Imagem: Gerada por IA
Como prometido, estou de volta pra contar como foi finalizar minha expedição pela ESTRADA REAL (@institutoestradareal), percorrendo o CAMINHO DO SABARABUÇU, o menor dos quatro caminhos, com aproximadamente 160 km e que forma um loop partindo de Ouro Preto, conectando os distritos de Cocais (Barão de Cocais) e Glaura (Ouro Preto). Esse caminho é uma ramificação oficial do sistema de rotas conhecido como Estradas Reais, estabelecido pela Coroa Portuguesa no século XVIII no Brasil Colônia, criadas no Brasil em função da mineração, no século XVIII, que ligava Barão de Cocais a Glaura.
Começamos por Glaura, historicamente conhecida como Casa Branca, um encantador distrito de Ouro Preto, que fica situado a pouco mais de 30 km do centro histórico. Esse vilarejo do século XVIII conta com 1.515 moradores e proporciona uma experiência tranquila com suas ruas de pedra, casas coloniais, natureza, culinária típica e artesanato local.


Cheguei ali na hora do almoço e já encontrei a CHOPERIA GLAURA (@choperia_glaura), bem ali no centro, que me pareceu um lugar bem agradável. E não errei na minha escolha…

Primeiro de tudo, como sempre faço em todas as minhas paradas durante a viagem, procurei – e encontrei- produtos da região.

Encontrei cerveja – e chopp também. Óbvio que não deixaria de experimentar, né? A GLAURA BEER é uma cerveja artesanal produzida no distrito de Glaura, em Ouro Preto (MG). Conhecida pelo chopp fresco e rótulos como a IPA – Glaura Beer – Untappd, foi o destaque do 1° Festival de Cerveja Artesanal da região.

Queria deixar um registro aqui: quando pedi pra levar uma garrafa da cerveja GLAURA BEER pra viagem, foi verificado que só havia o produto gelado. O responsável pela Choperia, então, generosamente, disponibilizou um porta garrafa térmico pra que eu pudesse levar a minha Red Ale.

Comidinha mineira muito gostosa, com pimentinha e farofa feita na cidade… O que mais eu poderia querer? Estava tudo perfeito!


Dali fui pegar o carimbo referente a Acuruí, distrito de Itabirito, que conta com menos de 500 habitantes e que fica aos pés da Serra do Gandarela. E aqui, observando apenas o mapa, cometi um pequeno (grande) erro: ao invés de ter ido direto para Itabirito e, depois, para Acuruí, resolvi fazer diferente, indo primeiro buscar o carimbo no distrito. Ocorre que o ponto de coleta do carimbo não era exatamente no lugarejo, mas bastante distante, numa pousada muito fora de mão. Isso atrasou todo o planejamento…
Mas, vida que segue.
Chegamos, enfim, em Itabirito, município brasileiro situado na região geológica do Quadrilátero Ferrífero, na parte central do estado de Minas Gerais, na Região Sudeste do país. Localizado a cerca de 55 km da capital Belo Horizonte, o território faz parte do chamado Colar Metropolitano de Belo Horizonte e abrange uma área de aproximadamente 540 km², dos quais 21 km² correspondem à zona urbana. Sua dinâmica urbana está historicamente ligada ao eixo de Ouro Preto, do qual se desmembrou, e geofisicamente às bacias hidrográficas das áreas adjacentes.


Fiz contato com Carlos Carmo (@carlos.carmo.9) do Centro de Referência e Informações Turísticas de ITABIRITO, que me passou informações valiosas, que eu repasso a vocês:
Pastel de Angu – Uma delícia de história: Das mãos das escravas Maria Conga e Philó, segundo relatos, veio esta iguaria tão apreciada. O bolinho feito com sobras de angu, recheado com carne foi a base da receita, e quando não havia a carne, entrava o umbigo de banana cozido como recheio. É visível como a linha de transmissão do saber se deu a partir das mulheres, que moldaram a receita e transmitiram a suas descendentes.
Ao longo dos tempos a receita foi sendo aperfeiçoada, sem perder sua essência.
Hoje o modo de fazer o Pastel de Angu é registrado como Patrimônio Imaterial de Itabirito, resguardando assim o modo artesanal de fazer o pastel, incluindo a utilização do fubá de moinho d’água e a modelagem da massa.
O consumo do pastel de angu, hoje em dia, contribui para o movimento da economia local através da sua produção.
Em Itabirito, contamos com mais de vinte mantenedoras registradas, que ajudam a disseminar o modo de fazer o pastel, assegurando a manutenção e a salvaguarda deste bem.Na culinária típica de Itabirito, a grande estrela é o pastel de angu. Criado na Fazenda dos Portões no Século XIX, é considerado patrimônio da cidade. A iguaria foi feita pelas escravas Philó e Maria Conga, aproveitando a sobra do angu – principal refeição dos escravos. Elas recheavam com guisado feito de umbigo de banana e restos de carne para, assim, fritar o quitute na banha de porco.
Com o passar do tempo, o pastel de angu virou uma paixão dos moradores da cidade e dos turistas, que a visitam só para experimentar a delícia. Aos poucos, ela foi aprimorada com outros recheios, como frango, bacalhau e carne seca com catupiry.
Realizado pelas mantenedoras do modo de fazer o pastel de angu com apoio da Prefeitura Municipal. O Pastel de Angu de itabirito e o seu modo de fazer apresenta relevante valor histórico e cultural, que permite identificá-lo como um Bem Imaterial e joia gastronômica da cidade, que merece ser destacado, efetivando assim, a sua preservação, conservação e valorização. Portanto, a realização de Oficinas do Modo de Fazer o Pastel de Angu é uma importante ferramenta para preservação deste bem imaterial.A Festa Gastronômica do Pastel de Angu foi criada para valorizar a culinária itabiritense. As mantenedoras do modo de fazer o pastel de angu trabalham na feira com barraquinhas em que são vendidos os pastéis, prato típico de renome na cidade. A programação da festa conta com shows e uma noite de gastronomia e boa música. Shows de jazz e blues, apresentações culturais e oficinas do modo de fazer pastel de angu.
Ah, e ele me passou também a receita do famoso Pastel de Angu de Itabirito. Ainda não fiz, mas pretendo. E se alguém puder me mandar também as receitas dos pastéis de Conceição do Mato Dentro e Machado, eu agradeceria. Quem sabe não faça as três versões, pra ver qual delas é a mais gostosa – ou se cada uma, dentro do seu contexto e da sua história, tem sua relevância e sabor característico, não havendo que se falar se há uma melhor que a outra…
INGREDIENTES
• 1500 ml litro de água• 1 quilo de fubá de milho moído em moinho d’água peneirado• 2 colheres de sopa de óleo bem cheias• 1 colher de chá de sal• 1 pitada de bicarbonato• Meio copo americano de polvilho azedo • Recheio a gosto: carne moída, frango, queijo, bacalhau e umbigo de bananaMODO DE PREPARO
1. Coloque para ferver em uma panela, a água, o sal, e o óleo. Assim que estiver fervendo borbulhando coloque o bicarbonato e em seguida vá acrescentando fubá e vá mexendo rapidamente com uma colher de polietileno para não embolar.2. Deixe cozinhar até desprender da panela.3. Depois tire do fogo e vire numa bacia, acrescente à massa o polvilho. Sove a massa ainda quente, até ficar consistente.4. Fritar em óleo bem quente e não mexer até que comece a dourar.Destaca-se, em meio a transformações, um elemento que permaneceu: o uso do fubá de moinho d’água. Quando se conversa com qualquer mantenedora do pastel de angu – como são chamadas as mulheres responsáveis por manter a tradição da receita e que são consideradas referências na produção e comercialização da iguaria na cidade – nota-se que o ingrediente principal e insubstituível do pastel é o fubá feito artesanalmente em moinhos d’água, o que torna este instrumento típico de fazendas da região outro bem cultural digno de interesse e preservação.
Encontrei uma foto na internet com as sete responsáveis pelo VAGÃO DO PASTEL DE ANGU (@vagaodopasteldeangu), que fica na Praça da Estação desde 2024, em Itabirito: Zarinha, Didi, Irene, Rosilene, Zizi, Neia e Cláudia Leonel, que são mantenedoras do “Modo de Fazer o Pastel de Angu” e, como o próprio nome já diz, são elas que mantêm a tradição que atrai a atenção para a região, para o produto e para a cultura, ajudando na economia e no desenvolvimento do município.


É claro que eu teria que experimentar, né? Por indicação, corri num local que vendia o tradicional ali perto, já que o vagão ainda não havia começados os trabalhos. Realmente, há uma diferença entre esse, de Itabirito, e aquele que comi lá em Conceição do Mato Dentro, e que mostrei no artigo anterior. Mas não farei análises por agora. Quem sabe, em breve, ainda faça um artigo falando das três versões – Itabirito, Conceição do Mato Dentro e Machado – e me aprofunde mais sobre a polêmica acerca do verdadeiro detentor do título de “criador” da iguaria…


Mas ele ainda falou sobre a MERCEARIA PARAOPEBA (@merceariaparaopeba), que é registrada como bem Imaterial de Itabirito e se destaca pela enorme variedade de produtos comercializados, estando sob a administração da mesma família desde o ano de 1894!


Não tive dúvidas e fui correndo conhecer essa preciosidade. Soube pelo Roninho, que é da quarta geração à frente do negócio, que seus filhos continuarão o legado que, diga-se de passagem, é impressionante! São milhares de itens – incontáveis mesmo! – espalhados em um pequeno espaço. A gente até se perde lá dentro, sem saber pra onde olhar…

Segundo eles mesmos:
Somos uma mercearia tipicamente mineira. No popular, vendemos e compramos. Mas nessa simples e tão tradicional atividade, inserimos ingredientes que aprendemos com nossos antepassados: amor ao que fazemos e respeito a quem nos procura, dos nossos fornecedores aos nossos fregueses. Vendemos produtos que, na maioria das vezes, transportam sentimentos e viagens ao tempo. Produtos, em muitos casos, extintos do mundo moderno e competitivo pois são feitos, ainda hoje, manualmente por artesãos ou produtores rurais locais.
Comprei favas brancas, feijão vermelho e alguns outros tantos produtos – a vontade que dá é levar um pouco de tudo! Mas eu estava em viagem, o que complicava um pouquinho. Mas voltarei ali, em breve, com a calma que o lugar precisa…


Por conta de tantas informações, acabei saindo de Itabirito mais tarde do que previa, o que não foi muito bom. Afinal, para chegar no próximo destino, enfrentei uma estrada de terra nada convidativa, que piorava com o avançar das horas e a chegada da noite.

Felizmente, deu tudo certo e cheguei no ponto do próximo carimbo, Rio Acima, município mineiro localizado a apenas 34 km de Belo Horizonte e famoso por ter 100% de seu território inserido na Área de Proteção Ambiental (APA Sul), abrigando mais de 90 cachoeiras, casarões coloniais, a Estrada Real e trilhas para o ecoturismo e bike.


Eu e Andréa chegamos no ponto do carimbo ARMAZÉM VOVÓ NINITE (@armazemvovoniniterioacima) bem no finalzinho do expediente, mas o senhor que lá estava foi bastante atencioso e nos atendeu. Como vi que se tratava de um pequeno empório, pra não perder o hábito, encontrei uma cerveja da região, a ART BIER, produzida com água natural da Serra do Gandarela. No caso, encontrei uma curiosa Saizon Goiaba…


No dia seguinte saímos cedo e rumamos para Honório Bicalho, distrito histórico da cidade de Nova Lima (MG), situado às margens do rio das Velhas e parte da Estrada Real. O nome original da região era Ribeirão dos Macacos, mas foi renomeado em homenagem a um importante engenheiro brasileiro.


Ali encontrei o Renato Bernardo, que estava no PIT Honório Bicalho – Casa Estrada Real e me deu boas informações e orientações sobre a região. E também descobri que ele possui um perfil no Instagram – @novalimaacervo – dedicado à história, cultura, memória de Nova Lima – cidade historicamente reconhecida pela extração mineral, principalmente do minério de ferro e do ouro – e região, com fotos raras, curiosidades e registros históricos.


Partimos, então, para Raposos – pronuncia-se, conforme os moradores, “rapÓsos” – município localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a apenas 32 km da capital, que possui cerca de 16 mil habitantes, banhada pelo Rio das Velhas, que oferece um clima tranquilo de interior, ideal para quem busca natureza e história. Seu nome é uma homenagem ao seu fundador, o bandeirante paulista Pedro de Morais Raposo.

De lá, seguimos por uma estrada de terra beirando o Rio das Velhas, que não estava lá essas coisas, chegando em Sabará, por um caminho meio “assustador”, por conta das “pirambeiras”… Mas chegamos e isso é que importa.

Sabará é uma cidade histórica de Minas Gerais situada aproximadamente a 19 km de Belo Horizonte. Conhecida por sua arquitetura colonial e pelo ciclo do ouro, a cidade conta com atrações como o Museu do Ouro e igrejas barrocas, além de ser palco do tradicional Festival da Jabuticaba.




Na entrada da cidade fui pegar o carimbo no CAT – Centro de Atendimento ao Turista (@descubra.sabara). E foi muito bom, pois obtive das pessoas dali muitas informações relevantes.
Por exemplo, fiquei sabendo que Sabará é a terra natal da jabuticaba-sabará, a variedade mais nobre e clássica da fruta. A forte relação cultural e econômica é reconhecida pela Indicação de Procedência (IP) do INPI.
O registro de IG permite delimitar uma área geográfica, restringindo o uso de seu nome aos produtores e prestadores de serviços da região. Ou seja, esse selo identifica a origem de produtos como geleia, licor, molho, compota, entre outros, uma vez que Sabará se tornou conhecida pela fruta e a qualidade dos produtos se deve a sua origem.
A partir desse registro, o uso do nome da jabuticaba de Sabará está restrito para produtores prestadores de serviço da região, evitando que pessoas de outros locais tentem vender os itens como se fossem da nossa cidade. A indicação de origem foi concedida em nome da Associação dos Produtores de Derivados de Jabuticaba de Sabará.
A jabuticaba é sazonal, dependendo da época de chuvas para que seja produzida. A fim de aproveitar ao máximo a safra, os produtores trabalham nos derivados de jabuticaba, de preparo artesanal e com base em diversas receitas tradicionais, passadas de geração a geração. Isso é considerado um forte elemento de manifestação cultural de quem habita o município, de modo a envolver a comunidade no conhecimento, reprodução e perpetuação do saber. (www.inpi.gov.br)
A relação entre a cidade mineira e a fruta é profunda, englobando aspectos históricos, científicos e gastronômicos. Os derivados mais famosos incluem licores, geleias, molhos e compotas.

Outra dica valiosa que recebi do pessoal do CAT foi onde almoçar. O lugar indicado foi o RESTAURANTE DONA MARIA DO POMPÉU (@restaurantedonamariadopompeu). O lugar nasceu do talento e do carinho da Dona Maria – fundadora do primeiro restaurante da região, falecida aos 94 anos – pela comida caseira. Depois de já estar servindo seus pratos com ora-pro-nóbis, veio o convite da Prefeitura para participar do 1º Festival do Ora-pro-nóbis. A partir daí, a tradição ganhou ainda mais força, e o restaurante virou referência na cidade.



Conhecemos a filha da Dona Maria – parecida, não? – que falou um pouquinho desse linda trajetória.

Diante de pratos tão deliciosos, ficou bem difícil escolher – queria que coubesse tudo em um prato! – mas fiz um apanhado geral, principalmente o famoso ora-pro-nóbis, que conheço tão bem!

Bem ao lado do restaurante, tinha um pequeno empório, com produtos locais. Nem preciso dizer que, quando me deparei com linguiças de pernil com jabuticaba e com ora-pro-nóbis, não resisti, né? E, realmente, eram muito boas!!!


E, por ali, encerramos nossa expedição pelo Caminho do Sabarabuçu. Tínhamos os carimbos físicos suficientes para garantir o Certificado e, pelo caminho, conseguimos finalizar os carimbos virtuais. Não chegamos a ir até Caeté por conta do horário apertado, mas estávamos a menos de 10km de lá, requisito necessário para obtenção do carimbo virtual. Mas, de uma próxima vez, irei até lá. E assim completamos os carimbos…

E, assim, finalizei a ESTRADA REAL.
No próximo artigo, farei minhas considerações finais, mas já vou dando um spoiler: vale muito a pena!
Até lá!




















