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A compositora Elodie Bouny foi indicada ao Latin Grammy 2026, na categoria Melhor Composição Clássica, pela obra “Tríptico Sud-Americano”, escrita especialmente para o novo álbum da violonista paraguaia Berta Rojas, “La Huella de las Cuerdas”, também nomeado na categoria Melhor Álbum Instrumental.
A notícia chegou em um dia particularmente simbólico para a compositora: o mesmo da audição de sua ópera Esquecer? Nunca Mais!, criada pelo brasilianista James Green sobre a ditadura no Brasil, da qual é co-compositora ao lado de Roee Ben Sira. A coincidência entre a audição da ópera e o reconhecimento internacional por uma composição orquestral marca um momento importante de sua trajetória artística.
A relação de Elodie com o trabalho de Berta Rojas começou há mais de duas décadas. No início dos anos 2000, a compositora descobriu a violonista por meio de uma gravação que se tornaria referência mundial da obra do compositor paraguaio Agustín Barrios Mangoré. A profundidade e a delicadeza daquele álbum marcaram Elodie, que passou a acompanhar Berta desde então.
Em 2021, as duas se conheceram virtualmente e, pouco depois, se encontraram em Paris. A aproximação deu início a uma relação artística que culminou, em 2024, no convite de Berta para a criação de uma obra inédita que retratasse paisagens latino-americanas.
Assim nasceu o “Tríptico Sud-Americano”, uma suíte em três movimentos — O Mar, A Montanha e El Llano — concebida para violão solista, cordófonos tradicionais da região e orquestra de câmara. O primeiro movimento combina violão, bandolim e orquestra; o segundo, violão, charango e orquestra; e o terceiro, violão, cuatro venezuelano e orquestra.
Para compor a obra, Elodie mergulhou na sonoridade dos instrumentos, estudando suas características e possibilidades. Em Lisboa, tomou emprestados de amigos um cuatro e um charango para compreender suas nuances. O bandolim, por sua vez, já lhe era familiar pela longa convivência com a música brasileira.
O processo contou com a colaboração dos produtores argentinos Popi Spatocco e Sebastian Hernandes, responsáveis pela produção de Berta, que acompanharam a escrita, sugeriram caminhos e ajudaram a lapidar a obra. Os músicos Pedro Franco, no bandolim, Federico Tarazona, no charango, e Jorge Glem, no cuatro, completaram a equipe da gravação.
A peça é também uma homenagem pessoal à América Latina. Nascida na Venezuela, filha de mãe boliviana e pai francês, apaixonada pela música argentina e com quase quinze anos de vida no Brasil — onde seus filhos nasceram —, Elodie carrega o continente como parte essencial de sua identidade.
“Esta obra é também uma homenagem à minha história”, afirma. O processo de composição, especialmente por envolver orquestra, exigiu intensidade e disciplina. “Às vezes a ideia não vem, às vezes vem e não satisfaz. Mas quando finalmente nasce a semente certa, você começa a regar, alimentar, fazer crescer. É um trabalho árduo, mas é onde mais me realizo.”
A indicação chegou como surpresa e emoção. “A ficha ainda está caindo. Provavelmente é o maior reconhecimento da minha carreira até agora. Estou nas nuvens”, afirma. Elodie concorre ao lado de nomes que admira profundamente, como Tania León, Gabriela Ortiz, Richard Scofano e Gonzalo Grau. “Ter três mulheres entre os cinco indicados já é uma vitória para a música contemporânea.”
A cerimônia acontece em 12 de novembro, em Las Vegas. Por compromissos profissionais, Elodie não poderá estar presente, mas celebra o momento. “Só a indicação já é um holofote imenso para o meu trabalho. Se ganhar, será incrível. Mas eu já estou muito feliz.”









