As coisas simples que não dominamos

Foto: La-Rel Easter (Unsplash)

É preciso muito tempo para aprender a ser jovem. Pablo Picasso (1881-1973)

A beleza salvará o mundo.  Fiódor Dostoievski (1821-1881)

 

Dizem por aí que o idoso não é velho: é apenas jovem há mais tempo. Mas afinal, o que quer dizer “ser jovem” e o que significa “envelhecer”? Não contem, aqui, com uma resposta que se pretenda definitiva, porque além do nascimento, definitivo só a morte, duas coisas, aliás, bastante conexas ao tema juventude-velhice. O que pretendo, neste artigo, é discutir, com brevidade, algumas implicações da juventude e da maturidade na psique humana e uns tantos reflexos desse estado existencial nas coisas mais comezinhas da vida. O simples, que não é, aparentemente, múltiplo, mas que pode ser desdobrado em partes, e o complexo que, como um todo, funciona de modo interdependente na relação com outros entes também complexos, de maneira mais ou menos harmônica, embora percebido, não raro, como caótico ou inacessível, caminham lado a lado.

Isto posto, ser jovem, dentre outras formas de compreensão possíveis, pode ser, fisicamente, aguentar uma “noitada” e estar plenamente disposto no dia seguinte, mesmo dormindo pouco. Mas isso, por si só, é claro que não define a juventude, que é muito mais complexa do que qualquer definição que possamos ter em mente. À medida que vamos atingindo a maturidade, começamos a perceber que a beleza está na simplicidade das coisas; não raro, nas pequenas coisas da vida, de modo pontual mesmo.

Talvez não exista “a felicidade”, senão “momentos felizes” – e fugazes! E se estamos a falar de momentos, temos que raciocinar em termos de partes simples e não de todos altamente complexos, porque de complexo já basta a vida, como um todo. Ser jovem, então, também é, e talvez seja, sobretudo, perceber que nada, em se tratando de vida humana, é eterno; que tudo é volátil; que as relações são instáveis, que pessoas vem e vão; que um casal que se separa, o faz como casal, mas não, necessariamente, como pessoas (os dois podem continuar a ser amigos, porque dividiram um projeto de vida em conjunto e, muitas vezes, há filhos envolvidos) e que temos que aproveitar o que de bom a vida nos oferece, dia após dia, tal como sentar num banquinho de praça ao entardecer e deixar que a brisa desse momento envolva nossos corações e levem nossos pensamentos ao infinito, ao indivisível.

Nada disso exclui planejamentos futuros, mas a sabedoria da maturidade nos mostra que, como diria John Lennon, vida (simples) é o que nos acontece enquanto ficamos fazendo planos (complexos)… de vida! O simples é o belo e aqui, estou a me referir ao entendimento de beleza do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), que dizia que é belo tudo aquilo que proporciona prazer ao ser. Em termos populares, o ditado diz que a beleza está nos olhos de quem vê e no coração de quem sente.

Passamos por momentos felizes, outros tristes e a cada um deles, especialmente nas tragédias, nos reinventamos (ou deveríamos!); tal fato potencializa o maior ou menor domínio que temos de nossas vidas. Dominar uma situação é ter a supremacia do controle sobre aquilo que nos afeta. No tocante à vida privada, este domínio deve (ou deveria) ter o significado ad hoc de libertação do ser, tornando-o belo para si mesmo ou para tal objetivo contribuir.

Não há fórmula pronta para manter-se com a mente e o coração, jovens; cada um tem que achar a sua. Particularmente, há coisas que me enternecem a alma: estar em paz com minha consciência; estar feliz com minha mulher e minha filha; papear despretensiosamente com meus amigos, tocar meu violão (embora ainda não esteja assim tão bom, porque comecei a aprender depois de “velho” – nunca é tarde para se fazer o que se gosta)… e ler e escrever. Ler é me redescobrir nas palavras de terceiros; escrever é gritar para o mundo o que sinto e sou. Além de ter conhecimentos musicais, escrever é uma experiência interior tão rica que todos deveriam experimentar.

A juventude não é uma fase de vida, é um “estado de espírito”, porque jovem é aquele que percebe o mundo e percebe-se como um ser em construção (sempre Vinícius de Moraes!), que só estará pronto e concluído na morte – se bem que, para alguns, nem assim, porque, para estes, a vida continua, com ou sem reencarnação. A maturidade é a vitalidade dos “jovens há mais tempo”. O corpo envelhece, mas a cabeça e o coração podem se manter  jovens, no sentido de que a alegria de viver, o desejo de mudanças e renovação, o prazer da descoberta e a realização das coisas complexas, claro, mas sobretudo, das coisas simples e, por conseguinte, belas e prazerosas, podem – e devem! – acompanhar todos nós, até o fim de nossos dias. Nossos filhos, netos, nossos amigos agradecerão… o mundo agradecerá.

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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