Uma entrega de provas

Coluna de Márcio Calixto

Foto: Divulgação

Uma entrega de provas

Levei um filho para ir trabalhar comigo. Feriado na escola dele, que mora em outro município, não quis outra coisa:

– Pai, quero ir no trabalho contigo.

Seria algo simples mesmo, entrega de provas, debater o gabarito, analisar possíveis erros, coisa bem tranquila.  Pedi para que ele entregasse as provas para mim. Ainda na letra A, quando um problema de caligrafia o levou a falar errado o nome de uma aluna, aconteceu a questão:

– Ana Caralha.

Silêncio.

Arregalei os olhos. Ele repete. Algumas risadas surgem. Meu pequeno não entendeu – e entendeu ao mesmo tempo, a forma como repetiu o palavrão ao invés de acertar o nome da aluna expôs seu breve desejo à piada.

Peguei a prova. Li o nome. Realmente, parecia Caralha. Mas era Carolina, a posição exótica do i, em seu volume, perto do n, deu sim a impressão de ser um h. Li com calma. Não queria constrangimento, a sala de aula hoje é perversa e perigosa, precisamos estar atentos a tudo. Sempre.

Pedi desculpa à aluna. Ela a aceitou bem. Não seria um problema. Ela mesma reconhece o problema gerado por sua caligrafia apressada. Sei o que é o problema de uma caligrafia apressada. Um dos custos da digitação de minhas crônicas às vezes se dá em entender o que escrevo. Caos particular e preciosístico.

Ao receber a prova e sentar, alguns de seus colegas concordam, parecia realmente que estava escrito caralha.

Pronto. Virou mais um dos folclores que seguirão com minha carreira.

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 


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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.