

O JULGAMENTO DE ZÉ BEBELO © Renato Mangolin_ALTA 125
A Triloga do Gilson Barros
Ainda me recordo do momento em que encontrei Gilson Barros durante uma de suas indicações como melhor artista — à época, também reconhecido em outras categorias por seu trabalho. Não era casual: havia ali uma trajetória consistente que justificava o destaque.
Ao transpor Grande Sertão: Veredas para o palco, Gilson constrói uma linguagem própria — depurada, direta e tecnicamente rigorosa. Sua trilogia, já apresentada dentro e fora do país, evidencia um teatro de ator em estado puro: solo, mas nunca solitário. Há, em cena, uma força motriz que se sustenta na precisão do gesto, da palavra e da escuta.
O projeto germina durante a pandemia, em encontros virtuais conduzidos por Amir Haddad, nos quais o texto era desmontado e reconstruído ao vivo. Acompanhei parte desse processo e assisti à versão online do espetáculo — experiência que também registrei criticamente à época. Há, portanto, uma memória compartilhada que atravessa meu olhar, e assumo isso não como vício, mas como perspectiva.
Em 2025, ao lado do produtor Julio Luz, o projeto ganha novo fôlego com o apoio do Instituto Vale Cultural, em celebração aos 70 anos da obra de Rosa. A iniciativa amplia seu alcance ao integrar artes visuais — com exposição associada — e circulação por espaços diversos, incluindo territórios quilombolas e escolas públicas. Trata-se de uma ação que compreende a arte como atravessamento social, não apenas como fruição estética.
Entre os trabalhos da trilogia, O Julgamento de Zé Bebelo se destaca como síntese madura da pesquisa. Antes mesmo da encenação, Gilson estabelece um paralelo instigante entre o sistema jagunço e as estruturas de poder da chamada Nova República, evidenciando como a literatura rosiana permanece impregnada de atualidade. A pesquisa dramatúrgica é sólida e sensível.
Em cena, o ator, sem abandonar a cadeira, corporifica múltiplos personagens — jagunços, líderes, narradores — com impressionante domínio técnico. A transição entre vozes, ritmos e presenças ocorre com clareza e economia, sem recorrer a excessos. Não há concessão ao “mais do mesmo”; há, ao contrário, uma sofisticação que nasce da contenção.
Permito-me, contudo, um apontamento: não percebo este projeto como encerrado. Há potência para um desfecho expandido, um gesto final que sintetize a travessia proposta pela trilogia. Um trabalho dessa envergadura merece um fechamento à altura de sua ambição estética.
A encenação aposta na síntese: figurino em linho e couro, luz incisiva, banco de madeira. Elementos mínimos que sustentam um espaço simbólico potente, onde o restante é construído pela palavra e pela presença. Aqui, teatro em sua essência.
É inevitável aproximar Gilson de Bia Lessa: ambos parecem atravessados pela obra de Rosa de forma quase visceral. Se por caminhos distintos, compartilham uma mesma pulsão — a de fazer da literatura uma experiência sensorial e contemporânea.
Destaco, por fim, o trabalho visual de Josué Ribeiro, cuja assinatura se revela na condução elegante das paletas e na coerência estética do projeto. Um desenho que não compete com a cena, mas a potencializa.
Quando uma obra atinge esse grau de elaboração, compreende-se sua relevância: não apenas como adaptação literária, mas como experiência artística que reafirma o teatro como espaço de pensamento, presença e travessia.
Video:
https://drive.google.com/file/d/1HKS683fdAuZhpjU5NBYrdv12gfSJwKmS/view?usp=drive_link
Serviço:
Projeto Grande Sertão: Veredas — 70 Anos de Travessia
- Período: 1 a 24 de abril de 2026
- Quartas – Espetáculo: Riobaldo – 19h
- Quintas – Espetáculo: No Meio do Redemunho – 19h
- Sextas – Espetáculo: O Julgamento de Zé Bebelo – 19h
- Classificação indicativa etária: 16 anos
- Temporada de Ingressos Populares
- Valores: R$ 40 / Meia-entrada: R$ 20 / R$ 10 – Venda no site Sympla, (com taxas da plataforma), e na bilheteria.
- Duração: 70 minutos
- Local: Teatro Glauce Rocha – Av. Rio Branco, 179 – Centro, Rio de Janeiro
- Espaço cultural da Fundação Nacional de Artes – Funarte
Outros eventos – no mesmo local
Oficina Gratuita:
Tradução da prosa rosiana para a dramaturgia
- Datas: 15 e 22/4 (quartas-feiras)
- Horário: 16h às 18h
- Vagas: 30
Exposição de Arte Grande Sertão
- Artista Plástica: Graça Craidy
- Abertura: 1/4 às 17h00
- Temporada: 1 a 24/4 – quarta-feira a domingo – 14h às 19h
Ficha Técnica:
- Texto: adaptação a partir do romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa
- Idealização, Recorte de Textos e Atuação: Gilson de Barros
- Direção: Amir Haddad
- Cenário: José Dias
- Figurinos: Karlla de Luca
- Iluminação: Aurélio de Simoni
- Programação Visual: Josué Ribeiro
- Fotos: Renato Mangolin
- Operação de som: Pedro Azamor
- Operação de Luz: Mikey Vieira
- Direção de Produção: Júlio Luz
- Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa
- Controladoria Financeira: Letícia Napole – Vianapole Arte e Comunicação
- Apoio Institucional: Fundação Nacional de Artes – Funarte
- Patrocínio: Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet – Ministério da Cultura – Governo Federal
- Realização: Barros Produções Culturais, Ministério da Cultura e Governo Federal



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









