AC Entrevista Aline Bernardi sobre Contato Improvisação (CI): uma dança para todos os corpos

Foto: Julius Mack

O Contato Improvisação (CI) é uma técnica de dança que surgiu em Nova York, EUA, na década de 1970, através do trabalho de um grupo de coreógrafos e bailarinos ligados à dança moderna.

Atribui-se sua criação ao coreógrafo Steve Paxton, que pela primeira apresentou um espetáculo desenvolvido com base nessa técnica, Magnesium (1972). Desde então, a prática vem se disseminando pelo mundo. Atualmente, muitos coreógrafos utilizam a técnica como base de pesquisa coreográfica, metodologia de aula e aquecimento, no entanto, ela também é muito praticada por não bailarinos.

Em linhas gerais, o CI consiste em uma dança improvisada na qual os movimentos surgem da relação de contato entre os dançarinos, podendo ser praticado em duplas ou em grupo. É como um jogo físico silencioso de perguntas e respostas, mas sem competição.

Nessa relação, os corpos criam situações de quedas e sustentação física, peso e contra-pesos, apoios e alavancas. Para que esse jogo seja possível, é preciso que os participantes estejam concentrados no que está acontecendo no ambiente e dentro de seu corpo.

Por não pressupor nenhuma técnica antecedente, o CI pode ser praticado por qualquer pessoa que deseje entrar em contato com o movimento, conhecer melhor seu corpo e a relação entre corpos em movimento.

Os encontros de Contato Improvisação são chamados de jam, inspirados nas sessões musicais de diálogos improvisados de jazz e blues. As jams ajudam a disseminar a técnica e são uma ótima opção para iniciantes que querem ter um primeiro contato com a prática.

No Rio de Janeiro, o coletivo de contato improvisação OCO promove esses encontros de maneira regular, além de oficinas, cursos e projetos de ocupação do espaço público. Conversamos com uma das criadoras do grupo, Aline Bernardi, que falou pra gente sobre toda a filosofia que envolve essa modalidade de dança :

Foto: Julius Mack

AC (Daniele Castro – ArteCult DANÇA): O que uma pessoa, com experiência ou não em dança, pode esperar da prática do contato improvisação?

AB (Aline Bernardi) : A prática do CI é um convite ao autoconhecimento: de seu corpo físico com as suas muitas estruturas, desde as partes mais sólidas como ossos, passando pelas partes mais moldáveis como fáscias, músculos, órgãos e líquidos até às conexões mais sensíveis como sistema nervoso central. Além do corpo físico, é um espaço para a descoberta das qualidades do movimento que um corpo humano pode criar, um terreno para expandir as percepções e sensações que podemos ter com nosso corpo. É uma prática muito generosa, que permite corpos com trajetórias e vivências muito distintas dançarem juntos; promovendo assim um olhar amplo e inclusivo para as diferenças. A prática de CI ajuda a liberar medos também, pois podemos vivenciar movimentos inesperados de desequilíbrios e quedas, dando autonomia para o corpo encontrar e solucionar o risco pelas sensações e não pela razão. A prática do CI treina o corpo para a sobrevivência em diálogo com as sutilezas e delicadezas que os encontros físicos numa comunicação sensível podem gerar. Dançar CI promove autonomia física e emocional para o nosso corpo, integrando razão e sensibilidade. O CI nos gera um aprendizado corporal de relação com o inesperado, o imprevisível e com a fluência que podemos ter na inevitável relação com a gravidade e o fator de momentum que ela suscita.

AC: Sabemos que os valores envolvidos no Contato Improvisação vão além da dança. Que elementos do contato improvisação os praticantes levam para a vida?

AB: O CI é uma prática que envolve princípios que convidam a uma reflexão de uma ética de ser e estar no mundo. A jam, prática de improvisação coletiva, nos faz exercitar acordos silenciosos que são desenvolvidos com o espírito da colaboração, cooperação e generosidade para que seja um ambiente auto gestionado e co-criado por todos os corpos presentes. Essa ética, no contato improvisação é praticada enquanto uma vivência experimentada na fisicalidade dos corpos que dançam nos ambientes criados pelo CI, convidando assim à ampliação de sensações corporais e expandindo o nosso corpo sensível. Acredito que isso desenvolve uma musculatura e uma permeabilidade particular para o trânsito dos afetos.

Foto: Julius Mack

AC: Onde é possível praticar e quem pode praticar?

AB: O CI está presente em muitas cidades pelo mundo. No Brasil temos uma rede bem ampliada por todo o país, com festivais, encontros (em cidades com características bem urbanas e cidades do interior e seus aspectos de ruralidades, com um maior convívio na natureza), oficinas regulares e oficinas pontuais. Essas diferentes propostas de encontros geram uma rede de circulação e experimentação da prática, pois o conhecimento do contato improvisação se dá com a própria prática de dança nas jams e nas aulas. A dança é um conhecimento tácito, não podemos apreender esse conhecimento só de maneira teórica, temos que criar um convívio prático e constante para que o conhecimento se estruture no corpo enquanto linguagem. Todos os lugares que tem encontros e festivais podem ser encontrados através do nosso site CI Brasil (caso alguma informação não esteja lá, pode-se enviar uma mensagem para algum professor e/ou produtor do estado que você queira informação. Os contatos dos professores e produtores constam no site http://contatoimprovisacao.wixsite.com/cibr).

Em relação a quem pode praticar, é um convite para todos os corpos que desejam se conhecer em seus movimentos. O CI não tem fronteiras de corpos e permite colocar diferentes corpos e trajetórias juntas no mesmo espaço de dança. Cadeirantes, adultos de todos os gêneros, crianças de todas as idades, corpos com alguma necessidade especial podem se encontrar num ambiente de contato improvisação.

Aline Bernardi

Artista da dança com ênfase nos estudos de improvisação e contato improvisação. Educadora, pesquisadora e terapeuta corporal. Pós Graduanda no Programa de Especialização PCA (Preparação Corporal nas Artes Cênicas) da Faculdade Angel Vianna. Aperfeiçoamento em Performance através do Programa F.I.A. (Formação Intensiva Acompanhada) do c.e.m. (centro em movimento), de Lisboa [2015]. Graduada em Licenciatura Plena na Faculdade Angel Vianna com a pesquisa CORPO PALAVRA [2012]. Formação Técnica em Dança Contemporânea pela Escola Angel Vianna [2008]. Formação em Hatha Yoga pelo Simplesmente Yoga / Marco Shultz [2008]. Certificada em Técnicas de Terapia Crânio Sacro pela Upledger Brasil [2018].

Professora Substituta de Dança do Colégio Pedro II – Unidade Realengo II. Idealizadora, Curadora e Artista/Professora do Entre Serras – Residências Artísticas e Políticas da Sustentabilidade. Integrante do Coletivo OCO, que atua no fomento, pesquisa e difusão da prática de contato improvisação na cidade do Rio de Janeiro. Integrante e Fundadora da Cia Impele de Dança e Teatro, com o espetáculo de estréia Mar de Ressaca dirigido por Marco André Nunes. Pesquisadora convidada e colaboradora do Núcleo de Pesquisas, Estudos e Encontros em Dança/UFRJ. Atuação na cena artística contemporânea, com ênfase na dança, desde 2006 com trabalhos independentes, em projetos e parcerias. Entre os grupos e cias de dança e/ou teatro com quem já atuou, destacam-se: Companhia Teatral do Movimento (Direção de Ana Kfouri – Rio de janeiro/RJ), Teatro da Vertigem (Direção Antônio Araújo – São Paulo/SP), Os Dois Cia de Dança (Direção Giselda Fernandes – Rio de Janeiro/RJ), Cia de Dança Luisa Coser (Direção Luisa Coser – Rio de Janeiro/RJ e São Paulo/SP).

Site: www.alinebernardi.com

DANIELE CASTRO

 

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Daniele Castro
Daniele Castro estudou comunicação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atuou como bailarina na Cia Étnica e, desde 2010, é pesquisadora de dança. Formou-se mestra em Estética e Tecnologias da Comunicação na Universidade Federal Fluminense e concluiu o doutorado no Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ, com pesquisas sobre corpo e dança contemporânea. É autora de diversos artigos publicados em revistas especializadas e apresentados em congressos da área.

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