Campanha da Fraternidade: um indulto à nossa humanidade!

A campanha da fraternidade movida pela Igreja Católica deste ano será Fraternidade e Superação da Violência. Não sou religioso. Podem até me considerar um ateísta convicto.

No entanto, todo ano eu me rendo às campanhas que a CNBB move. Por um simples motivo, sou uma pessoa humana. Fazer tal afirmação pode até soar desnecessária, uma redundância ultrajante, por sermos todos humanos. Professor que sou, humano com certeza. Porém, não tem como não acreditar numa falência de nossa humanidade quando vemos o tanto de prova que surge de um lado para outro.

Viver no Rio, então, parece que todos os sensos humanos já faliram. Acordar 2018 com a história de uma mulher, grávida de seu primeiro filho, que tomou um tiro na cabeça em uma rua da Baixada Fluminense deixa a gente ainda mais desesperançoso. Esta mesma Baixada Fluminense: foi aqui que perdemos Artur, com um tiro no ventre de sua mãe, e a criança não teve chance à vida.

É o cúmulo de um absurdo que parece não mover o sentimento de nossos políticos.

Políticos: uma classe a parte do Brasil. Essa casta que tem no judiciário ecos de um planeta colonialista, de um universo carcomido por histórias ultrajantes, uma via láctea sem precedente de apropriação do erário, sob o manto de uma legalidade que é amoral, imoral, injusta, salafrária. Brasil.

Rio: a cidade com cheiro de pólvora. O salgado sabor de nossa maresia foi suplantado pela acidez metálica da constância dos tiros. Eles tiram vidas. Crianças infinitas em vida e em olhares, ceifadas de nossos cotidianos, alvos encontrados de balas perdidas. Para piorar, nossa raiva insensata encontra na irresponsável voz soprana do coro que vocaliza a imbecilidade armamentista, do bandido bom é bandido morto, dando ares de mito a um usurpador contumaz do erário, um ineficaz de Bolso aberto, mente reclusa e capacidade totalmente questionável. Símbolo de nossa história contemporânea de retrocessos.

E andamos a passos de cavalo para uma sociedade burra, anencéfala.

Aí vem a Campanha da Fraternidade. Seu nome é lindo. Fraternidade. Eu sou a favor da religião positiva, construtiva, com verdadeiro senso altruísta, para o povo, para o próximo, para o irmão, para a bela construção do indivíduo. Não precisa, claro, ser religioso para ser humano. Posso não acreditar em Deus, mas acredito no poder imanente do ser humano. Para isso, ele precisa ser humano. Não nego, mais uma prova de minha ingenuidade. Porém, isso não deixarei destruir, mesmo que as notícias cotidianas propagadas sejam tão negativas.

Vou usar então esta minha coluna aqui o ArteCult para emanar alguma positividade. Ela é possível, ser positivo. Valioso. Valoroso. Sem ser um admoestado varão. Rótulos indumentam limites. É preciso superar esse caos peculiar da bala e da bomba, do síbilo do projétil que corre nossos ares, que atinge nossas casas, carros, que deita nossos homens e mulheres em vias sem sinais semafóricos, mas que dão sinal de nossa ignorância, falta latente de educação, de escola, de saúde, de distribuição de riqueza, de qualidade de vida, de equilíbrio entre classes, de respeito às identidades, de desapego às separações sociais. É tudo uma falta. A de humanidade.

Aleppo, a destruída cidade da Síria, hoje se reconstrói. Homens e mulheres movem suas forças para fazer daquela que era a cidade mais elegante ter os ares do passado. Resgate de humanidade. O trabalho é hercúleo. Porém, possível.

Alepo. Segunda maior cidade da Síria. Antes e depois da Guerra.

Aquela mãe da Baixada, grávida de oito meses, saiu do hospital bem, depois de levar um tiro na cabeça. Seu filho sobreviveu a um parto forçado. Família que parecia destruída, agora sedimenta nossa esperança, ainda que pouca, mas sedimenta. É um tantinho só, por que não se agarrar a isso tudo?

Este ano de 2018 também nos reserva uma eleição presidencial em época tão conturbada. Por que também não movermos nossas esperanças e votos em torno de alguém que possa ser justo, equilibrado, que ecoe nossa voz justiça social, educação, trabalho, dinheiro para todos, escola e saúde de forma humana, sem nos colocar no limite, na berlinda da sobrevivência? Eu tenho essa fé.

Fé! Um ateísta falando de fé. Pode soar paradoxal. Mas isso é plenamente humano, e eu tenho fé na humanidade.

MARCIO CALIXTO

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

One comment

  • Esse texto traz todo o meu pensamento de uns dias pra cá. Já cheguei a pensar estar perdendo a humanidade de já achar ” normal” tanta notícia de violência, de ver tanta gente morta. Acho que este texto reflete a minha vontade de voltar a ter esperança no mundo, no ser humano. Faço minha todas as suas palavras, Márcio Calixto. Parabéns !! Fiquei emocionada ao ler este belo artigo.

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