
por César Manzolillo

SURTO
O som do relógio de parede havia mudado de tom. A sala cinzenta, o sofá de couro e a mesa de madeira com quatro cadeiras, a realidade tinha se tornado insuportavelmente pesada. O ar estava se esgotando. Havia três dias que Jairo não dormia. Ele seguia consumido por uma certeza gélida de que tudo estava prestes a acabar. Sua mente era um labirinto sem saída, e ele precisava de controle. Precisava estancar o vazamento invisível que sugava sua vida. A primeira atitude extrema veio sem planejamento. Pegou o celular, o epicentro de sua ansiedade, foi até a gaveta de ferramentas e o golpeou repetidas vezes até que o aparelho virasse uma massa disforme. Seus dedos sangraram, mas ele não sentiu dor. O sangue manchou o tapete da sala. Tomado agora por uma energia desesperada, Jairo começou a arrastar os móveis contra a porta de entrada criando uma barricada improvisada. Em seguida, dirigiu-se ao quarto. Abriu o guarda-roupa e passou a rasgar a farda de policial, jogando os pedaços de tecido pela janela do sétimo andar. Papéis, documentos, fotos antigas, livros, tudo lançado ao vento da madrugada e espalhado pela rua deserta. Jairo então correu para o banheiro e começou a cortar o próprio cabelo rente ao couro cabeludo, falhas e ferimentos brotando na pele. Após alguns segundos, o silêncio voltou. Do outro lado da porta barricada, batidas angustiadas de Paulo, o vizinho do 702, perguntando o que estava acontecendo. Jairo não respondeu. Em vez disso, sentou-se no chão frio da cozinha, enterrou a cabeça entre os joelhos e chorou.
CÉSAR MANZOLILLO

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com Márcio Calixto
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