
por César Manzolillo

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FOME NOTURNA
O relógio marcava duas e meia da manhã quando, impulsionado pelo vazio, os olhos de Olavo se abriram. Não era um vazio na alma, mas no estômago, um vácuo que exigia satisfação urgente. Ele caminhou descalço até a cozinha, o piso frio fazendo as vezes de tapete vermelho para aquele hábito diário. A luz amarela da geladeira cortou a escuridão e revelou o tesouro: uma torta de chocolate belga reservada para o jantar da próxima noite. Olavo pegou uma colher. Apenas uma colher para acalmar o monstro, pensou. A primeira colherada deslizou macia pela garganta, produzindo uma explosão de açúcar e endorfina. A boca exigiu mais. Duas colheradas. Quatro. Metade da torta desapareceu em minutos, e o prazer inicial deu lugar a um peso incômodo na consciência, mas o comando em sua mente era claro: Não pare! Quando a colher raspou a louça do fundo do prato, a torta havia sumido. Olavo olhou para os lados, os lábios sujos de calda de morango. Não havia mais fome nem desejo, apenas a sensação de estômago distendido e a certeza de que, no dia seguinte, o ritual se repetiria.
CÉSAR MANZOLILLO

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com Márcio Calixto
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