Depressão – Procurando fora o que está dentro

Olá. Como se sente?

Em nosso post anterior (leia-o aqui) comentamos sobre o deserto que intimamente atravessamos em nossa senda espiritual. São aqueles momentos em que uma aridez, uma secura espiritual nos domina e somos tomados pelo desanimo, a vontade de ficar parado, de desistir, de não mais continuar.

Ao estar no deserto íntimo, podemos revoltar-nos ou redimir-nos, entregar-nos aos seus perigos e as suas consequências ou fortalecer-nos no enfrentamento positivo dos desafios da Vida.

Meditando mais sobre o deserto não conseguimos deixar de pensar em uma doença que vem assolando cada dia mais a sociedade.

Foto: Shutterstock

Segundo o artigo do dr. JOEL RENNÓ:

Mais de 300 milhões de pessoas, ou mais de quatro por cento da população global, estavam vivendo com depressão em 2015 – um aumento de 18 por cento ao longo de um período de 10 anos (2005 a 2015).

Novos números divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que a depressão está aumentando em todo o mundo e agora já é a principal causa de incapacidade mental e física global.

Dan Chisholm, Conselheiro de Sistemas de Saúde do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS, e autor principal do relatório, observou que a depressão é uma doença que pode afetar qualquer pessoa, em algum momento de suas vidas.

Escasso de conhecimento técnico sobre o assunto e, nas palavras de pessoas que viveram ou vivem essa doença, só quem viveu na depressão conhece sobre depressão, convidamos Fatima Periard, que está ingressando na equipe de colaboradores (ela terá uma coluna no canal Cultura Profissional), para relatar sua experiência:

GA – Oi, Fatima! Sentimo-nos honrados com sua participação aqui no A ESPIRITUALIDADE DAS COISAS.

FP – Oi. Para mim é um prazer participar.

GA- Nos bastidores, você nos relatou que “passou” por esse quadro depressivo em certo momento da sua vida. Importa-se em falar sobre isso?

FP – Não me importo e acredito que esse relato pode ser útil para apoiar outras pessoas que passaram ou passam por situação parecida pela qual passei.
O que aconteceu comigo, resumidamente, foi que um sentimento estranho de tristeza, falta de entusiasmo pelas coisas e ansiedade me invadiram há alguns anos quando, à frente de um projeto complexo e importante na empresa em que trabalhava, ganhei visibilidade.
Isso incomodou tanto meu superior a ponto de me perguntar se eu queria o seu cargo. Algumas situações desagradáveis aconteceram até que, após quase 2 anos de trabalho intenso, muitas horas extras e nenhum dia de folga, fui convencida de que 10 dias de férias seria muito bom. Quando retornei, o login e a senha da máquina eram inválidos; eu não existia mais no sistema, nem aquele projeto, a empresa, os relacionamentos e amizades… Puxaram o meu tapete literalmente! Sem chão, perdida. Me senti frágil, sem controle da situação (até parece que um dia tive o controle). Lembro de ficar uma semana sem querer sair do quarto, me larguei por ali, afogada no passado e muito focada na perda. O passado não era referência, era residência, parei naquele verbo perder. Perdi-me no ontem e não vivia o presente. Eu tinha mudado de cidade, estava longe da família, dos mais amigos e não queria que os meus pais soubessem e ficassem preocupados porque, imaginei, serão mais pessoas estressadas e ansiosas com a situação, eu não vou envolvê-los. Meu marido foi muito amigo, companheiro, paciente. Comecei a tomar passes e dar continuidade ao tratamento espiritual e lembro de um comentário: “você está com depressão e a ida a um psiquiatra que pode receitar alguns medicamentos seria muito bom para você dormir melhor, ficar mais tranquila, tem reações químicas positivas para o seu quadro atual”. Daí vem o estigma não só em relação a depressão, mas ao psiquiatra, porque pensei “ei eu não sou maluca, não é uma doença mental”.

GA – Temos convivido com doentes depressivos já há alguns anos e todos são unânimes em dizer que só quem vive uma depressão sabe como se sente um depressivo. Há muito estigma em relação a essa doença?

FP – Eu não achava que estava com depressão, achava que estava estressada e triste. Fui impactada primeiro com o estigma em relação ao psiquiatra, porque imaginava, confesso, que psiquiatra tinha foco nas doenças mentais. Depois vencida a barreira do psiquiatra, fiz a consulta e vi que aquele estado de depressão por conta da perda do emprego, de um ente querido são normais, nos desequilibram, nos tiram do eixo e que a medicação pode ajudar sim, o que de fato aconteceu. Melhorei e muito e em um mês e meio depois da demissão estava trabalhando de novo em outro projeto. A medicação que o psiquiatra passou, a sessão semanal com um psicólogo, a aula semanal de yoga e o tratamento espiritual, bem, esse “mix” me trouxe de volta para o presente e lembro de estar bem leve e tranquila ao término da aula de yoga me prometendo que sempre daria o melhor no trabalho, mas que eu não viveria mais para o trabalho, percebendo que a vida é muito maior e o quanto aquele foco extremo na minha profissão, talvez buscando reconhecimento e aceitação, me roubou do meu marido, dos meus gatos, dos meus amigos, da minha família, de mim mesma. As pessoas que me conheciam sabiam o que eu tinha passado e só comentavam como eu estava mais bonita e leve e tinha vencido aquilo tudo rapidamente. Hoje em dia muitas pessoas vivem situações difíceis no mundo corporativo e passam pelo que eu passei, muitas pessoas perdem pessoas queridas e passam pelo que eu passei, muitas pessoas são diagnosticadas com doenças graves e passam pelo que eu passei.

GA – Uma das palavras que mais nos chamou atenção na sua narrativa foi “passei”, por isso a colocamos entre aspas. Muitos dizem que uma vez depressivo sempre depressivo. Você concorda com isso?

FP – Discordo totalmente. Eu “passei”. Hoje eu entendo que a depressão foi uma oportunidade para eu me reencontrar. Eu me perdi, me desconectei da minha essência, de mim; busquei fora, no projeto, no trabalho, na empresa, o que eu tinha na minha casa, deveria ter em mim… aceitação, amor, confiança. Foi um recomeço. Hoje sou mais forte e tenho outra percepção sobre a vida e sobre as situações às quais nos submetemos para nos sentirmos “aceitos” e vejo as perdas com outro olhar, pois não somos donos de nada, logo não perdemos nada. Ganhamos sempre com a oportunidade de aprendizado e evolução. Acredito que nada acontece por acaso. Eu interpreto a depressão, o stress como doenças que nos alertam tipo “pare, pense, repense e continue”, como a letra maravilhosa do Lenine da música Paciência [Nota do Editor: veja e ouça a música numa linda versão acústica no final desta resposta] é como se o corpo e a vida pedisse calma.
Algo forte assim, marca e faz com que você busque um novo significado em sua vida, o que você está fazendo, o que te trouxe até aqui, qual o seu propósito. Acho que se alguém vive depressivo não aproveitou a oportunidade para chegar ao game over e superar aquele jogo para entrar em campo de novo, mais forte. A mesma situação muitas vezes se repete nas nossas vidas até que percebamos o que representa para que ela e seja resolvida.

GA – A nossa proposta é de sempre contribuir com algo que auxilie os nossos leitores a fortalecer-se física e psicologicamente para enfrentar os inevitáveis desafios da vida. O que a Fatima pode nos trazer que acrescente a essa proposta?

FP – Sabe, eu tenho dois mantras para os momentos difíceis que compartilho com os amigos e colegas de trabalho, às vezes inclusive nas brincadeiras, mas que trazem mensagens importantes: “Inspira, expira e não pira”! Não se apegue demais àquele momento, àquela dor, àquela alegria, tudo passa e esse movimento de mudança constante da vida é um convite para o outro mantra “entrego, confio, aceito e agradeço”, esse último do querido Professor Hermógenes, que tanto divulgou a yoga no Brasil, e que nos faz lembrar que não estamos no controle e que isso pode ser bom, sendo assim faça sempre o seu melhor, em todas as áreas da sua vida e, entregue, confie, aceite e agradeça ao Universo e à vida pela oportunidade do aprendizado e evolução.

Confie no fluxo da vida, desapegue do que pesa para que a bagagem seja positiva e não pesada, deixe ir o que não vale a pena e lembre-se de viver no presente. No passado não podemos fazer mais nada. Foi de fato e o amanhã começa hoje, agora. Se está difícil peça ajuda, faça uma oração se acredita e tem uma crença, fale com um amigo, fale com um desconhecido se for mais fácil, vá a um terapeuta (eu posso indicar alguns muito bons), não desista de você. Tente se perceber como uma pessoa especial que está por aqui para aproveitar essa viagem e não jogar o cartão de embarque no lixo e esperar os dias passarem. Como fala uma pessoa que eu admiro, a cada dia você é convidado para escrever uma nova história, sendo assim, seja o ator principal da sua vida, não o coadjuvante e tente se conhecer melhor, e, por favor, não se torne a vítima, somos responsáveis por tudo que acontece conosco.

O autoconhecimento nos mostra isso, seja tudo o que você pode ser e aproveite o momento de dor e dificuldade para entender o que te trouxe até aqui, o que te incomoda com essa situação, o que você quer e o que você não quer mais para você, não tente fugir de si mesmo.

GA – Fatima, foi lindo! De verdade. Agradecemos muito o seu auxilio, uma vez mais falar da alegria em ter a sua participação aqui no nosso espaço e que a sua vida seja repleta de paz, harmonia, amor e alegria. Namastê.

FP – Gratidão por participar!

“Há tanta estigmatização associada à depressão que muitas vezes as pessoas não querem falar sobre os sintomas ou o fato de que eles podem ter depressão…Fale com alguém em quem confia. Poderia ser um pai, outro membro da família, um amigo, um professor, um colega. E esse é realmente o primeiro passo para obter ajuda “ – Alison Brunier.

Seguindo em Frente (Almir Sater/Renato Teixeira)

Muita paz.

Gemkos Astazerld

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Author

A Espiritualidade das coisas. Gemkos Astazerld
Formado em Marketing, Estatística e Analista de sistemas, casado, praticante de meditação, amante da natureza, vegano. Há vinte anos entusiasta sobre assuntos de psicologia, espiritualidade, religiosidade e evangelização. Blog em http://gemkosastazerld.blogspot.com

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