
Com Ana Gosling

Imagem: IA/Chat GPT
PROFUSA
Para o colega da mesa ao lado, ela é superficial, apontando os procedimentos estéticos das atrizes. Para o da frente, é profunda ao analisar a estrutura dos textos. Para o chefe, prática. Para o subordinado, compreensiva.
Para o pai, menina que não dispensa sua proteção eterna. Para a mãe, mulher moldada com a mesma fibra das ancestrais. Para o irmão, parceira. Para o primo, distante. Para a prima, independente. Para a amiga, grude.
Alguns se lembrarão da sua gargalhada estridente. Outros, de seus olhos tristes. Muitos mal associarão seu nome ao rosto fino, à cor do cabelo ou à voz marcante; será borrão na memória.
Contarão histórias suas, quando partir. Os amigos de diversão narrarão as engraçadas. Os companheiros de jornada destacarão as solidárias. Será protagonista ou vilã, dependendo do narrador: entre os que a amaram e os que a tentaram ferir, há versões múltiplas. Em muitas, aparecerá apenas numa citação, como testemunha de um pedido ou cruzando um corredor. Nessas, sorrindo ou ignorando presenças, não fará diferença à trama.
Sempre haverá quem recorde imensos gestos de que ela não se lembra mais. Quem seja grato por frase dita, lanterna em dia ruim. Aqueles que nunca puseram fé em palavra sua, ignorando-a. Quem tenha se magoado pelo tom da resposta que na memória, a cada ano, soa mais agressiva.
Para uns, sua presença é alegria. Pra outros, desconforto. Pra muitos, nem se nota.
Ela não controla as memórias criadas. Não administra o amor nem mesmo quando investe em sua direção. Nada a protege de ser deixada por quem prometeu ficar. Como poderia protegê-la do sentimento de quem se recusou a estar? Como poderia moldar as pequenas marcas criadas em interceções com os outros? Não lhe dói saber-se passageira em emoção menor ou eterna em sentimento enraizado. Não lhe afligem as dívidas que não sabe existirem, nem a consola o grato carinho de quem nunca se declarou.
Se lhe perguntam a verdade (“superficial ou profunda?”), dá de ombros àquilo que não pode controlar. Se insistem (“carente ou independente?”), ela não abre mão de nenhuma parte: “sou tudo”! O dia, o tempo, o lugar, a companhia, a realidade do mundo… ela é o que pode ser diante do desafio. Amável com quem lhe abriga; feroz com quem lhe tenta ferir. Acolhedora para quem lhe pede colo; distante com quem se afasta. Talvez, um dia, quem não teve chance esqueça de falar sobre um gesto insensível, sepultando-o entre crônicas não publicadas.
Ela torce para estar, somente, em capítulos bonitos das histórias de quem amou. Sendo perdão, coragem, memória doce. Mas, sabendo-se múltipla, já não se preocupa. Escreve para si a própria trama. Cola estrelas douradas nas folhas de que se orgulha. Molha com lágrimas as de arrependimento. Desenha flores no canto dos trechos amorosos.
E segue. Sendo a melhor presença possível nos dias que se apresentam diante de si.


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo














