

A coragem da Cia. Amok em, pela primeira vez, trazer um espetáculo tão brasileiro — e justamente sobre um tema tão delicado — me deixou boquiaberta.
Que explosão de sentimentos.
Sinopse
Inspirado nos livros Cadeia – Relatos sobre mulheres de Debora Diniz, Prisioneiras de Dráuzio Varella, Presos que Menstruam de Nana Queiroz e Prisioneiras – Vida e violência atrás das grades de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz, o novo espetáculo Incondicionais resulta de um intenso processo de pesquisa documental e aproximadamente seis meses de ensaios. A dramaturgia foi construída a partir de entrevistas, depoimentos, artigos e estudos diversos. Nesse processo, o Amok Teatro mergulhou em um universo complexo, marcado por estigmas, violência e abandono. A cadeia surge como etapa final de um percurso que, muitas vezes, se inicia ainda na infância, na casa ou na rua. A cadeia é a linha final de um grande rito do abandono iniciado bem antes de chegarem ali. Os nomes e os rostos são diferentes, mas no final, todas se parecem nessa “máquina do abandono”.
Penso que uma mulher que se senta na plateia do Arena Copacabana e sai dali sem se comover talvez tenha deixado de conversar consigo mesma há muito tempo. Porque o espetáculo fala diretamente conosco. Fala de uma maneira tão contundente que saímos estarrecidas, ligando o modo análise para tentar compreender tudo o que acabamos de ouvir, sentir e testemunhar.
Que força.
Que beleza.
Que dramaturgia.
Ana Teixeira e Sthephane não escreveram apenas um texto; eles nos presentearam com uma obra de rara consistência. Se o texto é a espinha dorsal de um espetáculo, afirmo que esta dramaturgia foi forjada em metal nobre. Não se curva. Não enferruja. Não se quebra. Em alguns momentos, é uma pimenta-malagueta descendo goela abaixo. Arde. Provoca. Desperta.
Ainda estou impactada por algumas passagens. Histórias que me atravessaram profundamente.
Como ser acusada de infanticídio sem sequer saber procedimento médico? Tenho 52 anos e eu não sabia mesmo sobre um nascimento de um bebê. Muitas mulheres também não sabem, garanto. E seguimos vivendo, julgando, condenando, sem conhecer as circunstâncias/causas.
É um texto que nos obriga a pensar antes de apontar o dedo.
O cenário de Ana e o figurino de Sthephane praticamente desapareceram diante dos meus olhos — e digo isso como um elogio. Cumpriram exatamente aquilo a que se propuseram: servir à história. Não disputam atenção. Não querem ser protagonistas. Apenas sustentam uma narrativa dura, necessária e profundamente humana.
A iluminação de Renata Machado também contribui delicadamente para essa construção. Mas, desta vez, confesso: não foram cenário, figurino nem luz que me fizeram mergulhar naquelas quatro histórias. Foram as mulheres.
As mulheres presas.
As mulheres invisíveis.
As mulheres abandonadas.
Pouca gente sabe que a visita íntima para mulheres privadas de liberdade não é proibida por lei. No entanto, na prática, ela quase não acontece. Mais de um quarto das mulheres encarceradas sequer recebe visita social. São abandonadas pelas famílias, pelos companheiros e, muitas vezes, pela própria sociedade.
A solidão também cumpre pena.
E tudo isso o espetáculo aborda com uma sensibilidade impressionante.
Perguntaram-me, ao final:
— O que esse espetáculo trouxe para mexer tanto com você?
A resposta veio imediatamente.
Texto e atrizes.
Porque essa é a base de qualquer grande espetáculo.
Os demais elementos precisam ser competentes — e são. Mas um par de chinelo Havaianas, um lenço na cabeça, uma camiseta de malha e uma bermuda podem vestir uma prisioneira. O que nunca bastará é vestir uma personagem.
E é aí que mora a diferença.
Ao entrar no teatro, elas já estavam em cena.
Esperavam a plateia.
Esperavam os críticos.
Esperavam os artistas.
Esperavam a nós.
Eu também estava ali. Com meu echarpe, que mais tarde serviria de lenço.
A primeira cena, entre mãe e filha, já anuncia que não haverá concessões.
Taty Aleixo realiza uma atuação impressionante. Conheço seu trabalho, inclusive participa de um espetáculo meu, e talvez justamente por isso tenha ficado tão surpresa. Ela parece despir-se completamente de tudo o que já havia mostrado antes. Não veste apenas o uniforme de uma detenta. Veste uma alma encarcerada.
Sua expressão facial alcança lugares difíceis de explicar.
Ela nos conta sua história sem pedir pena.
Pede escuta.
E nós choramos.
Lembrei-me imediatamente de uma frase que ouvi do grande diretor Gustavo Gasparani:
“Essa menina tem tudo para ser imensa no teatro.”
Ele estava certo.
Ana Teixeira comentou, após a apresentação, que Taty cresceu muito entre um espetáculo e outro.
Concordo plenamente. E a voz? Prefiro calar-me, porque não há palavras para definirem o que essa menina nos apresenta ao cantar, ainda ei de me perder na floresta amazônica para encontrar um canto de um pássaro e comparar a voz de Taty Aleixo.
Se Sirleia Aleixo, a mãe de Taty é um furacão, nesta montagem Taty transforma-se em um terremoto. Derruba nossas certezas e nos deixa de joelhos diante de sua entrega.
Sirleia Aleixo, por sua vez, parece absolutamente livre em cena.
É impossível não perceber uma atriz segura, madura e consciente de sua potência artística. Sua personagem traz uma comicidade necessária. Em meio à dureza da narrativa, ela abre pequenas frestas de respiração sem jamais banalizar o sofrimento.
Na cena da mesa, enquanto as presas catam em um suposto refeitório, Sirleia é simplesmente deliciosa de assistir. Seu corpo fala. Seus olhos brilham. Há uma atriz completamente disponível para o jogo.
Quem conhece Sirleia sabe que o freio nunca fez parte do veículo que ela dirige pela vida.
E isso transborda em cena.
Dai Ramos interpreta uma detenta inquieta, combativa, reativa. Uma mulher presa por assaltos e pela contabilidade do tráfico.
Sua atuação impressiona pela versatilidade.
Ora é presa.
Ora é assistente social.
Como assistente social, carrega elegância.
Como detenta, carrega potência.
Sua interpretação é menos emocional porque assim exige a personagem. Mas sua força está justamente na contenção.
Quando canta, revela ainda outra camada.
Foi meu primeiro encontro com seu trabalho.
Espero que não seja o último.
Luciana Lopes talvez tenha sido responsável pelo momento em que mais precisei controlar as lágrimas.
Sua personagem atravessa a maternidade da forma mais cruel possível.
Dar à luz dentro de uma prisão.
Ter o filho arrancado dos braços poucos meses depois.
Perder a mãe.
Perder o chão.
Perder o sentido da própria existência.
Luciana me levou a um estado profundo de compaixão.
Por diversas vezes tive vontade de levantar da plateia apenas para abraçá-la.
Sua personagem diz, de alguma forma:
“Existem quilômetros de visitas para os homens presos, porque nós, mulheres, sabemos cuidar. Mas quem cuida de nós?”
Essa pergunta continua ecoando em mim.
Thay Aleixo interpreta a agente penitenciária.
Quase sempre silenciosa.
Observadora.
Mas nem mesmo ela consegue permanecer completamente impermeável à dor daquelas mulheres.
Porque ninguém consegue.
As atrizes se complementam de maneira admirável.
Os olhares conversam.
Os movimentos se acolhem.
Há uma escuta cênica rara.
É praticamente impossível dizer quem se destaca mais.
Porque todas decidiram mergulhar profundamente em suas personagens.
O sistema prisional é caro.
Violento.
Falho.
Os mesmos empresários que reclamam dos custos da prisão frequentemente fecham as portas para a ressocialização dessas mulheres.
Como recomeçar sem oportunidade?
Como voltar à sociedade quando ela mesma não quer recebê-las?
O espetáculo faz perguntas difíceis.
Mulheres que têm medo da liberdade.
Mulheres que já não sabem como funciona o mundo lá fora.
Mulheres que sentem saudades dos filhos.
Das mães.
Da própria identidade.
Mulheres.
A Cia. Amok teve coragem de fazer aquilo que muitos evitam: lembrar que ainda existe humanidade atrás das grades.
Que existe afeto.
Existe arrependimento.
Existe dor.
Existe possibilidade.
Ao ouvir relatos de um ex-funcionário do sistema prisional, fiquei me perguntando:
O que eu posso fazer?
Talvez essa seja a maior qualidade deste espetáculo.
Ele não termina quando as luzes se apagam.
Ele continua dentro da gente.
E continua perguntando.
Imperdível.
Como quase tudo que a Cia. Amok produz.
Ah…
E eu quase me esquecia da trilha sonora.
Belíssima.
Não acompanha apenas o espetáculo.
Abraça-o.



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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