A literatura começa quando terminamos de ler o livro: Carlos Fernando Galvão conversa com Chico Alencar sobre Literatura e seu livro “Revolução em Lagoa Linda”

 

Oi, queridas seguidoras e prezados seguidores do Portal ArteCult! Esperando vê-los com saúde e, apesar dos tempos difíceis, de bem com a vida, porque sem um mínimo de alegria e satisfação a vida fica chata e sem graça. Meu nome é Carlos Fernando Galvão, sou um carioca de 51 anos que torce pelo Fluminense, pai de Fátima de Paula (11 anos) e casado com Bárbara Pinheiro, também professora. Profissionalmente, sou professor de Geografia e escritor nas horas vagas e é nesta condição que me apresento a vocês.

Estou lançando o livro “Revolução em Lagoa Linda” pela Editora Appris e já aproveito para convidar todos vocês para minha live “A literatura começa quando terminamos de ler o livro” no YouTube do ArteCult (youtube.com/c/artecult), por favor, já se increvam lá nesse canal e clique em “Definir Lembrete” na imagem abaixo) que será realizada na próxima segunda-feira, dia 26 de julho às 19 h com a participação de Chico Alencar. Chico me deu a honra de escrever o prefácio do livro.

A live ficará gravada, não deixe de assitir e curtir

CONFIRA: 

( Clique abaixo em “Assistir no Youtube” e aproveite para se increver no canal “ArteCult.com” )

E espero vê-los mais por aqui nessa minha nova coluna, para conversarmos sobre uma de minhas paixões na vida, a cultura em geral e a literatura, em particular!

 

Sobre meu livro REVOLUÇÃO EM LAGOA LINDA

Alguns afirmam que a verdade é o real ou, ao menos, o real possível e passível de apreensão, dentro de um conjunto de atos e fatos humanos, de valores e consequências, de nossos sentidos e realizações, o que aponta para uma questão discursiva e ideológica, na medida em que apreendemos o mundo e a vida por nossos discursos (palavra, falada ou escrita, objetos artísticos, representações cognitivas, expressões matemáticas etc.). Podemos entender por ideologia, não um conjunto de regras pré-estabelecidas, mas uma espécie de gramática de engendramento de sentidos sociais, como ensinou o filósofo argentino Eliseo Verón (1935-2014). Para o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), a verdade é um ponto de vista e, portanto, impossível de ser definida de modo absoluto, salvo em questões específicas e imutáveis, para quem nelas acredita, sejam essas questões relativas às divindades, seja em (supostos) absolutos seculares, como o Estado (poder público), concepção que talvez tivesse a concordância de outros pensadores, como outro filósofo alemão, Friedrich Hegel (1770-1831).

Existe a verdade ou tantas verdades quantas forem as interpretações humanas, em sua busca infinita pelo desconhecido, com as mediações práticas e discursivas possíveis, como teorizaram pensadores como o filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)? Onde buscar a verdade? Na coisa apreendida ou no ser que apreende a coisa? Nas informações, por si mesmas, ou no significado que lhes atribuímos? Onde está a verdade social: na imaginação de cada um, de modo independente, ou nas pactuações coletivas e em suas materializações políticas e econômicas? A cultura é uma verdade ou proporciona alterações perceptivas, sensíveis e cognitivas que ajuda a que cada um e que todos nós busquemos as nossas “verdades” e pactuemos nossas crenças e/ou percepções, com as crenças e as percepções das outras pessoas?

No conto “Ideias de Canário”, de Machado de Assis (1839-1908), nosso genial escritor negro, que viveu e escreveu em uma época que, mais do que hoje, os negros (os diferentes e/ou os não pertencentes aos grupos hegemônicos, ontem e hoje) não tinham vez (o que só aumenta a dimensão desse brasileiro), um canário falante, descoberto numa loja suja e maltratada qualquer, por Macedo, o personagem principal do conto, é ouvido por ele e só por ele. Macedo quer comprar o canário que, a princípio, não se mostra interessado em sair da loja e da sua jaula, afirmando ser o seu mundo, mas Macedo o compra assim mesmo, dizendo que ele tinha que ver o céu e o Sol. Ao chegar em casa, Macedo estabelece muitas conversas com o canário e faz uma série de anotações para mostrar à comunidade científica sua descoberta e as reflexões conjuntas com o bichinho. O canário, entretanto, após muitas conversas, foge e é procurado por um bom tempo pelo desolado Macedo. Certo dia, em um parque, Macedo o encontra e lhe oferece voltar para casa e para a gaiola, com o objetivo de restabelecerem a pesquisa, lembrando ao animal, que esta houvera sido sua escolha primária, a de permanecer na loja e entre grades. Contudo, o canário afirma que o mundo dele, a partir do momento em que fugira e provara a liberdade, tornou-se o céu, com o Sol por cima.

O mundo do passarinho, depois que ele passou a conhecer mais mundos, por assim dizer, se ampliou de tal modo que já não mais cabia nos limites de sua antiga jaula, em sua “zona de conforto”. De algum modo e à sua maneira, Machado de Assis reeditou, ficcionalmente, o Mito da Caverna, do filósofo grego Platão (427 a.C. – 347 a.C.), que expõe como nossos horizontes senso-perceptivos e de conhecimento sobre a vida se aprofundam e se alargam na razão direta da capacidade que temos e/ou adquirimos de apreender o que está por trás das aparências. Ler e interpretar o mundo, que não é, está sendo, é fundamental, como nos ensinou o filósofo e professor brasileiro Paulo Freire (1921-1997), porque só assim, algo próximo à verdade ou às verdades poderá se descortinar perante nossos olhos, mentes e corações.

Revolução não rima com luta armada: rima com emoção, com coração! Essa era uma verdade para meus pais. Essa é uma verdade para mim. O mundo se descortina a cada vez que abrimos os olhos para algo tão simples quanto, parece, no mais das vezes, de muito difícil assimilação para, talvez, a maioria das pessoas: a liberdade fundamenta cada um de nós, em nossos projetos essenciais; existimos e nos constituímos a partir disso, como diziam o filósofo francês Jean Paul Sartre (1905-1980) e os Existencialistas em geral. Não obstante, eis a dificuldade maior, é possível que a maioria não perceba que a verdade, ou melhor, as verdades, em que pese a inquestionável subjetivação de suas constituições, devem ser coletivamente pactuadas para que todos possam ter uma vida minimamente digna e feliz. A liberdade de cada um não é absoluta, não no sentido de que podemos fazer, tudo, exatamente, o que desejamos, do modo como imaginamos, no tempo que nos é aprazível, mas na medida em que ela deve ser exercitada com o respeito à liberdade alheia, o que impõe menos egoísmo da parte nossa e mais entrega respeitosa ao outro, como alguém que, no limitar da própria liberdade, posto que também a tem, faz com que essa liberdade seja infinita em si mesma.

Revolução em Lagoa Linda é um texto escrito, originariamente, no início dos anos 1970, por meu pai, Mário Galvão, quando eu ainda era criança, e retomado e ampliado por mim, aproximadamente 45 anos depois dele ter iniciado a ideia. Este livro está escrito na forma de um roteiro de peça teatral (embora esteja longo para o teatro, necessitando, neste caso, de uma roteirização) ou de um filme, daí o porquê de o leitor encontrar, desde o início e até o final do texto, indicações como “as cortinas se fecham” ou “narrador em off” ou o porquê de os capítulos, ao invés de estarem assim nominados, aparecem como “Ato I”, “Ato II” e por aí vai. A forma como o livro foi escrito, leva (ao menos essa foi a ideia) a que essas indicações, ao contrário de o(a) confundir, querido(a) leitor(a), oferte a  você e a quem mais o ler, melhor noção de algumas interrupções realizadas quando da escrita sem que, contudo, o(a) leitor(a) venha a perder o fio da meada da tessitura completa da  trama.

Este livro é, de um ponto de vista estritamente pessoal, a homenagem de um filho saudoso, em reconhecimento ao talento e à inteligência de um pai amoroso. Resultado de minha formação humanista, tanto do ponto de vista acadêmico, quanto especialmente, inserida em uma perspectiva generosa e solidária de respeito carinhoso à diversidade da vida de todos e de cada um.

Este livro é, igualmente, uma homenagem à minha mãe, que além do amor também incondicional e de ser muito importante em minha formação humana e acadêmica, sempre me dizia que na vida, devemos fazer o bem, sem ver a quem.

Este livro, do ponto de vista literário, escrito por pai e filho, é uma homenagem à liberdade, expressa na história de um grupo de Salbris, que querem se crer “grandes por dentro”, mas que poderia ser, por exemplo, a mesma liberdade sonhada e, ainda melhor, realizada, de um grupo de cidadãos de certo país da América Latina que falam Português, em não se deixar guiar por meia dúzia de cabeças supostamente iluminadas que os querem dominar e escravizar, com cada vez menos empatia pela vida e sua diversidade de todos os tipos.

A liberdade, a nossa e a do outro, a subjetiva e a social, é um bem precioso demais e não podemos abrir mão dela em hipótese alguma, tanto quanto não podemos, em nome do que quer que seja, tolher a liberdade do outro, considerando as demais vidas, apenas e tão somente nosso espelho narcisístico.

Livremo-nos dos grilhões que nos aprisionam em uma vida árida, preconceituosa, autoritária, injusta, tosca e egoísta. Todos merecemos viver com dignidade, conforto, solidariedade, generosidade, gentileza, carinho, alegria, segurança e paz.

Sejamos como os Salbris, grandes por dentro, e deixemos que nossas grandezas, em apoio mútuo, extravasem para que possamos construir um mundo novo, juntos. Nem apenas eu, tampouco somente ele: vivamos, cada vez mais, o conceito do “nós”!

Difícil? Sim, muito, mas não é impossível.

 

PREFÁCIO :

DOIS EM DOZE: UMA CRIAÇÃO AMOROSA

Por Chico Alencar*

REVOLUÇÃO EM LAGOA LINDA é um livro em 12 atos, com vocação para ser peça de teatro. Tem cortinas se abrindo e fechando, tem voz em off. Quem ler, mesmo sabendo-se leitor, se sentirá um pouco plateia, imaginando as cenas num palco.

Este é um livro de ação, pontuado por reflexão. Tem o cotidiano do trabalho, do descanso, das ternuras, das raivas, das piadas, dos medos. Das trajetórias de uma gente, nas pessoas de figuras simples, de Balduína a Linguinha e Campainha, de Bichos Preguiça e da Seda a Cosmos.  Em meio à epopeia do povo Salbri, tão “grande por dentro”, há chamamento ao “sentimento trágico da vida”, à indagação sobre o sentido de viver. De ser e de ser-com-os-outros.

Este é um livro carregado de referências – e ensinamentos – geográficas, não fora um de seus autores especialista na matéria: tem lagoa (por óbvio), tem ilha, península, istmo, estreito, florestas e mares, abalo sísmico, ou “cínico” (tem humor também!). Rios e mares, cavernas, estalactites e estalagmites. Tem a necessidade de proteção a mananciais e o alerta sobre o esgotamento dos recursos naturais.

Este é um livro prenhe de História, e da luta contra a opressão secular dos mais fortes e equipados contra os mais fracos, que podem vencer ou ao menos sobreviver, se bem conscientes e organizados. Davi x Golias. “Pais da Pátria”, como Genésio e Janzol. Povo trabalhador, criador de riquezas, como Ferreiro e Leiteiro. Tem até diplomacia, “nada macia”.

Este é um livro que visita elementos da sociologia e da política, ao abordar liderança, organização de grupo a partir de interesses comuns, decisões colegiadas, conselhos, democracia. Conflito de interesses, dominação, reação, longas marchas. Redenção, que não é só nome de caverna.

REVOLUÇÃO EM LAGOA LINDA nos remete à fábula (tem, entre outros irmãos de patas, coelhinhos e escorpiões), ao chiste, à dimensão épica, às pequenas coisas diárias, que engrandecem a vida. Ao conhecimento advindo do seu principal êmulo: a curiosidade.

Não é um livro “paradidático”, como se dizia. Melhor classificar como “literatura informativa”. Com o lúdico também se aprende, e muito. Todo bom saber tem sabor.

Ao ler esta REVOLUÇÃO, lembrei de outra, a REVOLUÇÃO DOS BICHOS, de George Orwell (1945). E de uma prosaica obra infanto-juvenil, FAZENDA MODELO, de Chico Buarque (1974). Ambos escritos quando, em quadras históricas e países distintos, as sombras do autoritarismo, do obscurantismo, do negacionismo e do despotismo cruel ainda ameaçavam o mundo e o Brasil.

REVOLUÇÃO EM LAGOA LINDA também vem a público quando as trevas do neofascismo nos ameaçam, com seu ódio ao pensamento crítico, às narrativas libertadoras, às forças transformadoras da Ciência – valores de que este livro é portador.

Toda obra se objetiva em uma criação que vai além de seus criadores. Mas, nesse caso, há uma singularidade: quem a inventou a fez em parceria carnal, consanguínea, e atravessando décadas. REVOLUÇÃO EM LAGOA LINDA é um sonho, materializado em literatura, que passou de pai para filho. Aqui, especialmente, os autores contam (no duplo sentido da palavra).

Chico Alencar

Peço licença para relatar uma parceria póstuma que também vivi, no final do século passado. Maria Nakano, viúva de Betinho (Herbert de Souza), me deu, a pedido dele, uma tarefa honrosa: ser parceiro dele, recém falecido (1997), em uma obra literária para crianças. E assim fiz, complementando, emocionado, o que Betinho deixara. Dessa improvável coautoria nasceu “Miltopéia, a centopeia solidária” (Editora Moderna,1998, SP).

Pois você, leitor, leitora, tem em mãos essa dobradinha extraordinária: Mário Galvão e seu filho Carlos Fernando são coautores de uma obra com um intervalo de… 45 anos!  Isso é uma revolução literária, isso é lindo. Lembrei também daquela comovente gravação de Nathalie Cole com seu pai, Nat King Cole: Unforgettable

Aqui está uma lagoa linda onde pai e filho, separados pela boca devoradora do tempo, se reencontram, banhando-se nas águas do que permanece para sempre: saudade, semente.

Rio, 10 de fevereiro de 2021

*Chico Alencar é professor, escritor e parlamentar  Vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro

SINOPSE

Revolução em Lagoa Linda

Este livro é uma obra de ficção escrita a quatro mãos: por um pai, professor Mário Galvão (falecido em 02 de agosto de 2018), e filho, professor Carlos Fernando Galvão, onde os dois refletem sobre a dificuldade entre a idealização e a realização de uma sociedade mais justa, por intermédio de uma história onde os Salbris (os “grandes por dentro”), perseguidos por gigantes, reconstroem sua aldeia e partem em busca dos sobreviventes da diáspora de que foram vítimas, após um grande massacre dos gigantes e de três grandes terremotos. No percurso, a comitiva, escolhida em assembleia geral, que é como governam a si mesmos, que vai recebendo adesões ao longo da viagem, vai descobrindo coisas nada agradáveis sobre suas lideranças, mas também conseguem ter várias surpresas que os ajudam a conseguir seus objetivos. O livro foi escrito, originalmente, na forma de um roteiro de uma peça teatral ou de um filme. Essas partes poderiam ter sido suprimidas para esta versão da história, materializada neste livro. Contudo, achamos que seria interessante para o leitor viajar, junto conosco, não apenas na história, mas também em sua roteirização. Esta obra é destinada a todo aquele, jovem, adulto ou idoso, que busca refletir sobre a sociedade em que vive, como ela se organiza e sobre o conceito de democracia, de participação popular e de uma sociedade solidária. As reflexões que o livro incita são feitas de modo lúdico e leve, no decorrer de uma aventura em que, não apenas tais reflexões, como também questões científicas, são discutidas no bojo do enredo ficcional.

 

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Carlos Fernando Galvão
Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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