Crochê é arte, luta e empoderamento

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foto: Lucas Hirai

Depois de trabalhar por 9 anos como design editorial, Karen Bazzeo entrou em crise. Questionou tudo: vida pessoal e trabalho. Não sobrou quase nada do antigo estilo de vida. E ainda bem! No seu processo de mudança, foi buscar na infância um hobby que a levou pelas mãos para o patamar de artista de rua em São Paulo: o crochê!

Há quase cinco anos, ela espalha sua arte pelas ruas, árvores, muros e casas da capital paulista, usando o crochê como forma de expressão artística  e de protesto contra a opressão e a violência sofridas pelas mulheres. Criou ainda o ateliê Dolorez Crochez,  a sua incubadora de ideias, movimentos e pensamentos mais que perfeitos! 

 

Qual é a sua formação?

Tenho 30 anos. Nasci e cresci em Bauru. Sou formada em design editorial e trabalhei na área por aproximadamente 9 anos. Moro em São  Paulo há quase 6 anos. Depois de cerca de 2 anos em aqui, trabalhando como designer, entrei em algumas crises profissionais e passei a questionar muito meu modo de vida, de trabalho, onde e como gostaria de estar, de fato, trabalhando. Foi quando voltei a fazer crochê, pois já havia aprendido com minha mãe na infância. Aos poucos, fui encontrando um caminho e no crochê uma forma de me expressar também.

 

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Obra Visceral / foto: Renata Ottoni

Por que o crochê?

Foi natural. A princípio, tinha pensado em fazer peças de decoração, por isso criei um nome pro ateliê. Mas o primeiro trabalho que fiz já foi na rua, com o projeto #pegue1coração. Malhas foram crochetadas e colocadas em árvores e postes, junto com corações em crochê e uma plaquinha que dizia: “Pegue 1 coração”, para que as pessoas pudessem interagir. As respostas que tive com esse trabalho foram tão significativas que passei a trabalhar somente com isso, e especialmente nas ruas.

 

Como muitos da sua geração, você buscou desenvolver o crochê pela web, com tutoriais. Aprendeu fazendo. Isso, de alguma forma, interfere no produto final? Quer dizer, sem um professor formal, que poderia influenciar seu trabalho…

Eu acho que ter um professor ou não, em certos casos, não é o que vai fazer diferença para você aprender. Não foram os tutoriais no youtube que me ensinaram a fazer o que faço, tampouco os professores. A técnica é comum para todas as pessoas, o que faço é utilizá-la como instrumento para uma expressão artística.

 

Como teve a ideia de extrapolar essa atividade, dando-lhe um cunho de intervenção artística urbana?

O primeiro trabalho do Dolorez Crochez já foi na rua. Comecei com pequenas intervenções e fui evoluindo o trabalho com algumas parcerias. Quando fiz o projeto de graffiti com os grafiteiros Felipe Primat e Julio Falaman, passei bastante tempo na rua, fazendo a instalação do trabalho e interagindo com as pessoas. A partir daí, meu gosto pelas instalações na cidade cresceu e comecei a espalhar frases, desenhos, coisas que me inspiravam de alguma maneira e que queria colocar para fora. Hoje, a maioria dos meus trabalhos é relacionada à ocupação de espaços públicos, arte de guerrilha e empoderamento.

 

O que você inspira seus trabalhos?

A rua é um contato direto e muito sensível que temos com as pessoas durante o processo. A experiência de poder conversar com todo tipo de pessoa que passa por ali é muito agregadora. Além disso, qualquer coisa pode inspirar… músicas, poesias, livros, textos que leio na internet, conversas com pessoas, olhares, histórias. Ultimamente, coisas que me revoltam também têm servido de inspiração. Nesses casos, eu tento não expressar com raiva ou de maneira negativa e, sim, de maneira positiva, justamente negando o que fazemos, muitas vezes, por impulso. Infelizmente, nós vivemos numa sociedade onde é cultural agir de forma agressiva e violenta, insultar pra nos defender. Então, eu tento fazer de modo oposto, mostrar o que acho importante de maneira positiva, para que as pessoas vejam que há outras maneiras de nos defender, deixando o ego e a raiva de lado, fazendo surgir uma coisa maior do que essas que revoltam.

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Uma das intervenções da série Grafitti / foto: Lucas Hirai

Como as pessoas nas ruas costumam reagir às suas obras?

A resposta das pessoas foi o que mais me motivou no meu trabalho. Começou de uma forma despretensiosa, mas teve muito retorno positivo, elogios, compartilhamentos etc. Ver que as pessoas se sentiram tocadas por aquilo foi muito importante para o meu desenvolvimento como artista de rua.

 

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Obra Ventre Livre, a mais significativa para a artista   / foto: Lucas Hirai

Existe alguma obra que tenha um significado ou importância mais especial para você?

Todos os meus trabalhos são fruto de expressão pessoal, por isso cada um deles tem sua devida importância. Mas acredito que o “Ventre Livre” foi um dos mais especiais. Comecei a produção dele na época em que as hashtags #meuprimeiroassédio bombaram. Fiquei muito tocada e sensibilizada com cada depoimento que li e ouvi. Na sequência, teve o ato contra o (presidente afastado da Câmara, Eduardo) Cunha que, na época, queria aprovar uma lei que dificultava o conhecimento da mulher a respeito de seus direitos em relação a abusos e ao aborto. Eu não pude ir a este ato, pois já tinha uma viagem marcada, mas senti que precisava me expressar de alguma maneira em relação a tudo aquilo que estava acontecendo. Então, durante a viagem, comecei a produção desse trabalho do “Ventre Livre”.

 

Por ser em crochê, seu trabalho tem uma pegada feminina, não é mesmo?

Sim, o meu trabalho tem, por natureza, uma essência feminina, ele está sempre conversando e, direta ou indiretamente, lutando pelos direitos da mulher.

A energia que é colocada em cada trabalho que faço transforma em expressão pura e objetiva o que tem dentro de mim. Quando terminei a peça “Ventre Livre”, optei por não colocá-la nas ruas. Apesar do efêmero fazer parte do meu trabalho, esse, especificamente, eu gostaria que se instalasse em um lugar especial. Procurei por bastante tempo e precisei segurar a ansiedade pra instalação, até que, aproximadamente 3 meses depois, surgiu a oportunidade de colocá-lo na Casa Jaya, uma casa em Pinheiros (bairro paulistano), que promove diversas atividades como aulas de yoga, dança, cursos de culinária saudável, projetos musicais e encontros voltados para o feminino.

 

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Uma das intervenções espalhadas pelos muros paulistanos: As flores da Pele / foto: Lucas Hirai

Fale do Dolorez Crochez. Como ele surgiu?

Primeiro, eu fiz um trabalho na rua e logo já criei o nome, uma página no facebook, no instagram etc.

O nome foi aleatório. Fiquei pensando que nome colocar e, um dia, sonhei com o nome Dolorez. Aí coloquei ele mesmo. É o meu ateliê, meu ninho.

 

Você se sente realizada profissionalmente ou acredita que ainda há muito o que fazer?

Ah, o ser humano nunca está satisfeito, né? (rs) Acredito que ainda tenho muito o que fazer e aprimorar meu trabalho.

 

E quais são seus sonhos?

Hoje, meu trabalho é o Dolorez Crochez. Cada vez mais tenho me envolvido com ele e desenvolvido diversos trabalhos que têm me rendido muita repercussão legal. Minha luta é pelo reconhecimento do crochê como instrumento para arte urbana. Ainda existe muito preconceito e machismo nesse mundo da arte e, especialmente, nas ruas. Tenho feito um trabalho amplo com o ateliê. Escrevo no meu blog também – Dolorez e eu, onde compartilho muito das minhas inspirações, dou dicas, conto dos making ofs, instalações etc. É uma espécie de extensão do meu trabalho que posso compartilhar, me tornando mais próxima das pessoas, seguindo em paralelo com as oficinas, que também gosto de fazer.

 

 

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Obra Maresia / foto: Lucas Hirai

 

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Intervenção Cidade Viva / foto: Lucas Hirai

 

Página do Dolorez Crochez: http://www.dolorezcrochez.com/

Blog: https://dolorezeeu.wordpress.com/

Instagram: https://www.instagram.com/dolorezcrochez/

Facebook: https://www.facebook.com/dolorezcrochez

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC7ZdNpQlhn_mdJB5jGnYuFw

Mail: karen@dolorezcrochez.com

 

 

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Author

Patricia Costa
Editora-chefe do ArteCult.com Jornalista, roteirista, mãe, poeta, editora, escrivinhadora, atriz. Mulher. Sou filha da PUC-Rio, formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo. Trabalhei em revistas sobre meio ambiente e educação. Fui parar na TV na produção do Globo Ecologia e logo estava participando da criação do Canal Futura, onde fiquei por mais de 7 anos. Trabalho na MultiRio, uma produtora de multimeios educativos da prefeitura do Rio de Janeiro, há 10 anos, atuando como roteirista e editora. Colaborei para o site Opinião e Notícia por 2 anos escrevendo sobre Educação, Cultura, Cidadania e Meio Ambiente: opiniaoenoticia.com.br Escrevi também para a Revista do Senac Educação Ambiental por cinco anos. Me formei em teatro pelas mãos de Bia Lessa. Fui dirigida por Alberto Renault e Roberto Bontempo. Conheci muita gente talentosa. Aprendi com muita gente boa. Fiz cursos livres de canto, de dança flamenca, de locução de rádio e de roteiro para TV e cinema. Sou uma leitora contumaz. E ótima ouvinte. Gosto de observar a vida e de dar pitaco em alguns assuntos os mais variados. Mãe de dois adolescentes, continuo aprendendo sobre a vida todos os dias. O humano me encanta. E me aterroriza também!