Ser pai é um risco. Só.

 

 

Ser pai é um risco. Só.
Você extrapola os limites coronarianos. Expõe afetos em constância de sorriso. Julga que tem controle sobre os pimpolhos; arrisca-se a educar sobre égides que considera fortes. Mas você é um. O mundo é muitos. E os filhos são seus de fora. Eles só pertencem a você quando estão sobre o controle de sua casa, suas portas e janelas. Filhos voam. Desde que nascem e cada dia é um nascimento. E esse é todo risco do mundo. Não há como lutar.

Ser pai é um risco. Só.
Quando você vê, lá está sobre suas mãos o sorriso. Eles crescem. E você diminui. Seu ego, seu elo a si, sua visão frontista e destemida se perfaz. Você olha aquele serzinho. É tudo em suas mãos. Quem é você? Eu agora sou pai. Não há mais o mundo lá fora. Você é pai. Surge um risco. Esse que rasga o coração e encaixa ali uma nova alma. A alma de que há uma outra (dez anos depois vem o outro) e tudo não é mais seu. Eles são. Você não.

Nasce a filha. Nasce o pai.
Nasce o filho. Renasce o pai.
O nome Papai é sincero.

Ele se inicia com Pá.
Som de pancada. Instrumento de obra. Abre o flanco no solo, onde se finca a semente. Toda semente é minúscula. Mas no minúsculo se esconde a estrondosa história da árvore que está vindo.
Sementinha é a forma boba e sutil com que explicamos o vigoroso ato de se amar.
Depois do vigor. O susto. Há fruto. Há furto. O filho rouba tudo.
E amamos essa forma sutil de se perder. Olhos lindos, cabelos lindos, até a fralda violentamente preenchida é linda. Explicamos de forma boba a sementinha. Passamos a vida toda bobo por eles. A cada crescimento de um filho, nós, pais, nos diminuímos.

Assim que passamos a ser o outro, também passamos a não mais querer ser chamado pelo nome original. Qual seu nome? Pai. Como qualquer outro nome de pia. Sou Pai, Papai! Minha filha me chamava de Tutai. Meu filho me chama de Papaiê. Abre bocão. Esse nome márcio com que fui registrado podem esquecer. Só o uso para cerimônias sociais. Meu nome mesmo é Tutai-Papaiê. Para que outro?

Só o mudo quando me vierem netos. Mas até lá, tem muito flanco a ser aberto. Tem muita água a regar em meus bebês. Tenho uma bebê de 12, outro de 2. Símbolos graciosos da validade de minha vida.

Digo até de antemão que não me incomodo com aqueles que dizem não querer um filho. Alguns até comparam com o custo de ter uma Ferrari. Esses, por fim, já definiram seu sentimento pelo mundo. E não vejo Ferrari aos montes por aí. Eles não se valem ao risco.

Ser pai é viver o ato brando de rir sempre. Há no canto da boca uma expressão que não se apaga. Como homens, podemos ter a cara de mau que bem quisermos, mas quando aquele camarada é pai, um dos cantos da boca está pra cima. Pais não se escondem. Nunca.

Ser pai é um risco só.
Um dia, quando eles vêm, risca-se seu passado, risca-se sua história. Daquele momento em diante, eles é que escrevem tudo.
E você, sendo pai, senta. A cadeira é de balanço. Ela sutilmente mantem o embalo desse furacão gostoso que é ter filhos correndo, brincando, indo de um lado pro outro. Crescendo. O embalo não para.
Nunca.
A cadeira pode até ficar. Ela se rege da firmeza da árvore que você regou. Aquela sementinha.
Todos crescem. E você ali.
Sendo pai.
Eterno.
Em um risco.
Só.

MARCIO CALIXTO

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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