Em constantes histórias, a dissonância

 

2018 ainda não acabou. Em pleno Outubro me movo a escrever uma possibilidade de interpretação do que foi este singular ano, que ainda não acabou, mas conosco sim. Ele traz em si uma perspectiva de clara mudança no perfil do pensamento coletivo de nosso Brasil, um ano que foi marcado pelo brutal assassinato de Marielle Franco e seus desdobramentos, em que o fluxo de notícias deixou o brasileiro comum zonzo, raivoso e distante da realidade. Uma sonora soma de ficções, de criações com o intuito de falsear a realidade se fez presente. Não é, no entanto, um movimento tipicamente brasileiro, mas aqui deixou claras suas mazelas e emergiu do povo a sombra maligna e perversa do desejo de muitos. Sob a tutela de uma família política, estamos diante da validação da barbárie.

Diferente de quando iniciei minha coluna no universo da literatura aqui no ArteCult, em que constantemente eu publicava, esse ano me fiz ao silêncio. Peço perdão, primeiro, aos amigos que aqui acompanham algumas de minhas considerações sobre esse mundinho que tanto amo, foram tantos lançamentos, tantos bons livros e autores que mereciam alguma palavra minha, por mais ingênua que fosse, o livro é sempre mais importante que tudo. Mas eu, intimamente, não consegui, tomado também pelo tiroteio de notícias, pelo recrudescimento das relações humanas, pelo incêndio de maledicências, eu não consegui me concentrar em nada além de pensar a realidade, o todo. Minha vocação humana aliada ao meu papel como professor se fizeram muito mais presentes e maiores. Preocupei-me como o Brasil que irá ficar para os meus filhos, quis participar de discussões sobre o futuro da escola, do papel do professor que querem empurrar goela abaixo com constantes interpretações erradas dos grandes pensadores da escola brasileira, querem criar um professor silenciado, castrado, omisso, maquinado para o século XXI, não detentor da verdade, mas reprodutor de mentiras que eles querem que sejam contadas. Não poderia, neste caso, me ater a um papel de leitor e crítico – que digo claramente que não sou – do universo da literatura, dos livros, dos autores. Eu não conseguia me concentrar em ler plenamente. Tenho em mãos tão bons livros que esse ano nos lançou, tão bons autores. Há ficções engajadas, há ficções de relato de dores, há ficções que nos levam a universos tão distantes da realidade, ou seja, há toda sorte de publicações que merecem o dever desta coluna, mas eu não consegui lê-los. Simplesmente não consegui. O medo de uma realidade tão mesquinha e vil se fez mais presente. E por isso, peço perdão.

Mas não peço perdão pela dissonância da qual participo também, em respeito pleno à democracia eu escrevo este texto como papel real de um ativista da intelectualidade, que quer que livros sejam publicados, eventos culturais sejam produzidos sem medo de ferir algum coletivo opressor, que se julga dono da realidade e que se abstém do papel de crítico porém se veste de uma manta de intromissão, querendo aplacar, silenciar, diminuir a ponto de desmerecer e querer invalidar.

Quero, não por ser dono de uma voz, mas partícipe de uma democracia plena, que todos os livros, todas as histórias, todos os eventos culturais, todos os artistas, enfim, toda gama de produtores possam se sentir plenamente livres e capazes de produzir, promover e publicar suas histórias sem o revés de uma ditadura do pensamento e do descrédito. Se assim acontecer, até mesmo esse portal pode se tornar um sonho. Aqui comungam vários, em várias frentes de produção, com vários intentos. Esse sonho coletivo será passado se nos detivermos ao silêncio. Essa é a barbárie a que me refiro.

2018 não acabou. Porém, amizades foram desfeitas, famílias foram destroçadas, pessoas foram mortas porque dissonâncias existiram e nos deixaram à flor da pele, a ponto de brigar e matar. Falsos heróis continuam falsos heróis, vociferando o erro das discórdias. Em nome de projetos de poder, os falsos messias da contemporaneidade estão nadando em braçadas sobre o sangue vivo das discórdias. Grupos se organizam na internet com o intuito de se armar – mesmo – para aniquilar algozes travestidos de inimigos.

E isso não é inédito na história humana. Olha que História é a disciplina alvo desses que querem fazer da escola um ambiente inóspito à construção do ser humano. Do indivíduo sobrará apenas o dever de se misturar às massas. Não devemos compactuar com uma escola que quer realmente transformar o aluno em mais um tijolo na parede. Essa analogia não é nova, eu sei, mas ganha um novo sentido de poder agora com todos esses projetos de diminuição da importância das escolas, e dos professores, na vida dos estudantes.

Estamos próximos das eleições finais, de segundo turno. Para muitos, o verdadeiro fim do mundo. Os números atuais são bem negativos, em todas as possíveis leituras de realidade. Converso com amigos escritores que concordam haver uma independência do resultado, 2019 será um ano para cardíacos que conseguiram passar por 2018. O ano não acabou, repito. Mas conosco sim. Crescemos e amadurecemos nossa percepção sobre a democracia este ano – talvez daí um dos poucos pontos positivos – por isso, criamos discussões tão calorosas, apaixonadas, mas raivosas demais, finitudes foram criadas e delas parece não haver uma singela saída. Como humanista que sou, espero que em nosso processo de amadurecimento, essas relações possam ser retomadas sem grandes prejuízos. Distintos, dissonantes.
Assim que recuperar o fôlego, um olhar calmo, eu volto a ler – ando lendo, sim, claro, mas preciso de fôlego – e escrevo aqui tudo de que preciso para almejar livros. Para fazer vocês também almejar livros. Ao momento, apenas convido vocês a sentarem à mesa e tomarem um copo de água comigo.
Depois voltamos ao uísque.

MARCIO CALIXTO

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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