O Tribunal Big Brother

 

Sempre que pensamos em julgamento, remetemos a um tribunal, um ambiente dentro do Poder Judiciário no qual é feita a exposição sobre um fato ocorrido. O fato é analisado, julgado e é definida uma punição.  No Tribunal do Big Brother, porém, a condenação acaba sendo atribuída sem qualquer análise ou julgamento. Pior: transborda dos aparelhos de TV, atinge redes sociais, vida pessoal, num pretenso território sem lei onde o ódio se multiplica mais rápido que um vírus. Isso tem que mudar e as pessoas têm que entender que não existe território sem lei e que suas ações terão consequências e até punições dentro da lei.

No âmbito do Direito Civil, a decisão de um juiz é feita com base em tudo que lhe foi apresentado pelos advogados de ambas as partes. As do polo ativo (quem processa) e passivo (quem é processado) expõem as razões de aquela demanda existir e as provas de que o Direito assiste a quem está pleiteando. A parte ré na ação é aquela que vai ter que mostrar ao juiz que a parte autora está equivocada e que, portanto, merece “perder”.  Até quando existe uma decisão judicial, ela não pode ser tida como verdade suprema.

Mas será que é apenas no Judiciário que juízes existem? Claro que não. Lá encontram-se apenas os que são por profissão, mas, ao olharmos ao nosso redor, vemos juízes por todos os lados.

“Não julgueis, para que não sejais julgado”.

Essa passagem bíblica é amplamente conhecida, sendo praticamente um ditado popular. Mas, entre ser conhecida e esquecida, tem uma distância. Julgar é algo inerente ao ser humano, pois diariamente precisamos fazer julgamentos para tomarmos decisões e rumos em nossas vidas. Julgar, em si, não é algo negativo, como muitos pensam, o problema é que muitas vezes as pessoas não julgam, mas condenam e através da agilidade da Internet, a condenação atinge graus nunca antes imaginados.

No reality show Big Brother Brasil, o que leva os participantes a indicar, internamente, uns aos outros, são seus próprios julgamentos formados com base nos fatos que presenciaram e escutaram. Essa é a graça do jogo. Já os telespectadores têm a opção de ficar assistindo-os por tempo integral pela televisão, tendo acesso a informações e um campo de visão muito superior àqueles que estão enclausurados. Em todos os casos, quem julga, o faz de acordo com o que é mostrado.

Nem com o “paperview”, porém, é possível observar exatamente tudo que acontece dentro da casa. O que percebemos, muitas vezes, é que o olhar limitado sobre as situações dos “brothers” acaba fazendo com que julguem de forma errada. Diferentemente do que ocorre com os juízes dentro dos tribunais, que apenas podem julgar com base naquilo que lhes é apresentado, afinal, o magistrado não esteve presente no momento do fato, de forma que cabe às partes do processo serem seus olhos.

Para aqueles que estão do lado de fora, os erros de julgamento se devem à parcialidade daqueles que julgam. O público que acreditou que mulheres do reality show mereceram ser punidas com a eliminação do programa por sofrerem um relacionamento abusivo segue a mesma linha de pensamento do magistrado que absolve um homem na Lei Maria da Penha dizendo que se a mulher estivesse sofrendo violência psicológica, ela não teria ficado com ele por tanto tempo.

O mais curioso é que, durante o jogo, a opinião do próprio público muda e as pessoas percebem que o julgamento que fizeram ontem estava completamente errado. É por isso que é preciso muito cuidado com os julgamentos, principalmente quando se está fora do jogo ou das situações, porque no jogo haverá apenas uma eliminação, mas na vida, os estragos podem ser enormes.

Como dizia Shakespeare:

“Herege não é aquele que arde na fogueira e sim aquele que acende”.

Aprenda que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento julgado. Por isso, pense sempre com compaixão e traga para si a questão: gostaria que fizessem isso comigo? Na dúvida sobre a resposta, não faça.

 

Ludimila Cindra

Advogada, sócia do escritório Cardoso Cindra

DIREITO NA MESA 

Siga-nos no Instagram!
@direitonamesa

 

 

Faça abaixo um comentário sobre este artigo. PARTICIPE!

Comentários (utilize sua conta no Facebook):

Powered by Facebook Comments

Author

DIREITO NA MESA
Vamos informar e esclarecer dúvidas através dessa nossa coluna sobre Direito em uma linguagem simples. Siga nosso Instagram @direitonamesa!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *