
Imagem Divulgação: André Bringuenti
O engraçado é que a primeira manifestação artística que se tem notícia, me parece bem democrática, na verdade não posso afirmar, não estava lá, nem conheço alguém que já tenha estado. Mas pinturas feitas na parede, mesmo que dentro de cavernas, me levam a crer, que era para todos.
Ou será que o acesso era só para os chefes da tribo, sua família e seus subordinados mais nobres?
Ou teria uma bilheteria na entrada da caverna?
“Três ossos comprando o ingresso antecipado, na hora são cinco”
Gritava o homem coberto de pelos e com um tacape encostado no ombro
Acredito que não.
E depois veio a arte egípcia, extremamente canônica, voltada para o faraó, sua família e pessoas de alto escalão da terra das pirâmides. Mas esses cânones eram destinados somente para os deuses (No Egito antigo, o Faraó era dado como um Deus na terra), se por acaso, um pintor estivesse à toa em um domingo à tarde, e fosse pintar alguém do povo, não precisava respeitá-los.
Só uma observação, nesse tempo havia a arte, não o artista.
E assim a arte vai se tornando propriedade dos que tem posses e títulos
Corre o tempo…
Chega o Renascimento, e com o apoio de famílias importantes, como os Médicis em Florença, os artesãos passam a ser considerados artistas e alguns são tratados quase que como nobres. A reboque vem a ideia de que a arte é para pessoas que tem cultura clássica, e somente assim poder entender seus significados.
Com isso a arte se separa definitivamente de artesanato. O objeto feito à mão pelo povo vira “folclore“, não arte. Ainda hoje, tente chamar uma obra de um artista de artesanato, e você verá no semblante a reprovação.
Daí surgem os museus, mas com regras de etiqueta, roupa, silêncio. O operário não se sentia bem-vindo.
Os burgueses passam a comprar arte como símbolo de poder. Ter um quadro na sala mostra que você tem dinheiro e status. Com tudo isso, a arte vai ficando cada vez mais distante do povo.
E quando surge um movimento, que sai do atelier, e retrata pessoas comuns, são prontamente ridicularizados pelos ditos «Doutores da arte».
Os impressionistas.
E depois chegam os marchands, as galerias, os leilões, os intermediários, os críticos, os críticos dos críticos, só não chega o povo, e a arte se torna uma palavra que seu Sebastião da venda ouviu um dia falar.
Mas seu Sebastião tem na sua venda, por cima das prateleiras, atrás de uma fileira de garrafas, um quadro com um desenho de Nossa Senhora, tem também em sua blusa, surrada pelo tempo, uma estampa representando uma paisagem praiana, ao mesmo tempo que escuta pelo seu velho companheiro, o rádio de pilha, uma moda de viola , que o leva na lembrança, para junto de seu pai, que moldava com canivete, pedaços de madeira de Guiné, que viravam figas, que se tinha o costume de pendurar nos berços.
Mas nada disso é considerado arte, é mundano demais, arte é divina! Não divina celestial, mas divina comercial.
Arte é valor.
O que Pierre Bourdieu chamou de Capital Cultural, que usa a cultura como um recurso estratégico na reprodução das desigualdades sociais.
Na contramão , veio o grafite, (não estou me referindo a pixação), a arte da rua, popularizando o acesso à suas criações. Há um esforço também de alguns orgãos, para reverter, mesmo que um pouco, essa situação, como museus com entrada franca, movimentos artísticos sendo levados para a periferia, editais e outras ferramentas. A distância que se criou foi tão grande, que temos muito trabalho pela frente para mudar esse cenário, e quiçá chegar um dia em que não escute mais: a arte não é importante.
Trabalho em um projeto chamado Caminho das Cores, que vai completar quatro anos em novembro. Estamos transformando a cidade de Lumiar em Nova Friburgo – RJ, em uma galeria a céu aberto. Já foram mais de 200 postes e incontáveis metros de muro pintados.
A resposta se deu muito positiva, pessoas simples, do interior, que nunca tiveram acesso a um museu, uma galeria, estavam falando sobre arte, do bem estar que ela causava, de transformar uma simples caminhada em um momento de contemplação.
Convido você a conhecer esse projeto:
Se puder compartilhe, nos ajudando assim a democratizar o que já foi nosso, lá nas paredes das cavernas e posteriormente nos foi tirado, dizendo: isso é para mim, não para você, pois sou melhor…
A ARTE.










