A Revolta da Chibata : 111 anos de um movimento contra o racismo e pela dignidade humana

Mestre Sala dos Mares

(João Bosco & Vinicius, Aldir Blanc)

“Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu

Conhecido como Navegante Negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas”

Ao ler o trecho dessa música (não sei vocês, mas eu leio cantando), é como se um rádio ligasse dentro da minha cabeça e claramente a voz de Elis Regina reverberasse esse capítulo da nossa história. Vocês sabiam que essa música faz referência a um dos capítulos mais heroicos e ao mesmo tempo mais tristes da história do Brasil?

A Revolta da Chibata ocorreu entre os dias 22 e 26 de novembro de 1910 e foi um levante organizado por marinheiros inconformados com os castigos físicos praticados, entre eles as chibatadas, com as péssimas condições de trabalho, remuneração e alimentação, além da falta de investimento de qualificação na Marinha do Brasil.

João Cândido lendo o manifesto da Revolta da Chibata.

O contexto do período da Primeira República também se torna um dos fatores determinantes para essa revolta, afinal esses homens foram filhos do seu tempo. Foram várias as camadas sociais que se levantaram contra o novo regime político e a elitização de suas reformas. Revoltas messiânicas, da própria Armada contra Floriano Peixoto e contra a vacinação obrigatória, sem esquecer a campanha Civilista de Rui Barbosa, já demonstravam a instabilidade das mudanças no cenário político-social brasileiro do início do século XX. Mas no caso da Revolta da Chibata há duas coisas que chamam bastante atenção, sendo elas: a herança da escravidão em relação aos castigos físicos aplicados nos marinheiros, diga-se de passagem, que a maioria era negra, e o negacionismo da Marinha do Brasil sobre o fato e seus envolvidos, negacionismo esse presente até agora.

A versão dessa história por parte da marinha sempre foi justificando que as Escolas de Aprendizes de Marinheiros tinham um processo de recrutamento brutal ao inserir criminosos nos seus quadros, sendo assim, necessário a força bruta como método correcional desses “delinquentes”, mas não podemos esquecer que a mesma escola foi fundada em 1836 como forma de educar e profissionalizar órfãos pobres, função essa bem distorcida alguns anos mais tarde. Mesmo assim, ainda havia jovens que entravam na escola de aprendizes de maneira voluntária, como era o caso de João Candido Felisberto, o “mestre sala” homenageado na música.

Vamos levar em consideração algumas informações para entender o momento da sublevação do grupo revoltoso. Primeiro devemos observar que a Marinha do Brasil se modernizava com a compra de navios britânicos que exigiam dos marinheiros mais conhecimento e técnica do que força. Segundo devemos entender que os envolvidos na revolta são os mesmos marinheiros que foram buscar as embarcações na Inglaterra e que durante a viagem souberam que as marinhas do mundo todo aboliram os castigos físicos de seus quadros. O terceiro ponto a ser observado é que um marinheiro de nome Marcelino foi condenado a 250 chibatadas, enquanto o código penal da marinha previa o máximo de 25 chibatas, o que trouxe grande horror e inconformidade aos marinheiros. Por último, devemos considerar que a cidade estava envolta as comemorações da posse do novo presidente do país, o militar Hermes da Fonseca, com convidados internacionais e a atenção da imprensa.

Os revoltosos do navio “Minas Geraes”, durante a “Revolta da Chibata”.

Os estrondos dos tiros secos e alguns com munição disparados na noite do dia 22, alarmou toda gente no Rio, Distrito Federal na época e em Niterói, capital do estado e que teve uma casa atingida na praia de São Domingos. Não se sabia ao certo o que ocorria, mas há relatos que na madrugada se ouvia dos navios São Paulo e Minas Gerais os gritos de “Viva a Liberdade!”. No dia 25 de novembro de 1910, foi publicada no jornal Correio da Manhã uma carta dos marinheiros que confirmava a revolta e seus motivos. Nenhum marinheiro assinava a carta, pois todos deveriam estar representados pelo seguinte codinome: Um Marinheiro. Outros navios e sua tribulação aderiram ao movimento como o Deodoro, o Bahia, o República e tantos mais. Nesse cenário as barcas entre Rio e Niterói foram proibidas de circular e a segurança no Palácio do Catete reforçada pelo exército. Uma batalha foi travada nas águas da Baía de Guanabara e as manobras do Minas Gerais realizadas pelo “Almirante Negro” deixaram todos boquiabertos, inclusive os representantes internacionais que estavam aqui para a posse de Hermes da Fonseca. Senado e Câmara dos Deputados entendiam ser urgente a anistia, pois os revoltosos conseguiam realizar ações para a reposição de suprimento. O Senador Pinheiro Machado, político mais importante da Primeira República, envia um representante para a negociação e atender as reivindicações dos revoltosos. A população via com bons olhos os apelos dos marinheiros e a pressão pela anistia só aumento até que ela foi concedida.

João Cândido entrega o comando do Minas Geraes ao capitão Pereira Leite.

O que é mais triste dessa história é que a vitória conquistada foi efêmera e a anistia logo foi cassada. A Revolta da Chibata era incômoda demais para a nova ordem social e política do país, então, uma outra revolta ocorrida na Ilha das Cobras em 10 de dezembro de 1910, foi o pretexto para anulação da anistia e a prisão dos envolvidos, como se os mesmos estivessem participando também desse novo episódio. João Candido Felisberto ficou preso com mais 17 companheiros em uma cela que era destinada para 7 pessoas. A cela tinha sido lavada com cal, prática comum na época, sendo que esse cal secou e desprendeu do chão com o calor de dezembro, matando por intoxicação 16 dos prisioneiros. Os dois sobreviventes ainda ficaram mais alguns dias presos e depois foram internados no Asilo dos Alienados. Os direitos a indenização para esses homens sempre foram negados e uma “amnésia” sobre o fato foi imposta na Marinha. O resgate dessa história só ocorre nos anos de 1960, mas isso é pauta para outra matéria, pois já me alonguei demais e não falei nem sobre a metade dos fatos.

(continua…)

Fica a Dica:

Na Praça XV de novembro, ao lado da estação terminal do VLT,  há um vulto produzido por Valter Brito em homenagem a João Cândido, inaugurado em 2008 no local.

Priscila Monteiro (da Rio HCTur) apresenta a Estátua de João Cândido na Praça XV

 

PRISCILA MONTEIRO

Historiadora e Empresária

 

Nota do Editor: veja também os vídeos abaixo

1) “João Candido – O Mestre Sala dos Mares” no “Poesia Prato do Dia / Poesia pra Todo Dia” no canal YouTube de Cesar Cardoso:

 

1) “Monumento a João Candido” no canal da RIOHCTUR – História, Cultural e Turismo:

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PRISCILA MONTEIRO
Carioca, empreendedora, professora de História e guia de turismo, fui criadora da primeira empresa de Turismo Histórico da cidade do Rio de Janeiro com o intuito de dar aulas a céu aberto. Formada em História pela Universidade Cândido Mendes em 2007, segui um caminho sem volta em apresentar essa cidade que é um verdadeiro museu a céu aberto, onde capítulos dos livros sobre a história do Brasil saltam aos olhos. Da colônia, passando pelo Império e chegando a República, encontramos fragmentos da história de todos os brasileiros Acompanhe os textos desse blog e descubra um outro Rio, um outro Brasil que muitas vezes não nos são apresentados em sala de aula.

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