Entre Facas e Segredos – Análise do Ponto de Vista Jurídico: Um mistério no qual você é convidado a ser um detetive

A busca pela verdade mostra-se quase como uma necessidade inerente ao ser-humano; um instinto que nos aflige e nos movimenta a desbravar os mais singelos detalhes que compõe esse imenso quebra-cabeça em que a falta de uma peça compromete toda a obra. Tal aspecto é muitíssimo bem explorado por inúmeros trabalhos artísticos (cênicos, cinematográficos e literais) e conhecidos por seus desfechos surpreendentes que fazem seus apreciadores ficarem estupefatos.

Entre Facas e Segredos (2019) possui esta proposta de instigar seus telespectadores a imergirem em um típico cenário de investigação policial, tendo como enredo a morte do patriarca Harlan Thrombey (Christopher Plummer), encontrado sem vida em sua residência, sob uma contundente suspeita de suicídio. Após ser contratado para apurar este aparente caso sem mistérios, o estimado detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig) usará toda sua expertise para trazer às claras todos os pontos ocultos deste fatídico ocorrido.

Apesar dos elementos característicos de um regular filme investigativo, o primeiro longa dirigido por Rian Johnson ousa por ter uma narrativa mais leve e aberta, apresentados, já em sua primeira parte, todos os contornos que circundam o mistério (não o fazendo de forma gradativa), valendo-se, para tanto, dos depoimentos dos familiares e funcionários do falecido, que, como esperado, cultivam, em sua maioria, alguma motivação velada que os colocam na categoria de suspeitos.

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Este ponto é muito interessante, uma vez que a investigação de um potencial crime (aqui seria um homicídio) deve ser encabeçada, em regra, pela polícia judiciária (federal ou estadual) por ser uma função típica do Estado, sendo esta também competente para a tomada de medidas necessárias ao deslinde do feito – um exemplo seria a realização de perícia no local do crime. O detetive particular, diferentemente, se reveste de uma função meramente consultiva, de maneira a colaborar, após o cumprimento de alguns requisitos, coletando dados e informações a serem apresentadas à polícia.

Tal matéria (atividade do detetive particular) tem regulação legal no Brasil por meio da Lei 13.432/2017, restando claro que sua função típica se restringe ao âmbito civil – não criminal -, sendo este último permitido na forma colaborativa. Ou seja, para que um detetive particular colabore em um inquérito policial (fase investigativa), ele precisa ter a anuência expressa (escrita) de seu contratante (suspeito ou vítima) e da permissão do delegado responsável pelo ato. Para mais, seu fator supletivo o impede de participar de atos restritos à competência policial, como, por exemplo, ter acesso ao conteúdo das escutas telefônicas obtidas pela polícia ou integrar uma ação de prisão de um suspeito.

De modo diverso, nosso detetive – Benoit Blanc -, goza de relevante liberdade em seu trabalho investigativo junto à polícia, somado a sua personalidade, por vezes, irreverente, que traz uma leveza necessária a um filme que não possui pretensões dramáticas. A leveza de sua abordagem a um tema sensível (morte) chama, naturalmente, a atenção do telespectador para o desígnio nuclear do longa: desvendar o mistério por detrás da morte de Harlan Thrombey.

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Essa abertura interpretativa faz com que a experiência visual não seja meramente passiva – acompanhar as descobertas dos fatos -, mas sim ativa, abrindo um leque de possibilidades que faz com que quem o assista tome para si a posição de investigador e dono de sua própria teoria sobre o acontecido. Junto a isto, o filme conta com uma fotografia arrojada, valendo-se de seus enquadramentos para apontar pontos importantes para o desenvolvimento da trama. Entre Facas e Segredos agrada bastante, com um roteiro intrigante e também divertido.

Lembre-se que o ato de apontar um culpado de maneira precoce (a investigação policial é um primeiro passo naquilo que se entende como persecução criminal) é tentador, mas extremamente danoso e irresponsável. Após a referida investigação, todos as informações colhidas são postas à disposição da justiça, que a submeterá a um processo judicial. Só após a sentença condenatória e o seu trânsito em julgado (impossibilidade de recorrer da decisão) é que se pode apontar alguém como culpado. Aproveite então para fazê-lo – descobrir o suposto culpado –  apenas durante o filme e se veja desafiado a desvendar um grande mistério!

 

DENI FILHO

 


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DENI FILHO
Sou Advogado, Consultor trabalhista e Empresário. Para o canal Cinema & Companhia do ArteCult realizo a análise crítica sobre obras cinematográficas – filmes, séries e desenhos - pautada também pelo olhar jurídico. Propõe-se uma abordagem leve, a fim de proporcionar um entendimento do tema pelo público em geral, trazendo em seu cerne uma dialética entre o mundo jurídico e a cultura pop contemporânea.

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