
Com Ana Gosling

Foto: Pôr da Terra – Divulgação NASA
METÁFORA PRONTA
Nasci e o homem já fora à Lua. Neil Armstrong já dissera, ao pisar seu solo: “Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade”. A foto de sua pegada se tornara icônica.
Ir à Lua era notícia velha. Se a Apolo 11 teve uma audiência planetária, as expedições seguintes não contaram com interesse midiático ou político para valorizá-las. Até hoje, 28 astronautas viajaram à Lua, considerando-se os da recente Artemis II. Apenas 12 pisaram no solo lunar: Armstrong e Buzz Aldrin (Apolo 11), Charles Conrad e Alan Bean (Apolo 12), Alan Shepard e Edgard Mitchell (Apolo 14), David Scott e James Irwin (Apolo 15) (usando, pela primeira vez, um veículo de quatro rodas, o “Lunar Rover”), John Young e Charles Duke (Apolo 16) e, por fim, Eugene Cernan e Harrison Schmitt (Apolo 17).
O altíssimo custo de financiamento e o desinteresse midiático anteciparam o encerramento das missões com a Apolo 17 (a previsão era chegar à 20). Estávamos na Guerra Fria, com a corrida espacial atrelada à ostentação do poderio militar entre os EUA e a URSS. Quando um americano fincou bandeira no solo lunar, o recado foi dado: “se chegamos aqui, chegaremos em qualquer lugar”. Com outras demandas de poder sangrando as economias (o armamentismo, inclusive o nuclear, as guerras, a evolução tecnológica etc), política, economia e interesse global convergiam para outras direções.
Mas eis a Lua, de novo, no centro da cena. Querem criar ambiente sustentável por lá, mirando Marte. No foco, também, exploração mineral e disputa de força entre EUA e China, que domina a pesquisa científica na Terra e, desde 2011, opera estações espaciais próprias.
Reid Wiseman, Victor Glover, Cristina Koch e Jeremy Hansen são os tripulantes da Artemis II. Além da excelência técnica para assumirem seus papéis históricos, espalham carinho sobre o planeta. Na turbulência das guerras contemporâneas, dos discursos segregadores, dos algoritmos do ódio, da violência humana, nos enviam beleza: o colorido das imagens, a espiritualidade das falas. Orbitar no universo os faz humildes e nos dizem: somos grão num planeta perfeito, conjunto de povos, crenças, culturas, desenhado por diferenças apenas geográficas. Olham o quadro completo e alargam sua consciência.
A Lua me era Flicts – aprendi no livro de Ziraldo; corroborou Armstrong. E me ensinou, criança, a aceitação e a valorização da diferença. Na tela, hoje, se revela colorida. Retocadas artisticamente pelo fotógrafo ucraniano Ibatullin Ildar, novas imagens a fazem luzir como jóia na escuridão. Seu lado oculto possui formatos e texturas desconhecidos. Ver a Lua de novo é vê-la pela primeira vez. Em cada manhã, me atualizo e me emociono.

Foto: Koch vê a Terra pela janela da Artemis II – Divulgação NASA
Diante do sentimento intraduzível, os astronautas escolhem gentilezas. Batizam uma cratera com o nome da esposa falecida do companheiro Wiseman. Ao desconectar-se, Glover soa retrato da delicadeza humana: “enviamos nosso amor a vocês, da Lua”. Dias antes, mergulhado no milagre da Ciência, ele escolhera falar do espiritual: “…uma das perspectivas pessoais mais importantes é, aqui de cima, conseguir realmente ver a Terra como uma coisa só (…) essa é uma oportunidade para lembrarmos onde estamos, quem somos, que somos a mesma coisa e precisamos atravessar isso juntos…”. Koch trouxe reflexão sobre nossa insignificância individual: “Não só a Terra me impressionou mas a escuridão ao seu redor. A Terra é apenas um bote salva-vidas pairando no universo, sem ser incomodada (…) vocês são uma tripulação”.
Perspectivas raras, compartilhadas apenas por 28 pessoas, durante os bilhões de anos em que a Terra existe. Há muito no que nos dizem. Tanto a entender sobre ser necessário conviver e fazer funcionar a nave dividida, guiando-a na direção de objetivos comuns e maiores do que nós. Não há individualidade nem superioridade que se sustente sem funcionar a coletividade.
Da janela da Artemis II, a Terra compartilha o Sol em cada canto, alternando manhã e noite. Banha a dureza do solo marrom com o azul do mar. Reveza céus limpos e nublados. Possui geografias distintas. Luzes acesas alcançam distâncias siderais. É globo de vidro abrigando uma mesma civilização. Não possui fronteiras, como no atlas escolar. Nem voz reverberando acima de outras. Não se distinguem culturas, raças, nem pobres de ricos. Somos tão ínfimos que, para a imensidão, somos invisíveis, como bactérias.
Vista do Espaço, a Terra é perfeita, dádiva, porto seguro, silêncio e movimento constante. A Lua, a Terra, o Universo são metáforas prontas do que deveríamos intuir profundamente no coração.


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
















Que sutileza de sentimentos, Ana! Obrigado por isso.
Obrigada pela leitura, Jorge!