UM DESAFIO GASTRONÔMICO: DA INICIAÇÃO AO ENCANTAMENTO. TENTE VOCÊ TAMBÉM!

Você já parou alguma vez pra pensar, ainda que brevemente, sobre qual é a sua relação com a cozinha e com o alimento? É uma relação amistosa, indiferente ou, simplesmente, de inimigos declarados? Sabe, pelo menos, onde ficam os equipamentos, as panelas, pratos e talheres ou se perde naquele pequeno universo? Se não tem a coragem suficiente para enfrentar o fogão, pelo menos consegue extrair tudo de bom que o paladar pode lhe proporcionar ou é apenas um “chato pra comer”?

Pois é, se nunca fez esse exercício, acho que vale a pena parar um pouquinho e refletir. E talvez, posicionar-se de uma outra maneira diante dessa questão. Afinal, todos nós necessitamos nos alimentar, por todos os dias de nossa vida inteira e se, de alguma forma, conseguimos transformar essa necessidade em um ato prazeroso e culturalmente rico, entendo que a caminhada se torna muito m ais instigante, desafiadora e – por que não? – feliz.

Abra a mente. Na cozinha não existem monstros, vampiros ou lobisomens, tampouco fantasmas de lençóis brancos sujos de molho de tomate, rodopiando em volta de candelabros assustadores. É totalmente possível que você crie a coragem necessária, acenda uma boca do fogão, coloque água para ferver e… cozinhe um ovo. E de um ovo – um só! – é possível obter o passaporte para uma viagem sem volta ao mundo do sabor…

Não se preocupe, todos nós já tivemos algum receio de fazer ou de experimentar algo. Mas garanto que não se trata de algo intransponível. Eu mesmo sou prova viva disso.

Dia desses, parei pra pensar: quando foi que esse amor pela cozinha tomou conta de mim? Fui catando por lembranças soltas, nos fragmentos de recordações espalhados, e não consegui achar uma resposta, no mínimo, satisfatória. Pensei que tivesse sido algo lá da infância, mas minha mãe me cortou logo, dizendo que eu apenas comia e nunca quis fazer nada relacionado à casa. É, isso é verdade, pois até hoje não sei nem mesmo trocar uma mísera lâmpada…

Se não foi na época de infância e início da adolescência, teria sido quando me mudei para o Rio de Janeiro, já com meus dezoito anos de idade? Bem, certamente não nos primeiros anos, quando morei com meus avós, pois, nessa época, eu tinha tudo na mão, até copo de achocolatado prontinho, me esperando. E sim, sim, eu sou um daqueles que soltou pipa no ventilador, que jogou bolinha de gude no carpete.

Até nesse momento da minha vida, a cozinha ainda era apenas mais um cômodo da casa. Apesar de ter aprendido desde bem novo a comer de tudo, sem frescuras desmedidas – talvez não coma apenas “pedra”, embora tenha sido advertido que existe uma sopa de pedra em Portugal que é fantástica! – a arte da gastronomia ainda não me havia sido apresentada de uma forma mais contundente.

É fato que meus pais sempre cozinharam maravilhosamente bem. E isso, ainda que eu não me aventurasse por entre panelas e fogões, não passava despercebido e me marcou profundamente. Lembro de diversas histórias, todas elas ligadas à comida. Por exemplo, meu pai inventava um determinado prato e, para que a gente comesse, dizia que era algo típico de algum país – país esse que, até hoje, não encontrei no mapa-mundi…

Talvez o grande ponto de mudança tenha sido quando passei a morar sozinho. A necessidade de ter que me virar, de alguma forma, obrigou-me a colocar a mão na massa. De repente, descobri aquele lugarzinho no apartamento chamado cozinha e, de uma certa forma, eu tinha que usá-lo. Não tinha mais ninguém por mim, era eu e eu. Tratei de acender a boca do fogão – apanhei um pouco até pra isso! – mas, rapidamente, já estava jogando algo dentro das panelas e vendo o milagre da cocção dos alimentos. E a cada vez que eu fazia algo, ia gostando e querendo fazer mais e mais.

No início, era um verdadeiro desastre. Tenho que admitir. Até acho que peguei leve ao usar a palavra “desastre”… A minha comida era sal puro e os sabores eram todos misturados, um excesso de tempero encobria a essência do ingrediente, que se perdia. Eu colocava tudo o que tinha dentro da panela. Usava um tempero que ficaria ótimo numa carne de porco, por exemplo, num pedaço de frango, e vice-versa. Tudo tinha gosto de tudo. Não havia uma identidade, uma linha, um estilo.

Mas o tempo traz a experiência e o equilíbrio e, aos poucos, fui encontrando meu caminho. Sei que ainda tenho muita estrada, mas é uma direção sem volta, de muito estudo, dedicação e muito, muito prazer.

Com esse breve depoimento, quero dizer que todos podem encontrar o encantamento necessário para deixar a vida mais leve dentro de uma cozinha. Quer seja cozinhando um pequeno ovo – pelo amor de Deus, nada de gema cinza!!!! – pra comer sozinho e safar aquela fominha da noite, seja cozinhando pros amigos, seja buscando um novo rumo profissional.

A cozinha não deve amedrontar ninguém, muito pelo contrário. É um espaço agregador, onde as pessoas gostam de estar. Lá, no meio das panelas, se trocam experiências, histórias do dia a dia, conselhos, receitas. Reparem nisso. A sala, por vezes, fica vazia…

Tente sentir todos os aromas, sabores e texturas dos ingredientes. Não se esquive, prove. Você vai morrer por colocar um pedacinho de algo que nunca experimentou na boca? Não? Pois é, então vá em frente.

Tente.

Abocanhe aquele pedaço de algo que você nunca viu como abocanharia a vida, procurando extrair toda a grandiosidade daquela pequena experiência. Se tem aversão ao que está a sua frente, encare como um desafio e, com esforço, procure encontrar algo de bom. Todo ingrediente tem sempre algo de bom esperando ser descoberto.

Jiló, rabada, quiabo, mocotó, dobradinha… Hoje é tão difícil ver as pessoas, principalmente os mais jovens, se aventurando por esse tipo de comida, que povoou minha infância com bastante frequência. Uma verdadeira injustiça, pois são pratos e elementos que trazem sabores, fortes ou delicados, porém marcantes, cheios de tradição! Pense neles como se fosse um mundo novo, esperando ser explorado. Por que não? Desbrave o novo, sem medo ou preconceito, pois nesse jogo só se ganha.

Não experimentar algo, seja o que for, simplesmente nos priva de um possível prazer – o que, diga-se de passagem, anda um tanto raro nos dias atuais e não pode ser, de forma alguma, desperdiçado. Por isso, proponho uma mudança de paradigma. Antes de dizer não gosto, prove. Se, mesmo tendo provado, permanece a sensação – muito, em parte, por um “pré-conceito” – prove de novo. E de novo, procurando encontrar o que ali se encontra oculto.

Verifique a textura, busque o sabor. Há crocância? Alguma acidez? É doce ou salgado? É amargo? Tem algum outro sabor residual? Dissolve na boca? É suculento? O tempero preenche o paladar de forma plena? A história humana levou muito tempo pra chegar naquela combinação que está na sua frente, ou na forma de preparo daquele ingrediente. Por isso, não recue, siga em frente, vença o obstáculo.

Quero ajudar você nessa caminhada. A partir dos próximos artigos trarei uma nova visão de pratos clássicos, de processos interessantes de cocção que estão em alta, como o sous vide, faremos degustações juntos, de pratos típicos de regiões do Brasil e do mundo, na qual tentaremos descobrir o segredo de cada ingrediente e visitaremos alguns restaurantes. Decoraremos nossos pratos com a emoção que deles esperamos – primeiro comemos com os olhos, lembram-se disso? – e avançaremos por esse mundo novo. Topam?

Espero que aceitem minha proposta. Como disse, nesse jogo não há o que se perder. Ganharemos todos, principalmente aqueles que, além de vencer o desafio de provar, forem além e ainda prepararem o próprio alimento. A cozinha se descortina como um novo mundo…

Panelas ao fogo e mãos na massa!!!

DEL SCHIMMELPFENG

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Del Schimmelpfeng
Del Schimmelpfeng é Analista Judiciário do TJERJ, mas desde que se lembra - e coloca tempo nisso! - ama cozinhar! Apesar de ter feito as faculdades de arquitetura e direito, é se misturando aos pratos, panelas e temperos que se sente inteiro, completo, pleno. É autodidata, nunca fez curso de culinária, tampouco se imaginou um profissional da área. Considera-se apenas um curioso, que procura o conhecimento em tudo e que tenta, de todo jeito, viver da melhor forma possível - apesar de todas as dificuldades. Afinal, não haveria graça se elas não existissem... Participou da décima nona edição do reality "Jogo de Panelas", apresentado por Ana Maria Braga no programa "Mais Você" da Rede Globo, sagrando-se campeão. Possui, ainda, textos publicados em livros de conto e poesia. Blog: http://delschimmelpfeng.blogspot.com

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