A melhor diversão para a melhor idade

Não sou eu que estou dizendo, é o IBGE: a população brasileira está envelhecendo. São mais de 23,5 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. E, longe de ser uma má notícia, esse dado é sinal da melhoria nas condições de vida, que fazem as pessoas viverem mais.

O problema é que o país ainda não está totalmente preparado para atender a uma população mais velha. No entanto, já podemos testemunhar algumas ações que levam em conta essa enorme parcela da população que precisa e merece mais atenção.

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Para Tailor Gonçalves, é preciso ocupar mais os espaços da cidade com cultura e lazer.

É o caso do projeto Sessão Sênior de Cinema, uma parceria do Floripa Shopping com a Marte Inovação Cultural, de Florianópolis, em Santa Catarina. “A ideia é preencher essa lacuna cultural que detectamos. É preciso criar mais ações, tanto públicas quanto privadas, dirigidas a esse público”, defende o publicitário e produtor cultural Tailor Gonçalves Morais, fundador e diretor-executivo da Marte.

Apoiado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Florianópolis, o projeto oferece duas sessões gratuitas mensais aos idosos, com direito até mesmo a transporte, no caso de pessoas que morem em casas de cuidados.

Como é recente – estreou em março deste ano -, o projeto ainda não lotou as salas de cinema do Floripa Shopping. Mas essa história tende a mudar: “Estamos desenvolvendo ações em conjunto com mais de 100 grupos de idosos na cidade e, a cada sessão, o público vem crescendo ”. O objetivo é alcançar pelo menos 3.500 pessoas até o final do ano.

Dois dos beneficiados pelo projeto são o casal Beatriz e Almir Odilon, de 64 e 67 anos. Eles costumam ir ao cinema, mas a sessão gratuita é um estímulo a mais. Beatriz avalia que a escolha do filme é importante: “a programação dos cinemas está priorizando a violência, e isso afasta o público da terceira idade. A gente gosta de filmes mais light e com conteúdo”.

Essa satisfação é resultado do trabalho da equipe do projeto, que pensa com cuidado no tipo de filme ofertado nas sessões. “Nosso critério de seleção é, primeiramente, que o filme (dentre os que estão em cartaz) possua uma mensagem positiva. Em segundo lugar, que seja bem avaliado pela crítica especializada. Por fim, dividimos as duas sessões mensais de forma a termos uma com filme dublado e outro com áudio original”, detalha Tailor.

Ele não esconde a emoção por oferecer esse tipo de serviço aos idosos: “Um projeto desenvolvido para um público que tem poucas opções de lazer e cultura, e que se propõe a ter ações de democratização de acesso só pode trazer uma grande satisfação para a equipe e para os que se envolvem com ele”.

Uma das sessões sênior: onde a melhor idade tem vez.

Uma das sessões sênior: onde a melhor idade tem vez.

Aliar esses pontos com os interesses de uma empresa voltada para o mercado, como é o caso de um shopping, é um grande desafio que tem dado bons frutos. Mas, infelizmente, nem todo mundo pensa assim. Apesar da orientação e do reforço do Ministério da Cultura para que as cidades criem seus sistemas de cultura, poucos municípios no Brasil possuem leis de incentivo como a de Florianópolis, que permite que empresas invistam diretamente em projetos culturais e recebam, por isso, isenção fiscal de até 20% em IPTU ou ISS.  “Mas isso não impede que prefeituras ou empresas desenvolvam algo semelhante com verbas de fundos ou investimento de marketing. Basta querer”, acredita o publicitário.

Outro ganho indireto é a socialização. Em tempos de internet rápida e plataformas portáteis, é cada vez mais comum as pessoas ficarem em casa, assistindo a filmes on demand. No caso dos idosos, cujo isolamento tende a ser maior pela idade, isso pode provocar depressão e outras doenças. Essa questão também foi levada em conta no projeto, segundo Tailor: “Muitas pesquisas comprovam que esse tipo de atividade e socialização é importantíssima para as pessoas que chegam na melhor idade, para que se mantenham saudáveis e confiantes diante das adversidades. Esse movimento que leva as pessoas para a rua, ou para um shopping, é super interessante pois nada substitui momentos e experiências em locais públicos e ocupados por pessoas reais”.

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O acesso dos idosos que moram em casas de cuidados ao cinema é garantido por um micro-ônibus que faz o transporte gratuitamente.

Tereza Maués faz coro: “Eu estou com 87 anos. Ficar só  no apartamento não dá, né?”, brinca ela, que mora no Pará e está em Florianópolis visitando a filha. Ela conta que ficou mais de 15 anos sem ir ao cinema e que prefere filmes dublados, pois as letrinhas das legendas já não são tão fáceis de ler para olhos tão “vividos” como os dela.

Tailor faz uma reflexão sobre o papel da arte na sociedade. Para ele, projetos culturais influenciam o desenvolvimento dos povos, mantendo suas identidades e ajudando na realização e expressão da cidadania, da inclusão social e no desenvolvimento econômico das comunidades: “Sou grande adepto da ocupação da cidade, dos nossos centros históricos e de nosso patrimônio cultural e natural. Acho que temos que promover cada vez mais esse tipo de atividades e, assim, preservar nossas mentes e nossas identidades.”

Que a iniciativa privada e os governos brasileiros o ouçam!

 

o projeto:

www.sessaoseniordecinema.com.br

facebook.com.br/sessaoseniordecinema

 

Marte Inovação Cultural

(48) 3717-5397

facebook.com.br/martecultural

www.marte.art.br

 

 

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Author

Patricia Costa
Editora-chefe do ArteCult.com Jornalista, roteirista, mãe, poeta, editora, escrivinhadora, atriz. Mulher. Sou filha da PUC-Rio, formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo. Trabalhei em revistas sobre meio ambiente e educação. Fui parar na TV na produção do Globo Ecologia e logo estava participando da criação do Canal Futura, onde fiquei por mais de 7 anos. Trabalho na MultiRio, uma produtora de multimeios educativos da prefeitura do Rio de Janeiro, há 10 anos, atuando como roteirista e editora. Colaborei para o site Opinião e Notícia por 2 anos escrevendo sobre Educação, Cultura, Cidadania e Meio Ambiente: opiniaoenoticia.com.br Escrevi também para a Revista do Senac Educação Ambiental por cinco anos. Me formei em teatro pelas mãos de Bia Lessa. Fui dirigida por Alberto Renault e Roberto Bontempo. Conheci muita gente talentosa. Aprendi com muita gente boa. Fiz cursos livres de canto, de dança flamenca, de locução de rádio e de roteiro para TV e cinema. Sou uma leitora contumaz. E ótima ouvinte. Gosto de observar a vida e de dar pitaco em alguns assuntos os mais variados. Mãe de dois adolescentes, continuo aprendendo sobre a vida todos os dias. O humano me encanta. E me aterroriza também!