Deboche e Crítica em forma de humor de alta qualidade

Márcio Vito interpreta Chaves. Fonte: G1.globo.com

No último dia 15 de Janeiro, foi ao ar mais um capítulo de Tá na Ar em que a trupe de humoristas, parodiando o nostálgico e eterno programa do Chaves, fez uma crítica em tom jocoso – e de alta qualidade – ao governo de Jair Bolsonaro, personificado como o Capitão de Língua Presa que comprou a vila que era de Seu Barriga.

Em sua última temporada, compreensível pelo respeito ao modelo de humor ali praticado – em minha leitura, julgo haver uma preocupação com possível desgaste e ao mesmo tempo adequação aos gostos contemporâneos por breves pílulas artísticas em vez de obras mais longevas e prolongadas -, o grupo se supera. Adnet, em uma atuação impecável, personificação inquestionável que não dá margens a duplas interpretações dissonantes e descasadas, nos presenteia com o ar de sua genialidade nessa paródia que está dando o que falar. Ela exemplifica o que é um dos verdadeiros poderes da arte, em seu esplendor e capacidade de elucidar o momento que nos cerca.

 

Quico, Chaves, Chiquinha, Professor Girafales, Dona Florinda e Seu Madruga, interpretados respectivamente por Maurício Rizzo, Márcio Vito, Luana Martau, Danton Mello, Georgiana Góes e Marcius Melhiem

Nessa paródia, os tão amados e conhecidos personagens da Vila do Chaves são pegos emprestados para dar o desenho da seletividade de marginalização do atual governo em declarar como VA GA BUN DO (jargão tão usado pelo nosso atual presidente) aqueles que hoje estão em situação de vulnerabilidade social. Seu Madruga, personificado por outro humorista genial, Marcius Melhiem – que lidera essa trupe toda em vários programas de humor capitaneados pela Vênus de Prata – é a primeira e óbvia vítima por não pagar aluguel há 14 meses. Expulso da vila, deixa Chiquinha exposta. Interpretada por Luana Martau – outra que naturalmente arranca risos, uma humorista nata, uma atriz excepcional –, é minimizada por ser produto de uma fraquejada de seu pai, como assim declara o Capitão. Chaves, feito por Márcio Vito (que está idêntico), é menosprezado por não ter uma casa e precisar do “Bolsa Barril”. Por isso, um VA GA BUN DO (o bordão pega fácil – em dados momentos a voz de Adnet some, é a do próprio Jair).

Marcelo Adnet como O Capitão em sátira do programa Tá no Ar

Os dois, menosprezados por representarem a geração PIPIPI ou MIMIMI, dão espaço à cena em que surgem Dona Florinda e Quico. Aqui se apresentam os atores Georgiana Góes e Maurício Rizzo. É quase impossível perceber diferenças entre os personagens originais e essa repaginação paródica e sensacional. Dona Florinda é hostilizada por não ter marido, logo não representando a tradicional família brasileira, ao mesmo tempo em que é culpada pelo Quico ser afeminado, um erro de leitura daqueles que veem criança mimada como afeminada. Quico chora. Chega Professor Girafales – feito por Danton Mello, que dispensa apresentações, sua plural capacidade já é de domínio público. Usando seu tão tradicional bordão, esbravejando e defendendo sua namorada – nem no original essa palavra fora usada – ele é imediatamente hostilizado e levado por ser professor, logo doutrinador que usa discurso de gênero e o kit gay para dar suas aulas. Ao final, sobra apenas o Capitão, demitindo a plateia que desmesuradamente ri. Aqui surge uma outra prática comum do atual governo, que age e depois desfaz a própria ação, revertendo-a. Sem plateia, o Capitão manda cassar a demissão, mas ele já havia demitido a pessoa que podia revertê-la. “Deixa aí uma meia dúzia”.

Não contente, o Capitão pede um motorista, que fora emprestado por seu filho, mas que está internado. A lucidez crítica não se encerra naquela vila de pessoas pobres e que tinham a conivência e apoio de Seu Barriga – neste caso, Lula. Sobra ainda para o programa de Paulo Gustavo – mais conhecido pelo público como Dona Hermínia do fabuloso Minha Mãe é uma Peça- , que se torna o próximo alvo, declarado por ser uma ditadura gay.

A manhã seguinte à cena foi tomada por várias notícias e críticas, de todas as naturezas, é claro, nas várias redes sociais que hoje tomam os olhos de muitos. Eu havia assistido na própria televisão, mordendo a língua para não rir alto e acordar todos que dormiam já tão incomodados por esse calor que faz até o Capiroto ter saudade de seu forninho cotidiano de agruras. O capítulo termina. Resolvo dar uma última passada no Facebook, alguns amigos também saudando essa cena em particular. Dia seguinte, o óbvio. O deboche da trupe deixava claro, com lucidez necessária, que seu objetivo de engajar uma crítica explanativa ao non sense que tomou os rumos do país está, por fim, nos deixando ingovernáveis e à beira de uma distopia. É um deboche que traz saúde à democracia. Um viva a essa geração de humoristas tão corajosos e capazes.

MÁRCIO CALIXTO

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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