Mãe, hoje não irei.

 

 

Mãe, hoje não irei
Não, porque tive um imprevisto.
Não, porque Sofia ou Arthur estão dodóis. Aliás, eles estão bem. Estão ótimos. Com saudade também.

Todo mundo tá com saudade.
Todo mundo mesmo.

Mãe, hoje não irei.
Não, porque tô atolado de serviço, ou acabou o dinheiro – apesar de que acabou mesmo, acredito até que pra sempre.
Não, porque dessa vez não comprei seu presente ou porque não tenho como colocar gasolina no carro.
Nem porque estou longe.
Na verdade, estou perto. Bem aqui. Mas tenho que ficar longe.
Muito longe.
Não longe demais. Pode ligar se quiser.
Eu até vou ligar. Isso não tiraram da gente.
Mas hoje não irei.

Não se preocupe com o feijão
Com o macarrão
Com o estrogonofe
Ou o frangão.

Quero apenas que voltemos um dia a ter feijão
Macarrão
Estrogonofe
E frangão. Frangão vai ter sempre. As padarias e frangueiras estão mais lotadas do que nunca.
Mas hoje não irei.

Não fique triste não.
Não fiquemos tristes.
O mundo não acabou.
Mas tá acabando, porque não estão respeitando as ordens.
Eu sempre respeitei as ordens. Lembro sempre dos esporros, chineladas, castigos, dias sem vídeo game. E estou vivo.
Eu e meus irmãos estamos vivos.
Mas hoje, nem eu, nem Fabinho, nem Riquinho iremos. Mãe, hoje não iremos.

Não fique chateada. Nem ficaremos chateados. Nem poderemos ficar aí.
Aliás, como tá o pai? Ele tá se cuidando? Ele tá respeitando essa quarentena? Ele ainda tá teimoso? Mas ele tá aí? É o que importa. Ele tá aí. Você tá aí. E todos estamos. Cada um. Vivos. E assim devemos ficar.

Mãe, hoje não irei.
Mas é porque quero preservar você.
Quero preservar o pai.
Quero todo mundo vivo.
Só por hoje não irei.
Mas eu tenho a chave de sua casa.
E um dia vou abrir
E vou beijar você.
Feliz Dia da Mãe.
Feliz Dia da Avó.
Fique viva.
Fiquemos!

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Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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