Rogéria se foi?

Sei que grandes ícones com o tempo se vão fisicamente. Jerry Lewis faleceu em Agosto último e conheço várias pessoas que estão rememorando sua obra. Enorme, icônica, fabulosa. No entanto, quando se vão, eles deixam uma lacuna, que alguns ingenuamente supõem que um dia será preenchida por alguém tão talentoso quanto. Obviamente surgem novos nomes, mas nunca capazes de substituir aquele que se foi. Os talentos são naturalmente ímpares.

Paulo Silvino está aí para exemplificar. Muitos surgiram depois dele. Como ele? Impossível. E agora temos a morte de Rogéria. Sim, é ela quem se vai. Astolfo Barroso Pinto, seu nome original, deu vida, corpo, essência a esse ícone, a esse exemplo de transgressão e arte. Isso é algo que mexe comigo profundamente.

Rogéria é para mim um dos símbolos do que a arte tem de ser: capaz de desnudar a alma e expô-la até o limite de seu íntimo. A arte que me move tem essa capacidade de cavar. E Rogéria cavou fundo a ponto de ser a nossa Marilyn Monroe.

Cresci ouvindo que ela era um homem. Ai havia um corpo de homem, o rosto de um homem. Mas a voz, o jeito, o imperativo de sua existência não era masculina.

Ela era arte.

Alguns até podem defini-la como o maior ícone travesti do Brasil. Rogéria está acima disso. Ela é a pura essência do que a arte tem de ser e assim consegue. Atores, atrizes, escribas, músicos têm muito a conquistar tendo ela como exemplo.

É neste ponto que reside a minha questão. Artistas como Rogéria não se findam com a data limite de seus corpos. Elvis, Miles Davis, Clarice Lispector, Carlos Drummond, André Breton, Pablo Picasso, Chico Anysio, Paulo Silvino, Henriqueta Brieba, Gianfrancesco Guarnieri e tantos outros deixam um legado imaterial, insuperável. São pessoas que não morrem. Estão bem além dessa questão limítrofe. Eles nos mostram como a chama do que é humano está em questões bem mais belas e soberbas.

Saber que não a verei mais atuando me deixa profundamente triste. Claro, em época de tudo catalogável, posso recorrer a algum site com filmes dela, sua obra física e existente. Incomoda-me, porém, não a vê-la mais criando, usando toda a sua soberania. Ela se vai, deixando-nos um legado que não pode ser esquecido. Astolfo nos entrega o melhor de sua alma. Que saibamos respeitá-la e difundi-la com a devida coerência e entrega que Rogéria nos mostrou ser capaz de fazer.

Vá com Deus. Mas peço, Rogéria, que, de onde estiver, mova sua energia para que consigamos ser tão fabulosos quanto você.

Meu muito obrigado.

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Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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