A importância da Quarentena: O que aprendemos com a Gripe Espanhola?

 

Olá, leitores do ArteCult.

Estamos de volta com os textos da coluna História do Brasil para falar um pouquinho deste momento que está mudando a vida de todos nós. A Covid-19 não é a primeira epidemia a ocorrer no Brasil e no mundo, que necessita do confinamento das pessoas em suas casas. A Gripe Espanhola* de 1918 provocou o mesmo sistema de isolamento social para diminuir a curva de contágio e o aumento de número de mortos.

Apesar do nome, a gripe não nasceu na Espanha, existindo suspeita sobre o seu local de origem tendo sido a França. Este último país e outros como o Reino Unido, Estados Unidos e a Alemanha, tinham casos de contaminação em massa, sofriam com as mortes da gripe, mas a censura de guerra impedia a imprensa publicar sobre esse assunto. A imprensa só estava livre para falar sobre a contaminação assolando a Espanha, podendo publicar e registrar sobre essas mortes pela situação de neutralidade do país na Grande Guerra. Um outro fator de peso para colaborar com essa associação aos espanhóis, foi o fato de o rei Afonso XIII ter tido a doença, o que moldou as características mais marcantes sobre o nosso conhecimento relativo à epidemia a eternizando nos livros de História como a Gripe Espanhola. A doença chegou ao Brasil em setembro de 1918, através do navio Demerara que atracou nos portos de Recife, Salvador e Rio, onde são registrados os primeiros casos, sendo que no nosso estado, as primeiras confirmações foram na cidade de Niterói. Essas cidades receberam soldados do contingente de guerra que tinham dado apoio na base de Dakar, no Senegal, durante a Primeira Guerra Mundial.

Na cidade do Rio de Janeiro, capital do país em 1918, a doença contaminou 50% da população de um total de 700 mil e matou 15 mil pessoas, de um total nacional de 35 mil mortos. Quando olhamos esse número pode parecer um número pequeno na proporção de contaminados, porém a cidade não estava preparada nem em números de hospitais e leitos e muito menos em número de coveiros (as maiores vítimas da época), túmulos e cemitérios, além de todos os outros atendimentos que se faz necessário para esse montante de 15 mil pessoas mortas. Os corpos ficavam nas portas das residências por vários dias até serem enterrados, muitas vezes em covas coletivas e sem caixão, pois não havia os mesmos em quantidades suficientes.  E é esse registro, é sobre essa memória, somada ao avanço da epidemia em outros países que nos preocupamos com a Covid-19, sendo por isso que se fala tanto sobre o achatamento da curva usando a estratégia da quarentena.

No caso do Rio de Janeiro o protagonista para as soluções de atendimento a todos os doentes foi o biólogo, médico infectologista e sanitarista Carlos Chagas. Ele foi responsável por montar cinco hospitais e 27 postos de atendimento para a população contaminada. Em um total de 3 meses a epidemia foi se extinguindo por aqui, mas em outras cidades dos Estados Unidos, Reino Unido e China, o tempo foi um pouco maior para o fim da transmissão devido ao grande número de soldados que retornavam da guerra. Porém na cidade do Rio, mesmo sendo as maiores vítimas os moradores de cortiços e favelas, tivemos como vítima fatal um personagem político símbolo da elite cafeicultora, o presidente reeleito Rodrigues Alves, que por ironia do destino talvez, havia eliminado em seu primeiro governo as epidemias de varíola, febre amarela e a peste bubônica.

Uma conta básica para reflexão sobre a quarentena usando os percentuais reais e hipotéticos:

Ano População Total Contaminação População Doente Óbitos Letalidade Óbitos/Pop. total
1918 700.000 50% 350.000 15.000 4,28% 2,14%
2020 6.500.00 0,034% 2.216 122 5,5% 0,0001877%
2020 6.500.000 50%** 3.250.000 139.286** 4,28%** 2,14%**

**números hipotéticos se em 2020 tivermos as mesmas taxas percentuais de 1918

Olhando para a história temos a sensação de que ela se repete, mas sempre há diferenças em relação aos fatos anteriores como quantidade populacional, o avanço da medicina, materiais descartáveis para evitar a contaminação e a criação da Organização Mundial da Saúde em 1948. A mesma, criou determinações que seriam os ideais relativos aos investimentos dos países para evitar grandes epidemias e para poder socorrer a população, como os números de UTI’s / habitante que um país deve ter. Mesmo assim não vemos essa realidade ideal no Brasil, na América Latina e da África.

Vamos refletir e sair diferentes dessa?

*Foi descoberto em 2005 que a Gripe Espanhola é um dos tipos de influenza H1N1 como também vista no surto de 2009

 

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priscilamonteiro
Carioca, empreendedora, professora de História e guia de turismo, fui criadora da primeira empresa de Turismo Histórico da cidade do Rio de Janeiro com o intuito de dar aulas a céu aberto. Formada em História pela Universidade Cândido Mendes em 2007, segui um caminho sem volta em apresentar essa cidade que é um verdadeiro museu a céu aberto, onde capítulos dos livros sobre a história do Brasil saltam aos olhos. Da colônia, passando pelo Império e chegando a República, encontramos fragmentos da história de todos os brasileiros Acompanhe os textos desse blog e descubra um outro Rio, um outro Brasil que muitas vezes não nos são apresentados em sala de aula.

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