipitou arranjos de união para quem não suportou a ideia de ficar fisicamente separado. Abalou relações fragilizadas através da convivência intensa. Mas também fez gritar a necessidade de conexão de quem se achava autossuficiente. Uma das coisas que os dias atuais têm provocado é um pensar sobre o quanto as relações de amor são necessárias em nossas vidas e o quanto vale a pena investir ou não nas relações já estabelecidas.

Por isso, as histórias citadas me alegram. Mesmo sob a dor dos dias, mesmo sob o medo das ruas, mesmo isolados, pessoas abrem estradas para amar. Talvez alguns gestos sejam arriscados – comemoremos, então, que deram certo. Mas, à frente, quando chegar o dia do chope entre amigos e das risadas de alívio e alegria, no nosso reencontro social, quero lembrar que nem mesmo o luto de agora foi capaz de frear nossos sonhos nem nossa fé no futuro.

Resistiremos, por causa do amor!

 

ANA GOSLING

NOTA DA COLUNA:

(*) O verso de Gabriela Altaf, está no ótimo poema “Onde mora Deus na carnificina?”, que honra a galeria de vídeos da campanha #ParaAGenteLembrardaPoesiadaVida, no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=JGN_DzRDzaU.

A essência deste poema não é especificamente o amor romântico. Para quem procura os poemas de amor que nos foram enviados, o ArteCult preparou uma seleção entre os vídeos da campanha, fiquem ligados que vamos publicá-la ainda hoje ! 

 

Veja os Vídeos e mais detalhes sobre a campanha:

Estamos ansiosos para ouvir sua poesia e compartilhá-la em nossas redes sociais!

Equipe CANAL LITERATURA

Canal.Literatura@artecult.com

 

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Ana Lúcia se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo esgarçado pra sempre. Continua experimentando cursos em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 400 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não estão só nos livros mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Links: Contos, poemas, crônicas: anagosling.com Artigos, crônicas: http://obviousmag.org/puro_achismo Redes Sociais: Twitter: https://twitter.com/gosling_ana Facebook: https://www.facebook.com/analucia.gosling

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