
com César Manzolillo

Imagem: Google
VELOCIDADE & BARBÁRIE
O asfalto da rodovia brilhava sob o sol das duas da tarde. Dentro do Volvo prateado, o silêncio era interrompido pelo zunido baixo do motor e pelo toque suave do ar-condicionado. Ricardo mantinha as mãos firmes no volante e os olhos fixos no horizonte. Ao se lado, Helena seguia com discretos movimentos de cabeça o som de ABBA que saía dos fones de ouvido ao mesmo tempo que observava a paisagem, transformada agora num borrão verde.
Mais à frente, no acostamento, um ponto solitário se movia num ritmo cadenciado. Montado numa bicicleta, Luciano voltava para casa após uma manhã exaustiva de trabalho no hospital onde atuava como técnico de enfermagem. Um buraco na pista fez o ciclista desviar bruscamente para a esquerda, exigindo desempenho máximo dos freios do carro de Ricardo. O silêncio que se seguiu foi aterrador. O motorista desceu. Luciano mal teve tempo de pedir desculpas ou de se defender da sequência de chutes e socos que se iniciou. No asfalto transformado em ringue, ele tentava se proteger, mas os golpes vinham de todos os lados. A agonia durou alguns minutos travestidos de horas. No chão, Luciano gemia e se movia com dificuldade. O capacete foi o que impediu que a cabeça sucumbisse diante da fúria dos sapatos de couro italiano de Ricardo.
Helena, até aquele momento espectadora indiferente da cena, abriu a porta e caminhou na direção do marido, suado e ofegante como um animal a caminho do abate.
— Cardo, para. Já chega — falou com voz pausada.
O efeito foi imediato. Ricardo limpou o suor da testa com o dorso da mão e deu as costas ao corpo estendido no solo. O casal então entrou no carro, e o Volvo partiu. Rapidamente, foi ganhando velocidade até sumir numa curva mais adiante.
CÉSAR MANZOLILLO

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