A promessa da Condição Humana: tolerância a partir de Hannah Arendt

 

“Não se engane: a velhice não melhora o caráter de ninguém. Aquilo que uma pessoa foi fica gravado na pele, no cheiro, no rosto. Se a vida que você levou foi de maldade e sujeira, isso fica estampado na cara. Não sai com nada. Sem a juventude, a gente fica vulnerável. Não resta nenhum artifício. O espírito começa a aparecer de verdade. Sei quando alguém não prestou só pelo contorno das rugas, pelo hálito e pelo olhar.”

(Assim na terra como embaixo da terra)

 

O que estamos fazendo com a nossa condição humana? Começo o artigo de hoje com uma pergunta bastante genérica e ampla, mas o que pretendo aqui, brevemente, é uma reflexão sobre a TOLERÂNCIA a partir de alguns trechos da referida obra desta pensadora admirável em muitos aspectos. Hannah Arendt nasceu em 1906, em Linden, próximo a Hanover, Alemanha. De origem judaica, nossa pensadora viveu os horrores indizíveis de duas grandes guerras mundiais. Sua vida pessoal foi profundamente marcada e transformada pela violência política, social e perseguição sofrida. Por outro lado, Arendt foi, desde criança, segundo uma de suas biografias, uma mente inquieta e brilhante: aos 14 anos já tinha lido a obra de Immanuel Kant (Crítica da razão pura). E aos 15 já lia em grego antigo os clássicos da literatura antiga. Aos 22 concluiu seu doutorado na Universidade de Heidelberg, com a tese “O conceito do amor em Santo Agostinho”. Aos 23 anos, em 1929, ganhou uma bolsa de estudos e se mudou para Berlim. E a partir da década seguinte ela vivenciou grandes conquistas pessoais com seus estudos e sua produção acadêmica , mas também teve sua prisão por alguns dias, perseguição e o auto exílio para Paris (até 1939) e depois para os EUA, onde viveu até sua morte, em Nova Iorque, em 1975. E por que falo deste trajeto pessoal da pensadora? Porque acredito que não dá pra separar o contexto histórico/pessoal da produção de pensamento. É indissociável. Ela carrega em seus textos, aulas e conferências toda essa trágica experiência. Apesar disso tudo, discorre sobre o perdão e a promessa, um dos temas mais brilhantes e ao mesmo tempo autênticos – tudo em volta do homem e de sua relação na pólis.

Na obra A condição humana, publicada em 1958, Arendt já no prólogo expõe seu espanto com o satélite Sputnik, lançado ao universo um ano antes, e analisa este feito sob alguns aspectos como a “enormidade do poder do domínio humano”, “o desejo de escapar à condição humana” (com a “fuga da terra”) e “outro evento não menos ameaçador: o advento da automação”. Por fim, ela diz o que pretende abordar na referida obra: “o que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de pensar o que estamos fazendo.” (P. 6).

O livro de Arendt é tão atual e tão importante quanto o foi há quase 70 anos atrás. Notem que ela está preocupada e já refletia sobre os efeitos da automação para e no mercado de trabalho (é no coletivo, no todo que pensa). Por outro lado, ela se volta à questão da capacidade de produção e ação (faber e laborans), do homem. O mundo no qual a pensadora vivia na época estava se reerguendo da 2ª Guerra e experimentava as consequências do avanço tecnológico do pós-conflito e da corrida espacial disputada entre a ex-URSS e os EUA. O deslocamento dos pólos geopolíticos trazia também a guerra fria e uma época de incertezas e receios. Mas Arendt volta seu olhar para a ação humana e o plano ENTRE os homens – e chama a atenção, neste sentido, para a irreversibilidade da ação: para mais e para menos:

“a redenção possível para o constrangimento da irreversibilidade – da incapacidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse nem se pudesse saber o que se fazia – é a facilidade de perdoar. O remédio para a imprevisibilidade, para a caótica incerteza do futuro, está contido na faculdade de prometer e cumprir promessas. As duas faculdades formam um par, pois a primeira delas, a de perdoar, serve para desfazer os atos do passado, cujos ‘pecados’ pendem como espada de Dâmocles sobre cada nova geração; e a segunda, o obrigar-se através de promessas, serve para instaurar no futuro, que é por definição um oceano de incertezas, ilhas de segurança sem as quais nem mesmo a continuidade seria possível nas relações entre os homens – para não mencionar todo tipo de durabilidade.” (P. 293).

É importante ponderar aqui que o perdão, como Arendt se refere, não tem nenhuma conotação próxima do que estamos acostumados a ler nos escritos religiosos. Ao contrário: o perdão se dá ENTRE os homens (pelo logos), por uma ação feita. O reconhecimento do erro e então a mudança de ideia (de não errar mais), culminando com a liberação para se seguir adiante (de ambas as partes). Já a promessa, também entre os homens, e principalmente por isso, se dá

“pela presença de outros, que confirmam a identidade entre aquele que promete e aquele que cumpre. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade, da presença e da ação de outros, pois ninguém pode perdoar a si mesmo e ninguém pode se sentir obrigado por nenhuma promessa feita apenas para si mesmo; o perdão e a promessa realizados na solicitude e no isolamento permanecem sem realidade e não podem significar mais do que um papel que a pessoa encena para si mesma.” (P. 294).

A ação é capacidade humana, como a pensadora reiteradamente afirma. Se aceitamos isto como premissa verdadeira, aceitamos nossa capacidade de pensar, nosso logos, que por isso, principalmente, coloca-nos diante da nossa alternativa de agir ou não agir: de um bem agir ou mal agir. Aqui está implícito o livre-arbítrio e o outro diante de mim (alteridade) e a minha possibilidade de conviver com este outro.

São os “remédios inerentes à ação”, como ela destaca. São os meios para seguir nas relações, porque não dá pra desfazer o que foi feito. Perdoar pode “desfazer os atos do passado”, e prometer lança ao futuro incerto “ilhas de segurança” para que as relações entre os homens sejam possíveis e toleráveis. Mas ela também contrapõe que “o perdão e a relação que ele estabelece constituem sempre um assunto eminentemente pessoal”, porém há sempre o elo do amor:

“embora seja uma das mais raras ocorrências nas vidas humanas, possui, de fato, inigualável poder de autorrevelação e inigualável clareza de visão para perceber o quem, precisamente por não se preocupar, ao ponto da não mundanidade quase total, com o que a pessoa amada possa ser, com suas qualidades e imperfeições, suas realizações, fracassos e transgressões.” (P. 299).

É interessante e encantador ler isto, pensar sobre isto, vindo de uma pensadora que sofreu tanta violência. É como se fosse, talvez, sua rebelião pessoal: apesar de tudo o que vivenciou, ela nos ensina que podemos – sempre que quisermos – voltarmos a nossa atenção para o outro, para ouvir, refletir com, compartilhar e conviver. E novamente ela ‘põe o dedo na ferida’ da nossa condição humana:

“A imprevisibilidade, que o ato de fazer promessas dissipa ao menos parcialmente, tem uma dupla natureza: decorre ao mesmo tempo da ‘obscuridade do coração humano’, ou seja, da inconfiabilidade fundamental dos homens, que jamais podem garantir hoje quem serão amanhã, e da impossibilidade de se preservarem as consequências de um ato em uma comunidade de iguais, onde todos têm a mesma capacidade de agir. A incapacidade do homem para confiar em si mesmo e para ter fé absoluta em si próprio (o que é a mesma coisa) é o preço que os seres humanos pagam pela liberdade; e a impossibilidade de permanecerem como senhores únicos do que fazem, de conhecerem as consequências de seus atos e de confiarem no futuro é o preço que pagam pela pluralidade e pela realidade, pela alegria de coabitarem com outros em um mundo cuja realidade é assegurada a cada um pela presença de todos. A função da faculdade de prometer é dominar essa dupla obscuridade dos assuntos humanos e, como tal, constitui a única alternativa a uma supremacia baseada na dominação do si-mesmo e no governo de outros; corresponde exatamente à existência de uma liberdade que foi dada em uma condição de não soberania.” (P. 302).

Porque somos isso tudo e portamos essa pluralidade e também a alegria de conviver com os outros. Porque é só pela presença do outro que é possível estabelecer essa promessa. Também pela nossa capacidade do logos. Por outro lado, a possibilidade de estabelecer esses acordos permite a chance de continuidade da vida em comunidade. E já ao final do capítulo, a pensadora volta a enfatizar nossa condição humana – como mortais – e nossa capacidade de agir:

“Entregues a si mesmos, os assuntos humanos só podem seguir a lei da mortalidade, que é a mais certa lei e a única confiável de uma vida transcorrida entre o nascimento e a morte. O que interfere nessa lei é a faculdade de agir, uma vez que interrompe o curso inexorável e automático da vida cotidiana, que, por sua vez, como vimos, interfere no ciclo do processo biológico vital e o interrompe. Prosseguindo na direção da morte, o período de vida do homem arrastaria inevitavelmente todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-lo e iniciar algo novo, uma faculdade inerente à ação que é como um lembrete sempre-presente de que os homens, embora tenham de morrer, não nascem para morrer, mas para começar.” (P. 305).

Notável este ponto de vista, porque é sobre o que fazemos entre o nascimento e a morte – nossas escolhas cotidianas, em maior ou menor grau, para o bem e para o mal. E no centro disto estamos eu, você e tantos outros. Com nossos erros, acertos e a condição humana de agir, perdoar, prometer e conviver. Porque a ação, que se dá entre os homens e a vida que se põe diante de nós é indizível, como afirma José Eduardo Agualusa, em seu livro Tudo sobre Deus:

“milagre é existir

Como quem acende a luz,

sem saber por quê.

Deus? Ninguém o chamou

Mas alguém iluminou tudo.

E era eu. Ou não…”

Sigamos adiante, numa tentativa de bem agir e bem viver consigo e com os outros. Porque a nossa condição possível de seguir é pela via da humanidade, com todo o ‘pacote’ implícito. Com todas as nossas condições e contradições humanas. Hannah Arendt não viveu os tempos da internet, da automação e principalmente da inteligência artificial. Mas já em 1958 lançava seu olhar de espanto diante disto que estava se anunciando, bem como seu olhar atento ao homem da pólis.

E para fechar meu artigo de hoje, deixo o trecho da linda canção de Gilberto Gil, Queremos saber, que fala sobretudo da nossa condição humana (como um todo):

“Queremos saber

O que vão fazer

Com as novas invenções

Queremos notícia mais séria

Sobre a descoberta da antimatéria

E suas implicações

Na emancipação do homem

Das grandes populações

Homens pobres das cidades

Das estepes, dos sertões

Queremos saber

Quando vamos ter

Raio laser mais barato

Queremos de fato um relato

Retrato mais sério

Do mistério da luz

Luz do disco voador

Pra iluminação do homem

Tão carente e sofredor

Tão perdido na distância

Da morada do Senhor”

 

 

Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.

 

ZAL

Zalboeno Lins (ZAL) | Foto: Divulgação
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Author

Me chamo Zalboeno Lins Ferreira, mas pode me chamar de Zal.☺️ Sou graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento do RJ. Em seguida concluí o Mestrado em Filosofia Antiga, com Dissertação falando sobre o conceito da morte e vida feliz em Platão, Epicuro e Epicteto. E atualmente faço Doutorado em Filosofia Antiga pela UERJ, com o projeto de pesquisa sobre o conceito da morte e felicidade em Epicuro e Krenak. E nesta pesquisa, vou traduzir as Cartas de Epicuro do grego antigo para o português e anexá-las à Tese. Mais uma contribuição que fica das Cartas epicuristas. Também realizo palestras de temas de Filosofia, tanto para um programa interno da empresa onde trabalho, quanto para pessoas fora da organização. Semanalmente também apresento o Filosofia de Primeira, no Programa De Primeira Categoria da Rádio Itapuama FM (92,7) de Arcoverde (PE). Comento ideias e temas de autores de Filosofia em inserções de 4 a 5 minutos... É uma forma de deixar a Filosofia acessível para mais e mais pessoas, de forma simples, sem descaracterizar a ideia original do pensador. Mas acima de tudo, sou um grande admirador da Filosofia, como meio de nos resgatar do senso comum...☺️ Num direcionamento de uma vida feliz! Uma vida compartilhada! E por fim, como costumo repetir: sigamos em philía!

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