
Com Ana Gosling

Iñaki del Olmo, em Unsplash
O livro pela capa
Para a criança, a estante era imponente. Até o teto, em madeira escura, com divisórias roliças encaixadas na base das prateleiras. O miolo colorido. Uma enciclopédia de medicina, branca, contrastando com o acervo. A coleção de José de Alencar, verde, e a de Eça de Queiroz, vermelha, em destaque. Exemplares únicos, em cinza e preto. Uma coleção de Ciências, multicor, cujo volume marrom, dedicado aos répteis, era seu preferido.
Aprendeu a ler e a escalar a primeira prateleira para chegar à coleção de Monteiro Lobato. Secretamente, para não ceder às chantagens do dono, que, pelos livros, barganhava favores. Por “Reinações de Narizinho” cedera ao irmão, por uma semana, seu radinho de pilha. Ao lado de Lobato, os livros de poesia e romance.
Os seus se enfileiravam sobre a cômoda. Sob a cama, guardava os gibis em caixas de papelão.
Na casa nova, a estante foi armada no quarto dos fundos e presa à parede com parafusos. A mãe a lotou com livros de Direito, ao voltar a ser estudante. A ficção literária se misturou nas prateleiras. Crônicas do Exército e biografia de Sinatra, do pai, ombro a ombro com os livros que, antes, se escondiam na gaveta da cômoda da mãe: “A Semente de Mostarda”, de Rajneesh, e “Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas”.
O primeiro salário lhe inspirou a encomenda de um móvel próprio. Estreito, com espaço para a máquina elétrica em cima. Portas de vidro, parecendo uma cristaleira. Protegidos da poeira, expunham-se Vinícius, Bandeira, Drummond, Pessoa, Clarice, uns livros da faculdade, alguns da infância, duas gramáticas, uma coleção de artes.
Ficou para trás quando se casou. Já havia uma estante enorme ocupando a sala do casal. Híbrida: para livros, louças e eletrônicos. Profunda, deixando os livros discretos. Aberta, empoeirados. Alta, inalcançáveis. Escolheu poucos para ali; só os que se protegessem melhor das intempéries.
Na intimidade dos quartos, deixou se aninharem. No do menino, ficaram ao alcance das mãos pequenas. Tiveram suas histórias reveladas entre chamegos, até que a criança pudesse, por si só, decifrá-los. Encaixá-los na fileira, preservados, era aprendizado de carinho.
No do casal, os antigos ocuparam uma parte do seu guarda-roupa. Com a separação, os novos tomaram, por inteiro, o armário de camisas do ex. Na década em que a vida se desmontou, entre amores desfeitos, doenças, lutos, mudanças no trabalho, os livros se desorganizaram também.
À cabeceira, uma pilha deles lhe recorda a frustrante relação entre a vontade e o tempo. Divide-se entre dois ou três. Maloca outro na bolsa, numa viagem ou sala de espera. Mas os mantém sempre próximos. É certeza de ter companhia.


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo














