Sem espaço para Anticlímax

Espetáculo Lorca & Flamenco é uma declaração de delicadeza e bom gosto em tempos de pasteurização de sensibilidade.

Estive no último domingo, dia 20 de janeiro, no espetáculo que mistura a poesia de Frederico Garcia Lorca com a dança flamenca. Há tempos buscava alguma apresentação do gênero, dotada de extrema delicadeza e sinergia. No entanto, eu não estava preparado para algo tão sublime e belo, capaz de prender até meu filho – uma criança de quase 2 anos – a não desgrudar os olhos e tentar reproduzir os passos de bailarinos tão catárticos e exímios. Ainda tomado pelo sentimento, escrevo com o coração pulsando cada passo bem firme naquele palco que se engrandeceu com a presença daquela trupe. Merecem todos os aplausos e reconhecimento.

Inicio essa crítica parafraseando minha esposa, que logo se lembrou das danças de outros bailarinos fora do Brasil. Em especial, quando estivemos na Argentina, e tivemos a chance de assistir a espetáculos de tango fora do mainstream turístico, “Márcio, olha que dançarinos fantásticos, são até melhores do que aqueles que vimos no Homero Manzi”. Realmente. Profissionais que fazem o espetáculo sublime e catártico, dá vontade de dali sair e seguir a uma escola de dança.

Em um primeiro momento, o espectador é envolto em um espaço bem simples. Não há muitos rodeios ou quaisquer outros elementos que roubem o olhar de quem assiste. Jogos de luzes davam um tom a mais na percepção entre o triste e o feliz, alternando azul e vermelho. Tudo com muita leveza e docilidade. Esta, porém, não era a tônica dos integrantes. Passos firmes e feições fortes se somavam à delicadeza da voz que entoava os poemas. Os músicos transbordavam alma. Inclusive em dois momentos específicos, quando o inusitado e humano parece conclamar para a singularidade: em um momento em que o leque de uma das dançarinas resolveu deixá-la e ela, sem perda de postura e sem transparecer algum tipo de nervosismo, conduziu a dança e depois o pegou, sem prejuízos quaisquer; outro, quando o fio do violão resolveu atrapalhar o show. Diego Zarcón, dono de uma voz poderosa, virou seu microfone para o instrumento que sumira e levantou-se, cantando, ampliando a força de sua voz. Um espetáculo à parte.

Quando resolvida a peleja com o fio, o público, totalmente a par do espetáculo e livre para comemorar aquela grandiosidade, foi presenteado pelos passos de bailarinos extremos, que conclamavam a dança, entregavam também a sua voz e neste dado momento não mais sabia se aquilo tudo era parte da obra ou realmente uma catarse em esplendor de existência. Não importa. Estava certo de que eu estava no melhor dia deles, eu espero. Mesmo com todos os problemas, tudo foi sublime. Nada quebrou o sentimento.

Frederico Garcia Lorca teve seu nome respeitado, elevado e sublimado por aquele público que já tanto o amava.

Deixarei aqui pelo menos um poema desse poeta assassinado, fuzilado por ser homossexual. Em tempos de crise humanitária, espetáculos como esse são essenciais.

Meu sincero agradecimento aos grupos (En) Clave Cia de Dança, Cia de Arte Flamenca e Grupo Soniquete.

Paisagem com duas tumbas e um cão assírio 

Amigo,
levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio
As três ninfas do câncer estiveram dançando,
meu filho.
Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
e uns lençóis duros onde o câncer estava dormindo.
O cavalo tinha um olho no pescoço
e a lua estava num céu tão frio
que teve de rasgar seu monte de Vênus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos. 

Amigo,
desperta, que os montes ainda não respiram
e as ervas de meu coração encontram-se em outro lugar.
Não importa que estejas cheio de água do mar.
Eu amei por muito tempo um garoto
que tinha uma plúmula na língua
e vivemos cem anos dentro de uma navalha.
Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua roxa que deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vêm até a rocha. Não alargues tuas raízes!
Aproxima-se. Geme. Não soluces em sonho, amigo. 

Amigo!
Levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio. 

 

MÁRCIO CALIXTO

 

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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