Os Miseráveis

 

O responsável pela Sopa Popular da Igreja de St Eustache daquele ano, um senhor alto e magro que sempre me fazia pensar no Jean Valjean dos Miseráveis, me havia dito que naquele dia eu participaria da equipe que ficava do lado de fora da igreja para controlar a fila. Não era uma missão difícil, já que sempre tive a sensação de que todos que vinham até ali para buscar um prato de comida respeitavam os nossos coletes como se estivessem diante de uma autoridade, mas, tendo em vista que a distribuição era feita durante o mês de dezembro, a maior dificuldade ficava por conta do frio, que normalmente era de lascar. A igreja fica em Paris.

Eis as diferentes missões que eram distribuídas a cada noite: controlar a fila; servir a comida; entregar um saco plástico com frutas, lenços de papéis, sanduíche; lavar as panelas e os utensílios no final da distribuição; buscar os pães para o dia seguinte nas padarias que doavam o que não havia sido vendido. Apenas os cozinheiros eram fixos, já que cozinhar para centenas de pessoas necessita alguma experiência.

Nunca me senti especial pelas poucas vezes que fui voluntário na vida, acredito que já estou recebendo a minha recompensa ao publicar este texto, e o maior beneficiário de um voluntariado é o próprio voluntário, mas acho importante divulgar tais experiências, a fim de que possam acender esperança nos corações humanos e que possam inspirar outras pessoas a fazer o mesmo.

Grupo de Voluntários da Sopa Popular da Igreja de St Eustache em Paris.

Para já preciso descrever as pessoas que costumavam frequentar aquelas filas. Aquilo não tinha nada a ver com as vezes em que dei pão e leite no meio da noite no centro da cidade do Rio de Janeiro. A maioria das pessoas que vinham até ali eram estudantes, imigrantes – muitos diplomados –, senhoras bem vestidas e senhores alinhados. Pessoas que, com certeza, nunca haviam imaginado que um dia estariam ali, “pedindo”. Algumas delas dormiam no metrô parisiense; outras, em acampamentos que haviam sido montados longes da Torre Eiffel, mas muitas dormiam entre quatro paredes.

Você chegava cedo, ajudava a arrumar as mesas, as grades que nos ajudava a organizar a fila e esperava a reunião inicial. Os voluntários também eram diversos – cores e credos –, mas todos tinham algo em comum: estavam ali para ajudar. Estavam ali porque acreditavam em arregaçar as mangas e fazer algo de concreto pela própria cidade; estavam ali porque acreditavam que não basta enviar dinheiro para alguma fundação que ajuda crianças na África; estavam ali porque não acreditavam que basta dar dinheiro para alguma igreja. As pessoas que estavam ali queriam ajudar diretamente pessoas em dificuldade. As pessoas que estavam ali haviam deixado de lado um sofá e uma televisão para ajudar alguém.

Nunca vi uma confusão naquelas filas, e no final de cada serviço você se sentia repleto daquele nada que preenche. Você não levava nada para casa, mas depois de cada serviço você sentia que não voltava para casa de mãos vazias.

O mês passava, o inverno terminava, e todos os voluntários terminavam o ano participando de um jantar oferecido pela tal igreja, o que, juro, mexia comigo. Aqueles jantares me fizeram sentir como jamais me senti nem mesmo nos gastronômicos que conheci em Paris. Ninguém precisava dizer nada. Todos compartilhavam o mesmo sentimento.

Você já faz a sua parte? Maravilha! Adoraria também poder ler sobre as suas experiências. Escreva-me se quiser. Acenda alguma esperança no meu coração! Contudo, cá entre nós, a gente sabe que hoje em dia a sociedade está mais para o individualismo do que para a compaixão, e é bem possível que neste momento alguém esteja me chamando de comunista. Mas quer saber? E daí? O importante não é o que os outros pensam da gente, mas o que nós pensamos sobre nós mesmos. Acho primordial poder colocar a cabeça no travesseiro no final de cada dia e buscar o sono dos justos, não porque fomos perfeitos nas últimas doze horas, mas porque fizemos o máximo que nossas imperfeições nos permitiram.

Os livros que escrevo não têm nada a ver com este texto. Sinceramente, não é o meu estilo. A minha viagem é outra. Todavia, às vezes não dá! Às vezes acabo transbordando com toda essa corrupção, prepotência, fanatismo, machismo, nepotismo e outros ismos que vejo pela frente. E qual a solução que encontro para me sentir melhor? Ser mais forte do que eles. Não é uma questão de literatura, é uma questão de ser. É uma questão de também acender uma vela.

Afinal, quem são os Miseráveis?

Para o meu tio, Ivan Cunha Bustamante, um pai, um mestre, um amigo.

26/12/1942 – 26/09/2021

 

ANDRÉ CARRETONI

 

 

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Nascido no Rio de Janeiro, em 11 de janeiro de 1971, André Carretoni cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenho, faz cursos de teatro e de cinema até que, aos 27 anos, graças aos seus conhecimentos de informática, dá uma reviravolta em sua vida e parte do Brasil, à procura de novas experiências. Vive por seis anos em Lisboa, faz o Caminho Português de Santiago de Compostela e inscreve-se em um curso de pintura em Florença, onde escreve “Piedade Moderna” e conhece Jannick, que se tornará sua esposa. Vive por dois anos em Lausanne. Escreve “Mais Alto que o Fundo do Mar”, envia contos e crônicas para os sites Tertúlia e Bonjour Brasil e frequenta o Laboratório de Escritura Criativa à Distância do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Geração Perdida, instala-se em Nice e encontra nova fonte de inspiração. Nasce seu filho, Tiziano Carretoni. Publica seu livro “Mais Alto que o Fundo do Mar” em francês (“Plus Haut que le fond de la Mer”), escreve “TELMAH, A Tragédia do Desencontro” e participa da oficina literária da escritora Adriana Lisboa e do masterclass do escritor Bernard Werber. Publica "TELMAH, A Tragédia do Desencontro". É eleito Acadêmico Imortal da Academia Brasileira de Letras/Suíça, cadeira número 4. Em 2021, é convidado a participar do site ArteCult. Segue escrevendo.

2 comments

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    Considero o trabalho voluntário – amor ao próximo-, todos somos capazes de fazê-lo, basta s chama tocar o coração. Eu, diante muito tempo fiz vários trabalhos voluntários mas o que mais me deu alegria foi o de alfabetizar pessoas de idade avançada, a felicidade delas ao saber escrever o nome, ler a manchete dia jornais, não tem preço,

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