
Vinil – Selva de Pedra Internacional – 1972 | Fonte: google
Trilhas sonoras de telenovelas… Para ouvir em alto e bom som
Por Jorge Ventura
Era assim. O par romântico entrava em cena, o diálogo aumentava a tensão, a trama se fazia soberana. Até que chegava o momento do beijo na boca como redenção. Era um beijo longo, apaixonado e convincente, gostoso de se ver. O galã era um pão (gíria da época para um homem muito bonito) e a mocinha era um broto (equivalente a uma garota jovem e bela). Aí entrava o tema musical, uma balada de amor para aquecer o clima dos personagens e amolecer o coração dos telespectadores.
Essa era a função das trilhas sonoras: além de pontuar as cenas de romance, de ação e suspense, reforçava a narrativa do personagem, fosse ele protagonista ou antagonista, mocinho ou vilão. Do final dos anos 1960 até meados dos anos 2000, quando as tevês ainda apresentavam um conteúdo aprazível e as telenovelas faziam um sucesso retumbante, despontando elevados índices de audiência, as trilhas sonoras tinham uma significativa importância como uma grande ferramenta de divulgação da teledramaturgia.
Nesse tempo, o vinil era adorado e chamado de LP (abreviatura de Long Play). Havia o LP simples, o LP duplo, com um encarte maior e bem produzido, e havia também o compacto simples e duplo (com duas faixas de cada lado). As capas dos LPs vinham com a imagem de abertura ou com a foto dos protagonistas da telenovela para atrair vendas. Às vezes, o tema musical era impulsionado em razão do sucesso da trama televisiva, como o caso de Ednardo, que já havia gravado sua canção Pavão Misterioso, em 1974, sem êxito. Quando a canção se tornou tema de abertura de Saramandaia, em 1976, a música inspirada no cordel nordestino virou uma febre nacional. Às vezes, o carisma do(a) personagem acaba por dar uma reviravolta na carreira do artista, como o caso de Mistérios da Meia-Noite, de Zé Ramalho, uma canção encomendada pelo produtor Mariozinho Rocha para o professor Astromar, personagem que se transformava em lobisomem em Roque Santeiro (1985), interpretado por Rui Resende. Esta canção salvou o álbum De Gosto, de água e de amigos, do cantor/compositor paraibano, sendo incluída no disco que, até então, não havia emplacado nas rádios populares.
Ednardo – Pavão Misterioso (Ao Vivo, Globo, 1976)
Zé Ramalho – Mistérios da Meia Noite, 1974 (Ao Vivo, Globo)
O assunto tratado aqui requer, no mínimo, mais um artigo, mas tentarei simplificar a importância das trilhas sonoras que ajudaram a contar a história da teledramaturgia brasileira. Muitos artistas brasileiros foram lançados no mercado fonográfico por meio desses discos, produzidos, principalmente, pela Som Livre – gravadora fundada em 1969 por João Araújo, inicialmente, ligada à TV Globo, chegando a ser uma das principais produtoras musicais do Brasil. Entre os nomes que estrearam ou que estavam no início de carreira, tornando-se famosos mais tarde, podemos citar Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Cassiano, Luiz Melodia, Fafá de Belém, Marília Barbosa (também atriz, participou de algumas telenovelas), Hermes Aquino (Nuvem Passageira, novela O Casarão, 1976), Peninha, Djavan, Guilherme Arantes, Guilherme Lamounier, além da banda Azymuth (Linha do Horizonte, novela Cuca Legal, em 1975) e do próprio Coral da Som Livre, que se destacaram nesse período.
Azymuth – Linha do Horizonte, Ao Vivo – Globo de Ouro (Novela Cuca Legal, Globo, 1975)
Hermes Aquino – Nuvem Passageira, Ao Vivo (Novela O Casarão, Globo, 1976)
Mas outros artistas já consagrados pela crítica e público assinaram muitos álbuns de trilhas sonoras e/ou apenas participaram das coletâneas fonográficas. Biafra (às vezes, grafado Byafra), talvez seja o cantor que mais emplacou sucessos em telenovelas, como Helena, em Marron Glacê (1979); Vinho Antigo, em Jogo da Vida (1981); Aguardente, em Voltei Pra Você (1983); Seu Nome, em A Gata Comeu (1985); Machuca e Faz Feliz, em Barriga de Aluguel (1990); Te Amo, em Salomé (1991); Fantasia Real, em Mulheres de Areia (1993), e Antes Que Eu Te Esqueça, em Quem É Você? (1996).
Biafra – Helena, Ao Vivo (Novela Marrom Glacê, Globo, 1979)
Biafra – Seu Nome, Ao Vivo (A Gata Comeu, Globo, 1985)
As duplas Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, Antônio Carlos e Jocáfi, Toquinho e Vinicius, Sá e Guarabyra, marcaram presença em muitos trabalhos para as telenovelas. Tim Maia, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Dorival Caymmi, Moraes Moreira, Elba Ramalho também gravaram, entre tantos outros. Alguns tiveram canções como temas de abertura, como Jair Rodrigues (em Irmãos Coragem, 1970), Milton Nascimento (no remake de Irmãos Coragem,1995) Paulinho da Viola (em Pecado Capital, 1975), Elis Regina (em O casarão, 1976), João Bosco (em O Astro, em 1977), Rita Lee (em Final Feliz, 1983), Baby Consuelo (em Água Viva, 1980), Fagner (em Coração Alado, 1980), Celly Campello (em Estúpido Cupido, 1973, cuja canção homônima foi gravada, originariamente, em 1959) e Marina (em Roda de Fogo, em 1986). Muitos conjuntos e bandas também contribuíram para álbuns de trilhas sonoras, como As Frenéticas (em Dancin´Days, 1978), The Fevers (em Elas por Elas, em 1982; Guerra dos Sexos, em 1983; e Ti-Ti-Ti, em 1985); Roupa Nova (Roque Santeiro, em 1985), Ira! (A Próxima Vítima, 1987), Titãs (em Desejos de Mulher, em 2002; Celebridade, em 2003; e Verão 90, em 2019); e Legião Urbana, em O Rei do Gado, em 1996; Mulheres Apaixonadas, em 2003; e Velho Chico, em 2016 – como exemplos.
Gal Costa – Só Louco (O Casarão, Globo, 1976)
Celly Campello – Estúpido Cupido (1976)
As Frenéticas – Dancing Days (1978)
Mas espere, leitor(a), eu, até agora, só comentei a respeito de artistas brasileiros. Havia, nessa época, o LP Internacional das telenovelas, que fazia mais sucesso ainda! Era uma verdadeira loucura! Quando acompanhávamos uma telenovela e torcíamos para o par romântico, ficávamos ansiosos para comprar um álbum que reunia o melhor da Pop Music – Michael Jackson (ainda adolescente), The Jackson Five, Elton John, B.J. Thomas, Françoise Hardy, Barbra Streisand, Rod Stewart, Donna Summer, Carpenters, Barry White, The Doobie Brothers, KC and The Sunshine Band, Boney M., Bee Gees e uma vasta gama de astros estrangeiros.
KC & The Sunshine Band – That´s the Way (I Like it), novela Boogie Oogie de 2014
Bee Gees – For Whom the Bell tolls, novela Sonho Meu, de 1993
Portanto, o bom colecionador de plantão ficava à espera dos dois lançamentos nas lojas de discos: o LP Nacional e o LP Internacional. Quem gostava de assistir às telenovelas, havia de comprar os dois álbuns. Por certo, esses diversos temas românticos se tornaram inesquecíveis e embalaram gerações. Era comum uma namorada ganhar do namorado um disco referente à trilha sonora de sua telenovela preferida. Quem não se lembra de Rock and Roll Lullaby, canção de B.J. Thomas, tema dos personagens Simone Marques e Cristiano Vilhena, em Selva de Pedra? – Nota: o curioso é que a tradução dessa letra não faz alusão a um relacionamento de um casal, mas de um amor materno, e nós a cantávamos assim mesmo, achando que fosse uma declaração de amor de um homem a uma mulher.
B.J. Thomas – Rock and Roll Lullaby, ao Vivo (Novela Selva de Pedra, Globo, 1972)
O mesmo ocorreu com a música Ben, cantada por Michael Jackson, aos 14 anos de idade, que fez parte da trilha sonora da telenovela Uma Rosa com Amor, de 1973. Quando a cantávamos apaixonados, não podíamos imaginar que a letra em inglês abordava a relação de carinho, amizade e lealdade entre um menino solitário e um ratinho de estimação chamado “Ben”.
Michael Jackson – Ben (Novela Uma Rosa com Amor, de 1973)
Outro marco foi Teletema, canção para os personagens Andréa e Marcelo Montserrat, em Véu de Noiva, de 1969, consagrada na voz de Regininha, com composição de Antonio Adolfo e letra de Tibério Gaspar. Em Fogo sobre Terra, 1974, a canção instrumental francesa La Chanson pour Anna (de André Popp) – que chegou a receber outra orquestração por Paul Mauriat, tornando-se Song for Anna – aqui foi tocada como instrumental para o par romântico dos protagonistas Bárbara e Pedro Azulão, e depois ganhou letra em uma versão brasileira, Canção para Ana (grafado com apenas um ene), cantada por Moacyr Franco. Esta canção também foi conhecida, no Brasil, como Tema de Bárbara, personagem interpretada por Regina Duarte.
Regininha – Teletema (Novela Véu de Noiva, de 1969)
Free Sound Orchestra – La Chanson Pour Anna (1974)
E falando de música instrumental, muitos temas de abertura de telenovelas conquistaram as paradas de sucesso devido à qualidade da orquestração, dos arranjos e da potente afinação do coral. Versões como a de O Bem-Amado (1973), de Selva de Pedra (Som Livre, 1972), de Mulheres de Areia (grupo Phonoband,1973, em First Love e Last Love) e a de Pantanal (de Marcus Viana), exibida em 1990, pela extinta TV Manchete. Em algumas telenovelas, os temas apresentavam duas versões: a cantada e a instrumental.
Se eu tivesse de escolher as trilhas sonoras que mais me marcaram a infância e adolescência, eu diria que foram os LPs Internacionais das telenovelas Selva de Pedra, Carinhoso e O Astro; e os LPs Nacionais O Bem-Amado, Gabriela, Saramandaia, Escrava Isaura, À sombra dos Laranjais, O Astro, Duas Vidas, Pecado Capital e Dancin´Days. A maioria dessas trilhas passaram pelas mãos de um grande mestre brasileiro, respeitado no exterior e pouco valorizado no seu próprio país: Waltel Branco. Para quem não sabe, Waltel foi o maestro responsável por quase todos os arranjos de temas de abertura e músicas incidentais das telenovelas brasileiras, principalmente as produzidas pela TV Globo.
Algumas capas de trilhas sonoras de novelas famosas:
São dele várias composições e regências de canções de sucesso, como a icônica Retirantes (lerê-lerê), tema de abertura de Escrava Isaura, em 1976, em que criou arranjos magistrais e contou com a orquestra e o coro da Som Livre/SIGLA na interpretação do lamento dos escravizados. A música, depois, ganhou letra e ficou marcada na voz possante de Dorival Caymmi. Waltel fez carreira no exterior, atuou com celebridades do jazz renomadas, como Nat King Cole, e ainda colaborou para trilhas de cinemas, ao lado de Henry Mancini e orquestra. Segundo dizem, foi coautor da composição da trilha da Pantera cor-de-rosa.
Dorival Caymmi – Retirantes (Tema de Escrava Isaura, 1976)
Nossa, que saudade eu tenho da minha vitrola! Como era legal chegar à casa dos tempos adolescência e poder ouvir um LP de uma telenovela e curtir aquele som pensando na amada…

Ah, tempos bons! Quem se lembra?
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SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
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SOBRE O AC RETRÔ
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Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨
























