Literatura: Seis escritores negros de relevância literária e social

 

 

O Brasil é o país da miscigenação. Aqui, a mistura entre raças e culturas é tão natural que, para mim, qualquer recorte deveria parecer artificial, já que vivemos “juntos e misturados”.

Mas, utopia à parte, sabemos que, na prática, esses recortes existem. Se não por preconceitos institucionalizados, por questões econômicas e históricas que ainda negam a determinados segmentos sociais oportunidades de assumirem protagonismo social.

Este artigo pretende evidenciar o talento de alguns grandes escritores negros, entre os mais famosos da literatura brasileira (*), cuja obra também tiveram relevância social. 

MACHADO DE ASSIS – Machado dispensa apresentações. É considerado, por muitos, o maior nome da literatura brasileira em prosa. Escreveu para jornais, além de peças de teatro, romances, contos, crônicas e poesia. Foi o fundador da Academia Brasileira de Letras. Seus textos são críticos à sociedade em geral, de uma ironia fina, e permanecem extremamente atuais. Uma outra característica marcante na sua escrita é o diálogo estabelecido com o leitor. Entre as maiores obras de Machado estão “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e o conto “O Alienista”. Seu talento como poeta é menos reverenciado, diante do grande prosador que foi. Destaco os sonetos “À Carolina” e “Soneto de Natal”, que eternizou, com profundidade, o verso final (“Mudaria o Natal ou mudei eu?”).

Um dado curioso a respeito de sua imagem: recentemente, a imagem do escritor foi recuperada mais próxima do seu original, com os traços da raça negra preservados. Durante anos, percebeu-se, a imagem de Machado havia sido “embranquecida”. O escritor (neto de escravos alforriados, filho de pai afrodescente e mãe portuguesa) nunca foi um militante mas era abolicionista e se opunha à escravidão. Alguns historiadores dizem que a questão racial, na época, teria sido conflitante para o próprio escritor, mais ligado à raiz européia do que à africana. No entanto, através de contos como “O Caso da Vara” e “Pai contra mãe”, percebe-se o contrário: sua crítica social denunciava firmemente as relações inter-raciais da sociedade.

CRUZ E SOUZA – Poeta do Simbolismo, chamado de “Cisne negro”. Colaborou com jornais, publicou livros, mas vítima do enorme preconceito da época, só conseguiu trabalho como arquivista, após ter sido proibido de assumir um cargo de promotor público por questões raciais. Era filho de escravos alforriados e foi protegido pelos ex-senhores de seus pais, tendo recebido boa educação escolar. Foi ativista contra o preconceito racial e a escravidão, promovendo, inclusive, conferências abolicionistas. São características marcantes de sua poesia a musicalidade, o mistério, a espiritualidade, a angústia do homem e a sensualidade. Alguns de seus livros: “Missal”, “Broquéis”, marcos do Simbolismo no Brasil, entre outros, e “Evocações”, uma de suas publicações póstumas.

LUÍS GAMA – Jornalista, escritor, grande orador que atuava em defesa da emancipação dos negros. Nasceu livre (filho de uma mulher negra livre e, supostamente, um fidalgo da raça branca) mas foi vendido como escravo. Por isso, antes de destacar-se no mundo das Letras, tinha sido analfabeto até os 17 anos. Exerceu diversas profissões. Ficou conhecido como o “Apóstolo negro da abolição”, de tão constante que foi sua militância pela causa abolicionista. Escreveu “Primeiras Trovas Burlescas” apenas 12 anos após ter sido alfabetizado, consolidando seu lugar de destaque na literatura brasileira. Sua poesia reverencia sua raça, satiriza a branca, denuncia injustiças sociais e faz referência a mitos pagãos da literatura grega ou romana.

Uma curiosidade: foi reconhecido como advogado pela OAB somente no século 21. O título lhe fora negado no século 19 por questões raciais. Conta-se que Luís Gama teria libertado mais de 500 escravos na época em que viveu, sendo famosa sua frase num tribunal: “o escravo que mata o senhor, seja em que circustância for, mata sempre em legítima defesa”.

LIMA BARRETO – Jornalista e escritor de romances, contos e sátiras. Seu estilo literário foi inovador para a época porque escrevia de forma coloquial. Trabalhou como escrevente para sustentar-se, além das colaborações para jornais. Era simpático ao anarquismo e sua escrita literária abordava as desigualdades sociais e a hipocrisia social. Sua obra mais famosa é “Triste fim de Policarpo Quaresma”. Grande parte de sua obra foi publicada após sua morte.

CAROLINA DE JESUS – Uma das primeiras escritoras negras brasileiras, considerada uma das mais importantes do país. Escritora de prosa e poesia e, também, compositora. Seu primeiro livro, “Quarto de despejo”, foi traduzido para 14 línguas e é um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior. De origem pobre, não terminou seus estudos mas apaixonou-se pelo hábito da leitura. Foi favelada, sustentando-se como catadora de papel e realizando trabalhos domésticos. Diz-se que anotava a rotina da comunidade em que vivia em cadernos encontrados no trabalho de catadora e que, assim, nasceu o primeiro e mais famoso livro. Muito de sua obra literária foi publicado após sua morte. Seu traço literário é o registro do testemunho e das reflexões sobre a realidade e as experiências vividas.

JOEL RUFINO DOS SANTOS – Escritor e historiador, referência em cultura afro-brasileira, vencedor de vários prêmios Jabuti. Foi exilado político na época da ditadura brasileira. Escreveu romances, literatura infantil, ensaios e livros de não-ficção. Joel foi professor universitário e colaborador de minisséries de TV, como historiador. Alguns de seus livros premiados: “Uma estranha aventura em Talalai” e “O barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta”.

Uma curiosidade: em seu livro “Claros Sussuros de Celestes Ventos” cria uma história em que Lima Barreto e Cruz de Souza se encontram algumas vezes. Suas histórias narrativas ficcionais, por vezes, se misturam a fatos históricos relevantes.

(*) A Revista Prosa Verso e Arte publicou uma reportagem em que aponta outros escritores negros brasileiros. Na listagem da revista, há escritores contemporâneos não citados nesta matéria. Por acharmos interessante conhecê-los e valorizá-los, compartilhamos aqui o link da reportagem: https://www.revistaprosaversoearte.com/15-escritoras-e-escritores-negros-que-deveriam-ser-estudados-nas-escolas/?fbclid=IwAR1IDKDlbOdAwjfJJSdFQM21nbaWoeB6lQ91EG7ooa2Fqoc8SxTvlVhmrF4

 

ANA GOSLING

 

 

 

 

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Ana Lúcia se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo esgarçado pra sempre. Continua experimentando cursos em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 400 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não estão só nos livros mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Links: Contos, poemas, crônicas: anagosling.com Artigos, crônicas: http://obviousmag.org/puro_achismo Redes Sociais: Twitter: https://twitter.com/gosling_ana Facebook: https://www.facebook.com/analucia.gosling

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