O abandono na velhice e “Feliz Aniversário”, de Clarice

Foto das mãos da autora e de sua mãe. Arquivo pessoal de Ana Gosling.

Há cerca de três anos, escrevi, em outro espaço, meu texto de maior repercussão virtual até agora: “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais”. De lá para cá, o texto já teve mais de 424 mil leituras na publicação original, tendo sido compartilhado em alguns outros sítios.

Minha surpresa foi enorme em relação ao impacto das ideias e do sentimentos que ali estavam descritos. Recebi feedbacks inesperados.

Meu texto era mais sobre os filhos. Sobre como ficamos atônitos diante da mortalidade das nossas maiores referências humanas em vida. Sobre como somos obrigados a lidar, aceitar, tomar decisões enquanto o coração sangra.

Existe, contudo, o outro lado dessa mesma narrativa. O sentimento do pai/mãe ou, ampliando, dos idosos diante do abismo da vida. Não estou falando, claro, do idoso que tem uma saúde e uma condição afetiva maravilhosas mas daquele que teme ser ou que foi abandonado.

Viver esse momento da vida, ver envelhecer parentes amados, os pais dos meus amigos, fez-me olhar com mais generosidade para a pessoa idosa, de forma geral. Penso, sempre, no quanto se pode viver com plenitude e alegria.

Participo de grupos que iluminam meu caminho. Minhas colegas do sapateado para terceira idade (oficina da minha querida Rafaelli Mattos) me ensinam que sempre é tempo para começar algo, realizar sonhos, ser social e, acima de tudo, ter alegria. Nos cursos de escrita, já cruzei com muita gente interessante que alia, ao trabalho de polir sua escrita, sua larga experiência de vida e sua cultura abrangente. E como se aprende nessa convivência… Como se ganha na riqueza de uma relação que atravessa tempo, espaço, ideologias, e põe nosso mundinho conhecido em perspectiva, aprofundando nossa visão. Como se ganha em saber, ver, sentir que, na realidade, podemos também, num momento mais à frente da vida, continuar a viver de forma plena ou recomeçar uma nova história, se a que estamos deixando para trás não é a que queríamos deixar.

Livro “Laços de Família” de Clarice Linspector, onde está o conto “Feliz Aniversário”.

Bem, esta é uma coluna de Literatura e uma amiga me lembrou de um conto para eu poder ilustrar o tema que iria abordar aqui: “Feliz Aniversário”, um dos contos mais perturbadores de Clarice Lispector. Ao relê-lo, emocionei-me. São muitos os caminhos interpretativos que podemos seguir a partir dele mas vou restringí-lo ao tema abordado.

No conto, comemora-se o aniversário da matriarca, que mora junto com uma de suas filhas. Chegam os outros filhos, noras e netos para reunirem-se em torno dela e de seu bolo de aniversário. Na descrição das cenas que ocorrem, o narrador revela as mal resolvidas situações familiares, a distância entre os irmãos entre si e entre os filhos e a mãe, a futilidade e a superficialidade das relações e das personagens, a opção de estar lá por uma obrigação social mas com pouca dedicação amorosa àquelas pessoas, entre outras coisas.

Na brilhante tessitura de Clarice, mestra em discorrer sobre a alma humana, o conto é retrato de uma cena comum e cotidiana: a reunião de uma família num momento de importante celebração. Mas o que se extrai dali é a fragilidade daquela estrutura familiar, onde os caminhos individuais e individualistas dos personagens se ressaltam.

D. Anita, a matriarca, possui uma lucidez pungente sobre o mundo e as pessoas que a cercam. É o narrador que nos faz saber seus pensamentos, sua visão sobre os fatos. Para os personagens do conto, ela é uma mulher idosa, que pouco fala, talvez esteja senil, cospe no chão. Eles não sabem, tanto quanto nós, leitores, como há clareza em suas percepções. E isso já é uma pista do quanto estão alheios à mãe.

Na história, a velhice da mãe é abordada como um obstáculo à liberdade dos filhos, às suas escolhas pessoais. Mesmo a filha que cuida da matriarca o faz mais por uma obrigação social, por ser a única mulher, e, ainda assim, sente-se escravizada pela situação. Os demais filhos que a festejam, trazem a família inteira para bater palmas, mas não querem ter responsabiidade com o cuidar, nem são descritos como carinhosos. Não se fala em abraços nem em emoção profunda. O momento do beijo é assim descrito: A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha”. Cumprem um protocolo, fingem uma alegria artificial porque, afinal, a família, vamos entendendo, não é tão unida, a convivência não é tão íntima.

Ao contrário de evidenciar um momento de união, a festa revela o abandono a que a matriarca está submetida, a falta de apreço dos filhos que só a visitam anualmente e o constrangimento que há nessas relações.

A situação de D. Anita, o abandono afetivo e físico, o desperdício dos momentos com a família que poderiam aproximar corações, as relações que fingem cuidados mas se erguem sobre distâncias profundas, é real para muitos idosos. Para esses, o desafio é imenso: superar isso e encontrar estímulo para viver com alegria, apesar de tudo, longe de sentimentos como solidão e depressão.

“Feliz aniversário” é um conto brutal. Mexe com o esteriótipo da família perfeita e feliz, desfolhando para o leitor um universo de aparências. Sobre isso tem total consciência a personagem central, ciente do jogo hipócrita de que todos a seu redor participam e decepcionada pelo que seus filhos se tornaram. Ela os vê como criaturas opacas. Ela cospe no chão não por senilidade mas como um dos poucos recursos expressivos para demonstrar sua atitude diante de uma situação de vida sobre a qual não tem controle: depende dos cuidados da filha, que não os oferece por amor mas por obrigação; está amorosamente negligenciada por uma família que só a visita uma vez ao ano; está impotente diante das decisões que a envolvem e sente-se decepcionada com os filhos que criou; está ferida, arrastando o luto por perder, durante sua vida, o marido e o filho que lhe era mais chegado e mais carinhoso. D. Anita é a imagem de uma velhice negligenciada, infeliz. Mas que, sob a frágil aparência, resiste. E sente. Na literatura como na vida real.

ANA GOSLING

Faça abaixo um comentário sobre este artigo. PARTICIPE!

Comentários (utilize sua conta no Facebook):

Powered by Facebook Comments

Author

Ana Lúcia se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo esgarçado pra sempre. Continua experimentando cursos em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 400 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não estão só nos livros mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Links: Contos, poemas, crônicas: anagosling.com Artigos, crônicas: http://obviousmag.org/puro_achismo Redes Sociais: Twitter: https://twitter.com/gosling_ana Facebook: https://www.facebook.com/analucia.gosling

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *