
por César Manzolillo

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BEM TE VI, MAL TE QUIS
No topo da quaresmeira, Bento e Vicente viviam uma guerra invisível. Bento tinha o voo mais elegante do parque. Ele planava contra o vento, desenhava curvas fechadas e mergulhava como uma flecha para capturar insetos no ar. À distância, Vicente olhava aquilo com rancor no peito amarelo. Seu voo era pesado e desajeitado, e ele daria tudo para ser capaz de cortar os céus com a imponência do companheiro. Vicente, por sua vez, guardava na garganta o canto mais puro da região. Quando entoava o “bem te vi” característico da espécie, o som ecoava cristalino. Bento assistia à cena roendo-se por dentro. Sua voz era rouca e sem brilho. Ele odiava a melodia de Vicente e torcia para que o rival ficasse mudo para sempre. Certo dia, um gavião cruzou o caminho deles. Vicente, paralisado no galho, soltou um canto de alerta tão potente que atordoou o predador ao mesmo tempo que Bento decolou num rasante espetacular, escapando do gavião. Os dois sobreviveram graças aos talentos que cobiçavam no outro. Porém, ao pousarem novamente lado a lado na quaresmeira, incapazes de aceitar as próprias virtudes, deram as costas um para o outro, consumidos pelo amargor de sempre.
CÉSAR MANZOLILLO

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com Márcio Calixto
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