4ª JORNADA DO PATRIMÔNIO – Um final de semana para conhecer a cidade e refletir sobre o espaço que vivemos e ocupamos

Jornada do Patrimônio, corriqueira na Europa (La Journeé du Patrimoine, França) e nos EUA (Open House, Nova York), teve a sua 1ª edição em 2014 na cidade de São Paulo. A finalidade da organização, bancada pela Secretaria de Cultura Municipal, é promover o acervo patrimonial público ou privado – edifícios, casas, prédios, monumentos – da cidade para que seus habitantes os conheçam e, por tabela, os valorizem. Eles contam um pouco da história urbana: costumes culturais, formas de habitação ou de trabalho, artes predominantes em uma determinada época, enfim, como se vivia ao longo do tempo. Isto se constitui memória da cidade, algo não muito considerado por nós, brasileiros. Em São Paulo, a memória urbana foi, durante muito tempo, varrida das vistas. O velho era considerado atraso e o novo, símbolo do progresso.

Felizmente, durante os anos 2000, na capital paulista, surgiram movimentos da sociedade civil preocupados com esta perda de valorização do patrimônio urbano. A Jornada veio nessa esteira.

Neste ano, mais de trezentos eventos abarcaram a sua proposta: palestras, oficinas, passeios e visitas guiadas. Havia um pouco de tudo para o citadino se esbaldar pela cidade. O interessante é que apesar das atividades se concentrarem no Centro, várias outras ocorreram em locais nos extremos de São Paulo também.

A colunista que vos escreve, foi conhecer, num domingo chuvoso, o processo de restauro do painel de mosaicos do Di Cavalcanti, “Alegoria das Artes”, painel este que se encontra na parte externa, à entrada do que era antes o Teatro Cultura Artística (arquiteto: Rino Levi), no Centro.

infográfico – comparação da correções feitas – 2010/2011 (FSP – 03.10.2010)

A palestra foi ministrada por duas arquitetas que trabalharam na restauração do painel, Raquel Schenkman do Deptº Patrimônio Histórico de São Paulo e Isabel Ruas, diretora da Oficina de Mosaicos. Mostraram como foi o trabalho, dos desafios às descobertas. Para quem não se lembra, o Teatro Cultura Artística sofreu um incêndio em 2009 que o deixou em ruínas, menos o painel. O motivo do “salvamento” foi a existência de uma parede dupla que protegeu o trabalho do fogo. A restauração ocorreu entre 2010 e 2011.

O primeiro cuidado, segundo as especialistas foi comparar o desenho feito pelo pintor e o que foi realmente colocado na parede. Desta comparação verificou-se que havia diferenças e o processo de instalação sofreu interferências do próprio Di que expandiram a obra. Em seguida, houve o desafio de verificar as pastilhas, sua deterioração ao longo do tempo (houve alguns “remendos” na década de 70 que se mostraram um desastre…). Em um dos “causos”, elas relataram que um tipo de pastilha, chamada de dourada, foi tão desgastada pelas intempéries que ficou em estado de “papel de seda” … E para ter uma nova leva das mesmas peças ? Foram necessários seis meses até que o fabricante (a fábrica existe até hoje …) chegasse na cor certa e, ao mesmo tempo, não permitindo que reações químicas as degradassem. Ufa… Que desafio …

Interessante foi saber que desta tarefa minuciosa, levada a cabo pelo Deptº do Patrimônio Histórico Municipal, surgiu um memorial, uma espécie de diário, que reconta todo o processo de recuperação da obra de Di Cavalcanti, desde da entrada até a saída da equipe. Acreditem se quiserem: foi feito um desenho sobre acetato de toda a disposição das pastilhas, sim, uma a uma as pastilhas estão desenhadas nestas placas plásticas em tamanho natural. Para quê isso ? Num futuro, se necessário, os restauradores podem saber onde cada pastilha está. Curioso, não é ? Tem que se pensar no futuro, como forma de preservar a memória …

A palestra teve lugar no Drosófila Bar, uma cottage dos anos 20, recuperada pela atual proprietária que manteve muita coisa original da época: lustres, azulejos, pisos. Além de ficar próximo ao painel, existe uma conexão entre os dois espaços: ambos tentam resgatar e preservar a memória da cidade…

Drosófila Bar – foto: Alexandre Disaro

Bem, a ideia, neste texto, foi mostrar que existem iniciativas com intuito de motivar os cidadãos a conhecerem as suas cidades, a saírem de seu conforto e descobrirem lugares fascinantes que contam histórias.

ANDRÉA ASSIS


SERVIÇOS:

Nota: o painel com o mosaico de Di Cavalcanti está fechado à visitação pública, devido à preparação do terreno para a futura reconstrução do Teatro Cultura Artística que, segundo informação das arquitetas, começaria em outubro deste ano. Existe um projeto do novo teatro (v. foto da fachada com o painel), mas não há nada oficial, até o momento.

atual estado do painel em agosto de 2017 – foto: AAssis

novo conceito do teatro com o painel integrado

Drosófila Bar: http://www.drosophyla.com.br/

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Andréa Assis
Carioca, mas paulistana da gema radicada há mais de 20 anos na capital. Formada em Relações Internacionais, tem mestrado em Administração de Empresas em Lyon, na França. Orgulhosa da cidade onde vive, adora mostrá-la aos visitantes, sejam eles brasileiros ou não. Procura sempre descobrir lugares novos e diferentes, por isso sempre se mantém atualizada sobre o que acontece nestas bandas. Para isso, vai sempre às exposições que pipocam aqui e acolá e é sobre elas que pretende lançar seu olhar crítico que não se restringe só às obras, aos trabalhos expostos, mas também ao ambiente: como estão organizadas, se existem informações para os visitantes, enfim, se vale a pena o leitor investir o seu tempo para ir vê-las. Eventualmente, faz críticas de filmes, mas prefere deixá-las aos mais habilitados. Mas não deixa de acompanhar os lançamentos. Humildemente, pede ao leitor paciência para com o que ele lê aqui no espaço, pois a escritura e análise pedem apuro ao longo do tempo.

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