
Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann
Uma crônica (que eu não escrevi) ao seu aniversário, Flávio
Tenho um irmão chamado Flávio. O rebento, final de linha de produção. Tenho em minhas memórias a gravidez de minha mãe e sua chegada lá em casa, um apartamento em um prédio de esquina, na Ilha do Governador. Essa crônica vai em homenagem a seu aniversário. Digo-a que não a escrevi, pois dessa vez, desafeito do caderninho em mãos, eu a digito.
Esse processo de digitar me parecia mais distante. Desde que escrevi meu primeiro romance, o ato de digitar tem sido primordialmente o de conduzir ao computador todo e qualquer material que eu tenha previamente escrito. Agora que tenho apenas o teclado a minha frente, ao mesmo tempo em que aplico uma prova em uma escola, olhando aos alunos e não à tela, penso em você, meu irmão mais novo.
Sei por quais agruras passa em sua vida. Tomar a decisão de se mudar, nesse período do ano, traz consequências psicológicas e físicas que nos levam à exaustão. Deixo isso registrado, para que possamos mais cedo ou mais tarde recuperar essa memória, do ano de 2026, em que não comemoramos o seu aniversário. Queria de novo poder colocar as crianças unidas, como elas gostam de ficar, nossos filhos, nossos produtos, nossa continuidade, nosso ponto máximo de felicidade, unidos, brincando, como se não houvesse amanhã. E realmente não há. Não há amanhã quando elas brincam. Esse hoje que se faz do hoje de estarem aqui sempre será o ponto primordial de homens como nós, que nos fazemos pais, trabalhadores, máquinas que pensam e vivem a paternidade em sua constância e esplendor. Sei que concorda com isso, o esplendor de ver Giovanna, Arthur e Théo juntos, explodindo uma felicidade pela simplicidade de estarem ali, prontos, vivinhos, rindo, esgoelando dentes e gargantas, tripudiando de uma pizza depois de voltarem da praia, esse é o nosso feliz.
Imagino o quanto esteja cansado. Passar a sexta, o sábado e o domingo de seu aniversário carregando e descarregando caixas de um mundo que se permite seu, em cada fresta de caixa, em cada fresta de porta, em cada chave que usa, ao dirigir seu carro, com bancos descidos, para que se possam caber mais caixas. Lembro de quando era criança, ainda com esse mesmo rosto em que se persiste adulto, mas que para mim me remete a esse passado onde nós éramos as crianças, e agora, eu que tenho rugas e canseiras, você que permeia essa barba que dissona desse passado e o reconduz a um mundo de paternidade e caixas, todas elas, transferidas para esse novo compartimento a ser chamado mais uma vez de lar. Como nos mudam as mudanças. Como nos mundam as mundanças. É o mundo, nosso mundo, Raimundo, e aqui não está somente uma rima, mas uma solução. Devoro palavras pensando em você, em vocês, em sua semelhança com vô, com tio Reinaldo, com essa masculinidade de silêncios vocabulares e ações persistentes, olhos que se arregalam a soluções iniciáticas e outras a desbravar fronteiras da suposição de um futuro atroz. Sei o quanto está cansado. Sei o quanto merece essa canseira vilã do sono mas coerente com as vitórias. A vitória, tão sua, tão persistentemente sua, é só sua.
Meus parabéns. Peço perdão por não publicar essa crônica no dia de seu aniversário. Era possível. Mas eu ainda não tinha tido a oportunidade de escrevê-la. E não a escrevi, eu a digitei. E ela me veio como um sopro persistente nesses meus pares de ouvidos calejados e intromissos, a ouvir um mundo inteiro e enfermo, porém capaz de sorrir quando perceber o som síbilo do sorriso mais pueril, charmoso e constante.
Feliz Aniversário, Flávio Henrique.

Eu e ele, na praia

Nossos três unidos, em trama com o caos
(Théo ri pelo resultado dantesco que advém)

Caos em estado de graça!
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

Coluna de Márcio Calixto


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo















Muito leve, agradável, alegre leitura, me colocou dentro da vida , por uns momentos, do Flávio, o irmão da mudança , arrumando seus pertences em caixas, as transportando, senti o peso dessa realidade, o suor, o encontro das crianças não acontecido, bem como o aniversário. Mas tudo bem aplicado e entendido e homenageado. Me senti na festa!