Ele escreve poesia, conto, crônica, romance e literatura infantojuvenil. Henrique Rodrigues é o convidado do AC Encontros Literários desta semana

Henrique Rodrigues nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro. Estudou Literatura e Jornalismo Cultural na Uerj e fez mestrado e doutorado em Literatura na PUC-Rio. Trabalha na gestão de projetos de incentivo à leitura e à escrita. É autor de 20 livros, entre poesia, conto, crônica, romance, infantil e juvenil. É ainda colunista do portal PublishNews. Confira a entrevista exclusiva que preparamos pra você.
ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?
 
Henrique Rodrigues: De forma clandestina. Sou filho de família pobre, em que livros são considerados objetos de luxo e, naturalmente, dispensáveis. Nesse contexto, a literatura chegou para mim como chega para tantas crianças, na escola pública. As bibliotecas das escolas públicas onde estudei foram onde a leitura literária espontânea me chegou. E foi delas que, recentemente, recebi o maior prêmio literário: os dois Cieps onde estudei alteraram os patronos das respectivas salas de leitura, que agora levam o meu nome.
AC: Especificamente com relação ao ofício de escrever, que procedimentos costuma adotar? Escreve todos os dias? Reescreve muito? Mostra para alguém durante o processo?

O próximo da fila, de Henrique Rodrigues, é um romance sobre as dores do crescimento e conflitos familiares. Foto: Divulgação.

HR: Não escrevo todos os dias, infelizmente, em função da rotina de ter um emprego em horário comercial e todas as obrigações da vida ordinária. Tento ler todos os dias, o que já é meio caminho. Reescrever é tão importante quanto escrever, pois o texto é como massa de pão, devendo ser batido, misturado, cortado até ficar no ponto certo. Tenho uns poucos amigos que costumam ler tudo o que escrevo antes de publicar. Faço o mesmo com textos deles.

AC: No seu caso, de onde vem a inspiração?
HR: Vejo a inspiração mais como insight ou ideia, que pode virar um bom texto ou não, dependendo do trabalho que se faça com ela. Mas no geral a motivação é que me move, gerando a necessidade da escrita. Uma encomenda de texto, por exemplo, motiva bastante.
AC: O fantasma da página em branco: mito ou realidade? Isso acontece com você? Em caso afirmativo, como lida com a questão?

Previsão para ontem reúne poemas de Henrique Rodrigues. Foto: Divulgação.

HR: Para mim isso nunca existiu, mesmo porque, quando sento para escrever, é porque alguma ideia inicial já vinha trabalhada na cuca, mesmo que ela seja totalmente descartada depois. Desse modo, a página em branco não me assusta ou assombra.

AC: Um livro marcante. Por quê?
HR: Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. o romance que parece ter sido escrito para os tempos atuais.
AC: Um autor marcante. Por quê?
HR: Millôr Fernandes. O maior intelectual brasileiro do século XX.
AC:  Sei que você também escreve para o público infantojuvenil. Como se relaciona com esses leitores?
HR: É o público que mais nos dá retorno, surpresa e energia. Talvez tenha sido isso que acabou me levando a produzir muito para essa turma. Além da grata ideia de que estamos escrevendo para faixas etárias que estão com a mente mais aberta para o abstrato, a criatividade e a transcendência da realidade. Quando há encontros presenciais com esse público, acontece sempre algo muito rico. Em diversas ocasiões, num mesmo evento literário participo de eventos para crianças, jovens e adultos, e é com os primeiros grupos com quem mais aprendo.

 

Machado de Assis menino, de Henrique Rodrigues, tem ilustrações de Edson de Souza. Foto: Divulgação.

AC: Costuma-se dizer que o brasileiro lê pouco. Na sua opinião, até que ponto isso é verdade?

HR: Em termos absolutos, é. Nossos índices de leitura são vergonhosos. Não temos políticas públicas para a valorização da leitura como uma prática cotidiana. O estímulo à leitura se dá de forma mais eficaz com bons profissionais (professores, bibliotecários, agentes culturais), porém isso se dá mais em ilhas de bons resultados, como boas práticas. Em termos gerais, a situação não é boa. O que se vende espontaneamente (fora as compras de governo e adoções de escolas) são obras quase sempre divulgadas por marketing. A literatura brasileira fora do espectro do best-seller é, via de regra, pouco divulgada e, por consequência, pouco lida.
AC: Além de escrever, você também participa de projetos que promovem o livro e a leitura. Fale um pouco disso.
HR: Como quase ninguém vive de livros no país, é preciso ter um trabalho para pagar o feijão com arroz. Trabalho na área da gestão cultural há mais de 20 anos, atualmente no Departamento Nacional do Sesc, cuidando de projetos na área da literatura. Se por um lado é um trabalho basicamente administrativo, por outro é interessante conhecer e atuar mais do lado de dentro do balcão, contribuindo para que a balança da desigualdade cultural fique mais equilibrada.
AC: Projetos futuros: o que vem por aí nos próximos meses?
HR: Tenho alguns livros para sair, voltados para diferentes públicos. E também  estou organizando uma antologia de contos com 20 autores de diferentes partes do Brasil, que deve sair pelo meio do ano.
AC: Entre os seguidores do canal de Literatura do Portal ArteCult, muitos são aqueles que escrevem ou que desejam escrever. Que conselho ou dica você poderia dar a eles?
HR: Definitivamente, não existe uma receita certa para quem quer ingressar no mundo da literatura como escritor. Se você olhar para a biografia dos escribas em geral, verá que cada um tem uma trajetória distinta. Pensei em ser escritor aos 13 anos, na escola pública onde estudei, mas meu primeiro livro saiu aos 30, depois de muito estudo e tentativas frustradas. Talvez um conselho seja: estudar bem esse ofício, fazer oficinas, participar de concursos, cultivar seus leitores próximos e esperar as coisas acontecerem. Vale lembrar que o tempo da literatura (e da arte em geral) não é esse tempo vertiginoso e efêmero que o mundo digital tenta nos empurrar goela abaixo: é justamente o contrário.
Bem, é isso. Até a próxima!

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AC Encontros Literários

AC Encontros Literários tem curadoria e apresentação (live) de César Manzolillo (@cesarmanzolillo).

 

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Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de vinte e quatro antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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