

Fto: Divulgação.
Reconheço que não possuo uma formação específica para essa crítica teatral. Diante do que assisti no Centro Cultural Banco do Brasil, há tanta técnica, pesquisa e sofisticação envolvidas que prefiro seguir o caminho do coração para traduzir em palavras a experiência que vivi.
O que é fazer teatro? Talvez eu jamais encontre uma resposta definitiva para essa pergunta, sobretudo quando assisto a espetáculos da dimensão de “ConfuZo”.
Sabe quando estamos escrevendo uma carta para alguém muito importante e não sabemos por onde começar? Era exatamente assim que eu me sentia ao deixar a sala. Mas talvez eu saiba, sim, por onde começar.
Há cerca de quatro anos, a prefeitura retirou uma árvore imensa da rua onde moro. Era uma árvore alta, dessas que parecem apontar para as nuvens. Todas as manhãs eu a via da janela. Minha cadela, Bé, adorava os galhos delicados que dela nasciam. Era um dia bonito quando a derrubaram. O sol brilhava. E, ainda assim, algo parecia profundamente errado. Aquela árvore fazia parte da minha história.
É sobre isso que “ConfuZo” fala.
Mas fala com uma profundidade rara, sustentada por uma pesquisa rigorosa que se torna o ponto mais alto de tudo o que se vê em cena. Nada é gratuito. Nada está ali apenas para ilustrar uma ideia. Cada elemento é resultado de uma construção cuidadosa, em que dramaturgia, atuação, figurino, iluminação e trilha sonora operam em absoluto equilíbrio. Um solo de artistas fértil.
SINOPSE
O Homem-Árvore (Andre Curti) deseja enraizar-se, mas é recusado pelo mundo à sua volta. Ele simboliza a impossibilidade de pertencer. O Homem-Luz (Artur Luanda Ribeiro) pedala uma grande engrenagem em forma de bicicleta, que é geradora de energia elétrica. Dele depende a luz de cena. Ele não pode parar. Ao mesmo tempo em que ilumina, o Homem-Luz também se consome, e às vezes vai “escurecendo” por dentro sem que ninguém perceba. Entre o Homem-Árvore e o Homem-Luz, o palco se transforma num território poético entre o enraizamento e o movimento.
Há um refinamento admirável no encontro entre os dois artistas, cuja parceria de longa data se revela em cena como uma engrenagem perfeitamente ajustada. O teatro físico alcança aqui uma potência singular. Os corpos estão completamente a serviço da narrativa e da mensagem. Enquanto o corpo está presente de forma tão íntegra e firme, o coração sangra em forma de dramaturgia.
Uma árvore. Um homem-árvore. Um julgamento.
Mas quem está sendo julgado? A árvore? O homem? Ou a própria humanidade, incapaz de coexistir com aquilo que considera diferente ou inconveniente?
Como define a própria companhia, “ConfuZo” é uma fábula contemporânea sobre o corpo que resiste e sobre o desejo de pertencimento em um tempo de colapso social, ambiental e emocional.
Enquanto isso, um dos intérpretes pedala uma bicicleta que gera a energia responsável por iluminar a cena. O corpo transforma-se em usina. O esforço físico converte-se em matéria cênica. A luz torna-se vulnerável, intermitente, dependente da resistência humana. Não há metáfora mais contundente para um mundo que insiste em consumir sem refletir sobre suas fontes de energia e seus impactos.
Se o coração realmente defende o planeta, talvez devêssemos começar produzindo a nossa própria energia.
Que delícia de espetáculo. Que precisão. Que consciência.
Há uma engenharia cênica aqui que jamais imaginei presenciar.
Não nego que “Irmãos de Sangue” permaneça entre meus trabalhos favoritos da companhia, mas a inteligência dramatúrgica de “ConfuZo” me sensibilizou profundamente. As questões levantadas extrapolam o discurso ambiental e alcançam o próprio ser humano, porque estão diante do mesmo olhar obscuro de “seres humanos” frios e cruéis. Em diversos momentos tive a sensação de que somos julgados da mesma maneira que julgamos. Condenamos o diferente, justificamos a violência e encontramos razões aparentemente racionais para aniquilar aquilo que simplesmente deseja existir, percebam as palavras, eu disse só existir.
Não existe lógica capaz de justificar a destruição da vida.
O trabalho corporal dos intérpretes é de excelência absoluta. Os movimentos expressam aquilo que as palavras não alcançam. “ConfuZo” funciona como um remédio para quem ainda se angustia diante da indiferença humana. Um lembrete de que não estamos sozinhos diante da brutalidade, da intolerância e da aceitação passiva da destruição.
A montagem sustenta uma relação de dependência poética entre os dois artistas. Estão separados em cena, mas profundamente conectados. Existe uma confiança mútua que sustenta toda a arquitetura do espetáculo fisico.
São tantos os desdobramentos possíveis que, em determinados momentos, vi as queimadas. Em outros, vi o futuro. Depois, vi o passado.
Karen Brustolin assina figurinos de rara inteligência. A toga do juiz destruidor do planeta carrega sofisticação e poder simbólico. Já a composição do homem-árvore encontra um equilíbrio delicado entre humanidade e natureza. Karen possui uma habilidade admirável de compreender exatamente o que a cena necessita. Seu trabalho nunca disputa espaço com a obra; ao contrário, amplia sua potência. Sua trajetória consolida, a cada criação, um nome fundamental para o figurino teatral brasileiro.
A trilha sonora de Frederico é outro destaque. Tornou-se cada vez mais difícil falar sobre seu trabalho sem cair em elogios reiterados. Porque não há excessos, não há desvios. Há precisão. Desta vez, a composição sonora cria atmosferas densas e futuristas que ampliam a sensação de urgência presente na obra. A música não acompanha o espetáculo; ela o atravessa.
“ConfuZo” é daqueles trabalhos que permanecem conosco muito depois do aplauso final. Um espetáculo que nos obriga a olhar para a árvore derrubada da nossa rua, para o planeta que insistimos em ferir e para a humanidade que ainda temos a chance de defender.
André Curti e Artur Luanda Ribeiro são mágicos e brasileiros, são preciosos demais para nós, são como tesouros e motivo para nos orgulharmos profundamente. Eu jamais imaginaria que ao falar de uma árvore, eu poderia estar falando também de um ser humano, tentando sobreviver ao caos dos que não entendem o que é diversidade.
FICHA TÉCNICA
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Texto, dramaturgia, cenografia, Direção e Performance: André Curti e Artur Luanda Ribeiro
Música Original: Federico Puppi
Desenho de luz / iluminação: Artur Luanda Ribeiro
Figurino: Karen Brusttolin
Cenotecnia / engenharia poética, hiper criativa e carinhosa: Dodô Giovanetti
Pesquisa – Projeto de Engenharia Elétrica / Poética (Bicicleta): Dodô Giovanetti, André Batistela, Robson de Souza Nascimento e Artur Luanda ribeiro
Realização do projeto da engenharia elétrica / poética: André Batistela
Assistente de Figurino: Maïa Flores
Alfaiate: Leonardo Ramos
Aderecista: Gabriel Barros | LAPE
Direção de Palco de Contrarregragem: Dodô Giovanetti
Operação de Som: Tiago Rodrigues
Mídias Sociais: Pedro Gaudêncio
Fotografia: Renato Mangolin
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Assistente de Produção: Pedro Gaudêncio
Produtor Executivo: Fernando Queiroz
Direção de produção: Silvio Batistela
Financeiro: Alex Nunes
Idealização e Coordenação Geral: Cia Dos à Deux
SERVIÇO
“ConfuZo – está escurecendo dentro de mim”
TEMPORADA: de 03 de junho a 26 de julho de 2026
ONDE: Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil RJ
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro, Rio de Janeiro / RJ
HORÁRIOS: 4ª a sab às 19h e dom às 18h
INGRESSOS: R$30 e R$15 (meia), na bilheteria do CCBB ou no site bb.com.br/cultura /
HORÁRIO BILHETERIA: de quarta a segunda, das 9h às 20h
CAPACIDADE: 159 lugares
DURAÇÃO: 65 min
GÊNERO: teatro visual
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









