SEOLLAL e CHUNJIE: comemorações do ANO NOVO agitaram os bairros do Bom Retiro e da Liberdade em São Paulo

SEOLLAL e CHUNJIE

 

Lá vou eu pra uma nova aventura pela Paulicéia Desvairada… E, sim, vamos falar novamente da cultura coreana. Afinal, ela tem alcançado cada vez mais relevância por aqui, no Brasil,  não sendo este um caso isolado, mas sim parte de um fenômeno global conhecido como Hallyu, que significa “onda coreana” — termo usado para descrever o sucesso mundial da indústria cultural da Coreia do Sul —  impulsionado pelo sucesso do K-pop, K-dramas (doramas), filmes, beleza (K-beauty), moda e gastronomia.

Já contei um pouco sobre a FEIRA DO BOM RETIRO (@feiradobomretiro) em dois artigos aqui pro ARTECULT (Uma pequena (grande) – e deliciosa – aventura gastronômica pela Pauliceia Desvairadae  VIAGENS E SABOR: descobrindo novos encantos em mais um “rolê” gastronômico por SAMPA) e visitei um restaurante coreano aqui no Rio de Janeiro, o HANGUK HOUSE. E, por conta da minha filha, que adora assistir aos doramas e curte muito tudo o que é ligado a esse universo, passei a me interessar também, especificamente naquilo que mais me interessa, a gastronomia coreana.

Já fiz diversos pratos típicos, alguns deles emblemáticos – tô quase virando um especialista! – e acho muito interessante a construção dos sabores que os coreanos conseguem com ingredientes tão desconhecidos pra gente, como o Gochugaru (pimenta em pó) e o Gochujang (pasta fermentada). Aliás, é justamente nisso que reside a beleza dessa incrível manifestação cultural, na medida em que torna apaixonante o exercício de reconhecer todas as nuances existentes e a história por trás da criação de cada iguaria típica, seja de um país, de uma região, de uma comunidade específica.

E aí, ao saber pelas redes sociais de que, no final de semana dos dias 31/01 e 01/02  haveria a quarta edição de uma festa em São Paulo para comemorar o SEOLLAL, o ano novo lunar coreano, decidi que não ficaria de fora e aproveitaria a ocasião para transformar o evento em tema do meu artigo.

Mas, afinal, o que é o SEOLLAL?

Trata-se de uma das festividades mais importantes e cheia de simbolismo da Coreia, cuja tradição  tem mais de mil anos – começou ainda na época dos três reinos da Coreia, por volta do século IV – e é geralmente comemorado entre o final de janeiro e meados de fevereiro. Nesse período,  promovem-se reuniões familiares e rituais ancestrais, com consumo de pratos típicos, específicos para essa celebração,  como o Tteokguk (sopa de bolinho de arroz). Outros itens como frango (união familiar), frutas cítricas (boa sorte) e Tangyuan (bolinhos de arroz doce) também são comuns nas celebrações. E ainda vale citar outros pratos típicos do Seollal, que foram transmitidos ao longo da história, como o Mandu (bolinhos coreanos feitos com massa à base de farinha e recheados com uma mistura de carne, tofu e vegetais), Bulgogi (prato em que fatias finas de carne marinada são grelhada), Jeon (panquecas fatiadas e fritas), Galbi-jjim (prato de costela bovina cozida lentamente), Yaksik (sobremesa doce feita com arroz glutinoso cozido no vapor), Yakgwa (sobremesa tradicional frita, feita com mel e óleo de gergelim), Sujeonggwa (bebida doce feita com canela, gengibre, açúcar e água em fogo baixo) e Sikhye (bebida tradicional feita com cevada maltada e arroz).

O Ano Novo Lunar Coreano é, realmente, um momento especial, de honrar os ancestrais, fortalecer laços familiares e começar um novo ciclo com boas energias. E é, certamente, para nós, brasileiros, de cultura tão diversa, uma oportunidade mais do que única para vivenciar a cultura e a gastronomia de um povo tão apegado à tradição.

Chegamos no local do evento ainda antes mesmo do início. Já sabia que, com o passar das horas, tudo ficaria muito cheio. Então, tratei de marcar território, escolhendo um lugar estratégico e, dali, sairia, vez ou outra, à caça das iguarias. Eram diversas barracas espalhadas ao longo da praça, cada uma oferecendo seus produtos típicos aos visitantes do evento. Além disso, havia uma área com palco, reservado para apresentações diversas, todas elas ligadas à cultura coreana.

Começamos com o famoso hot dog coreano, que não pode faltar, né? E também Mandu (bolinhos recheados coreanos, semelhantes a guiozas, feitos com uma massa fina e recheios variados de carne e vegetais, podendo ser fritos, cozidos no vapor ou em sopa), Topokki (prato coreano feito com pequenos bolinhos de arroz chamados tteokmyeon ou, mais comumente, tteokbokki-tteok) e Kimbap (prato coreano feito de arroz cozido, legumes, peixe e carne enrolados em gim – folhas secas de algas marinhas – e servido em fatias pequenas). Menção honrosa pra um delicioso espetinho de carne, que estava maravilhosamente temperado…

Mas não parou por aí – afinal, adoro comer e experimentar de tudo! Ainda teve Bibimbap (literalmente, significa “arroz mesclado” ou “comida mesclada” e consiste basicamente em arroz branco, vegetais e carne misturados), batata em espiral, Tanghulu (doce tradicional do Norte da China que consiste em frutas espetadas em palitos de bambu e mergulhadas em calda de açúcar, criando uma cobertura crocante após esfriar) e um frozen com saquê.

Mas nessa viagem ainda tivemos uma surpresa a mais: no mesmo final de semana em que era comemorado o ANO NOVO COREANO (SEOLLAL) lá no Bom Retiro, comemorava-se o ANO NOVO CHINÊS (CHUNJIE) no bairro da Liberdade e que, em sua 21ª edição, celebra o ano do cavalo de fogo, sétimo signo do horóscopo chinês.

E aí, é lógico, me dividi um pouquinho e procurei saber mais sobre o evento, principalmente para entender eventuais semelhanças ou diferenças.

Ambos baseiam-se no calendário lunissolar e ocorrem na mesma data, geralmente em janeiro/fevereiro, celebrando a união familiar e a boa sorte. As festas possuem durações diferentes: enquanto o ano novo chinês, ou Festival da Primavera, dura cerca de 15 dias, terminando com o Festival das Lanternas, o ano novo coreano é celebrado tipicamente durante três dias – o dia anterior, o dia do ano novo e o dia posterior.

Vale ressaltar que a comemoração, na China, gera a maior migração humana anual, já que quase três bilhões de pessoas, todos os anos, percorrem o país, retornando para suas cidades natais nessa época. Na ceia das famílias chinesas, a tradição é preparar alimentos simbólicos e carregados de significado em seu nome, por serem terem uma sonoridade que remete a coisas boas. Os pratos mais tradicionais do Ano Novo Lunar Chinês são os dumplings (guioza), peixe inteiro, niangao (bolo de arroz) e macarrão da longevidade. Eles simbolizam riqueza, abundância, prosperidade e vida longa, sendo essenciais para a ceia de reunião familiar.

Aproveitando que estávamos na liberdade, também comemos um Karaage (técnica culinária japonesa clássica, popularmente aplicada ao frango, resultando em pedaços suculentos por dentro e super crocantes por fora. A sobrecoxa é marinada em shoyu, saquê, alho e gengibre, depois envolta em fécula de batata ou amido de milho e frita em imersão) e um Tonkotsu lamen (o caldo é baseado em ossos de porco, que é o que a palavra tonkotsu significa em japonês). Não preciso dizer que ainda tive tempo de me abastecer de guloseimas orientais, visitando todos os empórios e mercados existentes na área…

E, retornando ao meu lar, para que a experiência fosse completa, resolvi fazer o 떡국 Tteokguk, a sopa de bolo de arroz fatiado, que é um prato tradicional coreano consumido durante a celebração do Ano Novo Coreano e consiste em caldo/sopa com bolos de arroz fatiados finamente (tteok). Geralmente é guarnecido com ovos cozidos cortados em juliana fina, carne marinada, gim ( 김 ) e óleo de gergelim ( 참기름 ).

Resolvi filmar a preparação e embora eu seja um verdadeiro desastre diante das câmeras – ainda mais sem microfone – e o acréscimo de alguns toques pessoais – como pimenta, por exemplo – acho que dá pra ter uma noção de como é preparada essa sopa que, segundo a tradição, faz com que a pessoa, ao comê-la, ganhe simbolicamente um ano a mais de vida e sabedoria…

Aproveitando que estou  na vibe, fiquei sabendo através das redes sociais que vai rolar dois dias incríveis  – 18 e 19 de abril – de imersão na gastronomia coreana lá na NAGOYA SUSHI SCHOOL (@nagoyasushischool) com a sensacional chef HELENA JANG (@chefhelena). Eu já fiz um artigo sobre a escola aqui para o ARTECULT e, por conta disso, me animei muito e corri pra me inscrever, pois acho que será uma experiência maravilhosa e extremamente válida. Tô ansioso pra aprender mais sobre esse mundo… Depois, certamente, vou trazer tudo o que aconteceu lá aqui pra vocês, combinado?

 

Então, aguardem. Vejo todo mundo em breve…

DEL SCHIMMELPFENG

@del.schimmelpfeng

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Author

Del Schimmelpfeng é Analista Judiciário do TJERJ, mas desde que se lembra - e coloca tempo nisso! - ama cozinhar! Apesar de ter feito as faculdades de arquitetura e direito, é se misturando aos pratos, panelas e temperos que se sente inteiro, completo, pleno. É autodidata, nunca fez curso de culinária, tampouco se imaginou um profissional da área. Considera-se apenas um curioso, que procura o conhecimento em tudo e que tenta, de todo jeito, viver da melhor forma possível - apesar de todas as dificuldades. Afinal, não haveria graça se elas não existissem... Participou da seletiva da segunda edição do Masterchef e da décima nona edição do reality "Jogo de Panelas", apresentado por Ana Maria Braga no programa "Mais Você" da Rede Globo, na qual sagrou-se campeão. Possui, ainda, textos publicados em livros de conto e poesia. Blog: http://delschimmelpfeng.blogspot.com Instagram: @del.schimmelpfeng

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