A ESCRITA DO CORPO : Metodologias de composição de uma performance

Legenda: VII Semana Dança Cariri (A Dança é de Quem?) do Sesc Juazeiro do Norte CE . Foto: Souza Junior

 

Segundo Zumthor (2014), a ideia de performance deveria ser estendida englobando um conjunto de fatos que hoje a palavra recepção abarca, mas, sobretudo, no momento em que os elementos envolvidos por ela são cristalizados e direcionados para um percepção sensorial. Ou seja, um engajamento do corpo. Neste sentido, para que haja uma performance, é preciso um espectador que se coloca diante de um autor produtor da ação de performar, seja no ritual ou na performance:

A performance e o conhecimento daquilo que se transmite estão
ligados naquilo que a natureza da performance afeta o que é
conhecido. A performance, de qualquer jeito, modifica o
conhecimento. Ela não é simplesmente um meio de
comunicações comunicando, ela o marca (ZUMTHOR, p.35).

O que questiono neste ensaio, no entanto, é se há realmente um limiar entre estes dois espaços, ou se o corpo que dança é o mesmo que ritualiza, já que em ambos os casos há uma ação onde um observa, e o outro é o agente da ação. Talvez o que difere nestes dois casos é semelhante ao que Antonio Gómez – Moriana (1985) propõe dando um passo além da estética de recepção alemã ao integrar quatro instâncias do fato literário, que, aqui, podemos estender para outras instâncias como a dança e o teatro: contexto, autor, texto e leitor. Ou seja, tanto na performance quanto no ritual há um autor, ou seja quem cria ou quem estipula os códigos. Há um texto ou códigos, ou seja, os códigos estipulados, seja pelo candomblé ou pelos gestos transcritos na dança.
E há um leitor que se posiciona mediante as duas ações. Porém, o contexto entre o ritual do candomblé e da performance são totalmente diferentes.

É a partir destas diferenças que observo os atravessamentos entre o corpo que entra em transe no ritual e na dança, especificamente ao criar uma metodologia de composição para a performance Transe, cuja pesquisa se iniciou em 2018, em uma residência artística de que participei no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro; simultaneamente aos atravessamentos sobre o ritual do candomblé cujas pesquisas foram realizadas entre 2018 e 2019.

Uma das principais observações que deixo aqui anotada é sobre a relação do estar dentro e fora de um espaço, ao mesmo tempo, neste processo de pesquisa. Ao expor o espaço do dentro, falo da minha relação enquanto artista que experimentou as diferenças entre aquela que dançou, e experimentou o transe nestes dois espaços. E fora, quando me coloco como pesquisadora, sem dar continuidade, momentaneamente, aos meus processos de iniciada no candomblé, sem realizar a feitura estipulada em um jogo de búzios ainda no ano de 2019.

Outra observação que faço é sobre o treino corporal que se repetiu ao longo deste processo, a partir de gestos codificados do candomblé que observei desde o meu primeiro encontro com este espaço em 2017, e que naquele momento possibilitou a criação da performance Guia até a passagem por uma segunda casa de candomblé em Realengo, onde vivenciei meu primeiro processo de incorporação em 2018. A partir dali comecei a pesquisar as relações entre o transe no ritual e na dança. Uma primeira observação que fiz, a partir desta experiência, é que havia em toda a movimentação específica de quem dançava naquele dia, e era um iniciado na religião.

Nos espaços onde meu objeto transitou durante este processo de pesquisa foram realizados alguns métodos para sua realização. Enquanto que no ritual percebo alguns indícios sobre o transe no candomblé, a partir de um método de observação e recolhimento de dados durante a pesquisa de campo, a experiência que narro na composição da performance que criei passa a ser uma escrita de si, uma experiência que se trata da projeção da memória que tenho sobre o ritual ao transliterar os gestos e estados corporais para o corpo que dança.

As imagens dos gestos observados no candomblé estavam ali, mas ao mesmo tempo tomava cuidado para não cair no lugar da representação de um código. Isto me permitiu um adentramento no espaço da performance e da cena com a imagem pré-definida de coreografia. No entanto, estas imagens foram sendo modificadas e redefinidas após os treinamentos corporais que se repetiram e geraram um corpo-estado ao invés de corpo-movimento.

 

RENATA BORGES

 

Referências Bibliográficas

ZUNTHOR, Paul. Performance, percepção, leitura. SP: Cosac Naify, 2007.

 

 

 

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RENATA BORGES
Colaboradora e Membro do Corpo Editorial do Site ArteCult, e Doutoranda em Letras pelo Programa de Pós Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Mestre em Letras pelo Programa de Pós Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, contemplada com bolsa de estudos vinculada ao CNPQ. Instrutora de Pilates, ministra aulas particulares voltadas a diversos públicos. Mestre em Reiki, atua como difusora do método em atendimentos particulares e à distância. Desenvolve um trabalho de criação, direção e interpretação em dança contemporânea, que investiga o estudo do gesto nos terreiros de candomblé como fundamentação para uma escrita performática a partir da observação dos estados corporais no ritual e na performance.

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