Com Ana Gosling

Imagem gerada por IA/ChatGPT
A FILA DA VOTAÇÃO
Votei obrigada, é verdade. Mas imbuída do tal dever cívico. Sou testemunha da abertura política e lembro a alegria que contagiava o ambiente pós-ditadura. Poder falar, criticar, escolher e acreditar num Brasil de futuro próspero.
Bem, o futuro não é mais como era antigamente. A República adoece vitimada por subtrações, ilegalidades e incitações ao ódio, pondo a democracia em risco. Com os números dos candidatos no papel entre os dedos e o corpo fervendo de calor, estalei os beiços.
Chegara à seção eleitoral no horário do almoço, vinda do hospital onde levara o filho para tomar soro, depois de ele passar mal desde a madrugada. Estava cansada da manhã agitada. Ao encarar aquela fila, pensei, primeiro, em chorar; depois, em correr. Fiquei, mesmo o corpo pedindo cama para descansar.
Os primeiros na fila disseram estar lá havia duas horas e meia. Peguei o último lugar, depois de várias curvas sinuosas. Três pessoas avisaram estar na minha frente: uma se sentou porque a pressão baixou; outro tinha a perna a doer; o terceiro, com um filho pequeno faminto, fora à cantina. Era esse tipo de fila, entende?
Muitos muxoxos, gente se abanando. Formaram-se duplas, trocando comentários. Estávamos à toa e as conversas miúdas ganharam fôlego. Viramos um grupo. Da crítica à desorganização do TSE chegamos ao perdão, considerando a quantidade de opções de voto. Falamos sobre o etarismo digital, supondo ser causa da demora, até descartarmos a sugestão do grupo à frente de votar pelo “gov.br”, pelo risco: voto de cabresto. Partimos para as séries e filmes lembrados a partir de algum fato político aleatório suscitado na roda: Breaking Bad, 24 horas, Bye Bye Brasil, Ainda Estou Aqui, Meu Querido Presidente.
Duas meninas vestiam vermelho da cabeça aos pés. Tinham adesivos colados nas bolsas. Dois rapazes usavam camisa amarela. Na diagonal, um casal idoso, de mãos dadas, usava camisetas com a mesma imagem de Nossa Senhora. Entre mim e o fim da fila, cores e estampas eram indecifráveis. Os assuntos variavam entre a apuração dos votos, como desinfetar bem as verduras, o melhor frango de padaria do bairro, a farinha do pão do supermercado e as previsões de tempo para a semana.
Aí Dudu entrou nas nossas vidas. A fila andou e rearrumou quem ficou de frente para quem. E Dudu ficou evidente. Pediu ao pai para descer de seu colo, percebendo estar na área infantil de uma escola e ter todos os brinquedos só para ele. Andou de motoca, empurrou carrinho de mercado, tocou campainha, montou hambúrguer. Pulou entre os números desenhados sobre as bolas coloridas no chão e obrigou estranhos a ficarem de pé sobre o 5, o 7, o 9… Seduzidos por suas bochechas encarnadas de calor, íamos para o círculo, oferecíamos tomates de plástico e sorríamos para ele gostar de nós.
Lembranças trouxeram ao centro da conversa os netos, os filhos, a própria infância. O Sítio do Picapau, o Castelo Rá-tim-bum, o Vigilante Ferroviário e Lobo. Histórias de bichinhos levaram ao corte de árvores no bairro para construção de prédio. A saudade da piscina do clube que não mais existe onde o edifício ficará, frequentada na adolescência que passou. As matinês no clube do outro lado da rua onde estávamos, onde primeiros beijos aconteceram.
O mesário se aproximou para dizer a um homem que ele não precisava mais aguardar; tinha prioridade, pela idade. “Obrigado, mas estou bem aqui. Olha só quantos amigos eu fiz!”. Rimos todos da gaiatice. E continuamos em roda, falando amenidades.
Ninguém disse seu candidato. Ânimos não se acirraram. Ficamos hora e meia sendo compadres. Vestidos de cores diferentes. Cumprindo nosso papel. E abraçando as semelhanças que nos unem.


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
















