Jozias Benedicto: Consagrado na ficção, escritor estreia na poesia com Erotiscências & embustes

De certa forma, o mais recente livro do maranhense (radicado no Rio) Jozias Benedicto representa uma guinada na carreira do autor. Acostumado a escrever (e a ser reconhecido e premiado por isso) contos, Benedicto lançou, no início de agosto, seu primeiro livro de poemas. Trata-se de Erotiscências e embustes, publicado pela editora Urutau.

Sobre sua literatura, o escritor já declarou:

“Nos meus contos, trabalho com autoficção, tudo ou nada aconteceu comigo. O leitor sempre fica em dúvida sobre o que é real e o que é inventado, e trouxe esta característica para minhas poesias. Daí a segunda parte do título, os embustes, com esta carga de ironia e autoironia”.

Já o poeta e jornalista Félix Alberto Lima, da Academia Maranhense de Letras, que escreve o prefácio da obra, opina:

“A poesia de Jozias Benedicto não é uma receita de erotismo urbano, da posologia de prateleira do sex de shop. É o corte não linear na própria carne do autor. É o corpo em movimento, inquieto, agressivo, trágico, lascivo. Erotiscências & embustes é também o impulso político antipanfletário que dialoga com diferentes armadilhas da literatura, inclusive com a poesia.”

 

Taí, amigo leitor, veja nossa exclusiva com ele, uma ótima chance de se aproximar desse artista versátil que, além de escritor é também artista visual :

 

Jozias Benedicto

ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?

Jozias Benedicto: Sempre escrevi, acho que em consequência de minha paixão pela leitura, pois desde criança sou um leitor compulsivo. Aprendi cedo a “esticar” a leitura dos livros de que eu gostava muito, uma página ou duas só a cada dia para que aquele livro não acabasse nunca e no colégio eu era aquele aluno chato que sempre tirava 10 nas redações. Apesar disso,  foi preciso muita vida até eu ter a coragem de expor minha escrita. Já na maturidade, comecei com um blog, participei de oficinas e trabalhei em uma editora, até chegar a ver meus contos publicados: em coletâneas e nos meus livros Estranhas criaturas noturnas (Apicuri, 2013, finalista do Prêmio SESC de Literatura) e Como não aprender a nadar (Apicuri, 2016, Prêmio de Literatura Governo de Minas Gerais). Hoje, escrever é para mim o que faz com que eu me sinta vivo e no mundo, tão necessário como acordar pela manhã, me alimentar, me exercitar, amar.

 

AC: É difícil conciliar Literatura e Artes Visuais?

JB: Além de escritor sou também artista visual, atuo como curador, dou aulas de arte. Para mim, não é difícil conciliar, pois meu trabalho de arte se baseia na palavra, em especial na palavra poética – vídeos, instalações, performances e também pinturas, nos quais “a palavra é trama e urdidura”. Houve um período em que eu tentei manter estas duas atividades compartimentalizadas, como universos separados, mas logo percebi que são dois lados de minha expressão como ser humano que se complementam e passei a radicalizar a proposta de junção entre esses dois campos da arte, o visual e o literário. Trouxe para meus livros de contos a minha expressão visual, eles têm ilustrações minhas que formam como que um texto paralelo, e também levei meus poemas para minhas performances e pinturas. Um exemplo disso é a série de performances “Escrita automática”, nas quais datilografo, em público e de improviso, poemas.

 

Capa do Livro

AC: Por que decidiu enveredar pela poesia?

JB: Escrevo poesia desde adolescente, utilizei a palavra poética nos meus trabalhos de artes visuais, mas a minha entrada no circuito literário acabou sendo pelos contos. Com isso, acabei demorando um pouco até ter a coragem de ousar neste livro de poesia, o “Erotiscências & embustes”, que lancei agora em agosto pela Editora Urutau. Já estava com o desejo de recuperar os poemas antigos, perdidos em um incêndio que tive em meu apartamento em 2015, e este desejo se transformou em realidade a partir da chance que tive de mostrar o material para a Editora. Alguns textos tinham sido salvos da destruição, outros eu reescrevi ou recriei, e os somei a textos escritos recentemente, dando a tudo o fio condutor das “erotiscências” – reminiscências eróticas – e dos “embustes” – os dilemas que os artistas enfrentam para conciliar forma e conteúdo, os ardis que criam para sobreviver com sua obra, enfrentando preconceitos, censura e todo o tipo de restrições e perseguições.

 

AC: Vale a pena ser escritor no Brasil de hoje?

JB: Se, por um lado, hoje há uma oferta bem maior de alternativas para quem deseja se dedicar à literatura do que no século passado, quando praticamente a única opção seria ter um emprego público e escrever nas horas vagas, por outro, o escritor tem de manter uma luta diuturna – e inglória – contra os efeitos da crise econômica que arrasou o mercado livreiro, contra o descaso das políticas educacionais que ocasionam o encolhimento do número de leitores, contra a concorrência das mídias sociais e de outras formas de lazer dotadas de maior apelo do que o livro, contra o desmonte, em processo, de uma política cultural nacional e contra a volta da censura, o recrudescimento de intolerância e preconceitos. Ou seja: não é fácil! Mas, apesar disso tudo, acho que vale a pena, desde que o escritor – o artista, em geral – não se encastele em seu mundinho e não desista de lutar para, mesmo que minimamente, modificar essa situação.

 

SERVIÇO

Título: Erotiscências & embustes
Editora: Urutau
Autor: Jozias Benedicto
Páginas: 76
Preço: R$ 40,00
Prefácio: Félix Alberto Lima

 

 

 

 

 

 

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Author

César Manzolillo
Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de quatorze antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (2017). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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