
por César Manzolillo

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AQUILO QUE ROMPE O SILÊNCIO
O silêncio na cozinha era uma corda esticada ao máximo, prestes a romper. Roberto olhava para o prato de sopa sobre a mesa como se o caldo frio fosse uma ofensa pessoal, um insulto deliberado à sua dignidade. Virgínia, parada perto da pia, mantinha os olhos fixos nos próprios pés, os dedos apertando o pano de prato. Ela conhecia a anatomia daquela quietude. Dentro do peito do marido, a fúria não nascia como uma explosão súbita, era uma combustão lenta alimentada por qualquer detalhe insignificante.
— Você fez de propósito!
— Roberto, eu cheguei tarde do trabalho, o ônibus quebrou — Virgínia tentou explicar, sabendo antecipadamente que qualquer justificativa seria usada como lenha na fogueira dele.
— Silêncio! — Ele bateu com a palma da mão na mesa de madeira, fazendo os talheres tilintarem. — Você não me respeita. Acha que pode me fazer de palhaço, me servir essa porcaria?
Roberto levantou-se da cadeira, a raiva assumindo o controle dos seus movimentos, as veias do pescoço saltando como cordas tensionadas. Virgínia recuou até as costas baterem contra o armário.
— Por favor, Roberto. Para.
A súplica da mulher funcionou como um gatilho. A mente dele distorceu o medo da esposa em audácia. A primeira bofetada jogou-a no chão. Ele a puxou pelos cabelos, ignorando os gritos que abafavam o som da TV ligada na sala. Virgínia lutou, os dedos arranhando os braços do agressor, buscando o ar que se tornava escasso, os olhos arregalados suplicando pela vida que se esvaía. A resistência da mulher então cessou, e os braços dela caíram pesados no piso de azulejos claros. O corpo relaxou de forma definitiva.
*****
NOTA EXPLICATIVA: O texto de hoje, dedicado à ira, encerra a série de contos que tem como tema os sete pecados capitais. O primeiro dessa lista é “Anatomia do desejo” (luxúria), publicado no dia 30/7. A seguir, vieram “Fome noturna” (6/8, gula), “O ouro virou cinza” (13/8, avareza), “Bem te vi, mal te quis” (20/8, inveja), “Poeira sobre os dias ou o relógio adormecido” (27/8, preguiça) e “Lodo” (3/9, soberba).
CÉSAR MANZOLILLO

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com Márcio Calixto
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A contundência de seu texto é absoluta. Que conto! Fantástico!
Parabéns mesmo pela sequencia de contos inspirados nos 7 Pecados Capitais!!! Demais, César, muito obrigado pela coluna CONTO DE QUINTA, cada vez melhor.