Etimologia, sociedade, desconhecimento e preconceito.

A língua traz identidade a uma nação. É a cola entre os homens, o que permite que a população do sul não fale um idioma diferente do que se fala no norte do país. Isso os mantém identificados como membros daquele grupo (no nosso caso, o grupo “Brasil”), interligados, e intelegíveis uns para os outros.

Para isso, existe a gramática. Em países em que se falam vários dialetos, como a Itália, por exemplo, a língua usada em TVs, rádios, jornais, meios de comunicação em geral, em qualquer estado ou povoado, é a língua oficial do país, a que obedece às convenções gramaticais, preservando o vínculo através do idioma.

Nenhum gramático, contudo, tem a ilusão de que a língua catalogada nos livros é imutável. A língua é um elemento vivo, inserida e influenciada pelo contexto social. Os falantes constroem novas expressões e dão novos significados a antigas no uso diário, natural e dinâmico do idioma que praticam. A gramática, por vezes, representa resistência a essas mudanças, pelos motivos acima citados. Mas variações no idioma acabam sendo incorporadas a ela, quando seu uso se torna ordinário e popular.

Nos dias atuais, há questões político-sociais associadas à tentativa de modificação do idioma. Não é à toa – como disse antes, língua constrói identidade. O presente artigo se propõe explicar, sob uma perspectiva meramente gramatical, a origem de alguns tópicos envolvidos nessas polêmicas.

1. O gênero neutro

Talvez esse seja, no momento, o mais controverso dos temas. A criação de um gênero neutro, somando-se ao masculino e ao feminino ou, em alguns casos, substituindo-os.

Como exemplo, ao invés da palavra “amigos” (genêro masculino plural, incluindo aí a ideia de amigos do sexo masculino e feminino, misturados num mesmo grupo), alternativamente “amig@s” ou “amigues”, “amigxs” ou, ainda, “amig_s” (gênero neutro).

A primeira questão a observar-se é que o gênero gramatical não tem correlação com o sexo biológico (nem identitário).

Quando dizemos, por exemplo, “testemunha” ou “ovelha”, só essas informações não são suficientes para que saibamos o sexo biológico das pessoas ou do animal referidos. Sabemos que são do gênero feminino “testemunha” e “ovelha” (precedidas pelo artigo “a”). Mas todas essas palavras se aplicam a pessoas/animais de sexos diferentes.

Sendo assim, “testemunha” é gênero feminino, independente de ser Pedro ou Maria; “ovelha” é gênero feminino, independente do animal ser macho ou fêmea.

Uma segunda questão é o fato de o gênero masculino já ser usado com neutralidade muitas vezes. Se, por exemplo, digo “todos os funcionários da empresa”, refiro-me a todo o corpo funcional, funcionários de todos os sexos. Da mesma forma, se digo “isso é inerente ao homem”, aponto uma característica referente à condição humana, independente do sexo. Assim, embora sejam palavras do gênero masculino, sua aplicação implica neutralidade.

Esse fenômeno tem uma origem fonológica e não nas relações sociais. No latim, existiam os três gêneros: masculino, feminino e neutro (para coisas e para grupos de homens/mulheres ou machos/fêmeas). Algumas palavras do gênero neutro tinham pronúncias muito próximas às do gênero masculino. No uso da língua, foram absorvidas. É o caso, por exemplo, de “colo”, cuja origem latina está em “collus” (gênero masculino) e em “collum” (gênero neutro).

A criação de um novo gênero neutro está entre as relevantes discussões sociais atuais, sob a alegação de que faria a inclusão de muitos grupos, entre eles, principalmente, os não-binários (pessoas que não se identificam nem como homem nem como mulher).

A discussão enfrenta sérias resistências. Além do preconceito existente em relação a esses grupos, a mudança da gramática, como vimos, só costuma acontecer quando o uso da expressão se torna corriqueiro. Também, alguns grafemas acima (“@”,”x”,”_”) são de difícil pronúncia, tornando a leitura desconfortável para a maioria.

Vale acrescentar que, para além da questão do gênero dos substantivos, na gramática da nossa língua, hoje, não há pronome específico que atenda à definição identitária de uma pessoa não-binária. E essa é uma questão de todas as línguas e não só das línguas latinas. Mesmo na língua inglesa, por exemplo, considerada mais neutra em vários aspectos estruturais, há a recente convenção de “they/them” alternativamente aos pronomes “he/she/his/her”.

2. Os pronomes possessivos

“Minha mulher”. Machista? Pode ser que sim, pode ser que não. Esteja atento à intenção do falante.

Paradoxo: o pronome se chama possessivo mas nem sempre indica posse. Explico melhor: usamos os pronomes possessivos para relacionar pessoas e coisas, umas às outras. Mas nem sempre essa relação é de posse, no sentido de “dominar” ou “ter a propriedade de”.

Quando digo “Meu Deus”, não tenho a ilusão de que Deus é minha propriedade absoluta. Falo do Deus em que acredito, moldado pela religião que professo. Da mesma forma “meu pai” e “minha mãe” se relacionam comigo, sem que isso signifique que alguém seja dono de alguém nessa relação. A “minha casa” é o lugar que habito, independente de ter sido comprada por mim. O “meu colégio”, o lugar em que estudo.

3. Palavras consideradas preconceituosas

Caminhamos sobre um terreno sensível ao falar de preconceito. Muitas palavras e expressões surgiram dentro de contextos sociais específicos, inclusive de dominação. Com o passar do tempo, seu sentido original pode ter-se perdido ou não. A língua em si não é preconceituosa, é uma espécie de mata-borrão: os falantes absorvem e incorporam os signos ao redor. Mas o olhar sobre o contexto histórico nos traz revelações pungentes. Mesmo que sejam repetidas sem má-fé, é interessante conhecer suas origens e propor reflexões a partir disso.

3.1. Há um grupo de palavras que têm origem no período da escravidão negra e fazem analogia a situações de opressão e preconceito. Por isso, hoje há grupos que militam contra o uso delas. Não passa pela questão gramatical em si mas por questões históricas.

Entre elas, destaco: “doméstica” (embora a palavra venha do latim “domesticus”, que se refere à “lar, casa de família”, de fato, o início do trabalho doméstico no Brasil teve origem na escravidão. E, considerando-se que os escravos da casa eram considerados “domesticados” e, ainda, que domesticar se ligava à ideia de tortura e de selvageria, a palavra, de fato, carrega um peso histórico); “mulato” (deriva de “mula”, filhote de burro com égua; assim, por analogia, nomeavam-se os filhos dos senhores brancos com as escravas negras, pejorativamente associando-os a bichos).

Por outro lado, a palavra “inhaca”, que é o nome de uma das ilhas existentes em Moçambique  e, por isso, muitos acreditam fazer associação entre o mau cheiro e o povo africano, não se refere a isso. Sua origem está na língua tupi: ‘yákwa’, significando “que exala odor”.

Assim como muitos acham que “criado-mudo” estaria associada à figura de um escravo de pé ao lado da cama, em silêncio, segurando objetos do seu dono e, por analogia, teria virado o nome do móvel à cabeceira da cama. Entretanto, o mais provável, é que sua origem esteja na tradução literal da palavra inglesa “dumbwaiter”, que nomeava o mesmo móvel no outro idioma.

Há, também, muitas expressões alusivas à inferioridade das características relativas à raça negra. Destaco algumas, que dispensam explicação: “cabelo ruim”, “preto de alma branca”, “ter o pé na cozinha’ (em alusão às escravas que trabalhavam na cozinha das casas grandes), “não sou tua nega”, entre outras.

,3.2. Na carona do preconceito racial, algumas palavras também entraram no rol de mal vistas, por fazerem associação do preto/negro a um sentido ruim. Entretanto, elas não têm qualquer relação com a questão racial mas, sim, com a ideia de escuridão em oposição à luminosidade (como trevas em oposição à luz). É o caso da palavra “denegrir” (tornar obscuro, sem brilho, sem transparência). Expressões como “a coisa está preta”, “lista negra”, “mercado negro”  fazem menção à ausência de luz ou às coisas que se operam no escuro, fora da vista da sociedade. Assim como “dia de branco” não tem a ver com a valorização do trabalho do homem branco em detrimento das outras raças, ao contrário do que muitos pensam. A expressão teve origem na Marinha, em que os oficiais se vestem de branco, significando apenas “dia de trabalho”. “Dia de branco” seria o dia de vestir o uniforme branco para trabalhar.

3.3. Em referência a outras expressões que se originaram em visões preconceituosas, temos palavras como “judiar” (analogia a como os judeus foram maltratados) e expressões como “fazer uma baianada” (como se imprudência/imperícia fosse inerente a baianos ou nordestinos em geral) também embutem traços de discriminação histórica em sua essência.

Já no caso das mulheres, há inúmeras, como “mal-amada”, para definir um estado de tristeza, ou “ela está naqueles dias”, para reduzir os momentos de raiva ou indignação a uma reação hormonal e não a um argumento lógico e real. A palavra “chico” para definir o período menstrual das mulheres também nasceu de uma associação da mulher com animais e da sua condição física com sujeira/impureza. Afinal, “chico” é porco (em Portugal); daí origina-se “chiqueiro”.

4. Presidente ou presidenta? Reais ou réis?

Quem é da minha geração ou das gerações anteriores à minha, aprendeu na escola que os substantivos terminados com “-ente” eram “comum de dois”. Assim, palavras como “gerente”, “presidente”, tenente” etc não flexionavam o gênero, ou seja, não possuíam uma forma própria para o gênero masculino e outra para o feminino.

Eleita, Dilma Russef se intitulou “Presidenta” do Brasil, acendendo o debate sobre a forma correta.

Houve divergências entre gramáticos renomados, uns admitindo o uso do gênero feminino restrito ao Brasil, outros aceitando-o como correto. Mas o que importa para nós é que “Presidenta” é, hoje, considerado correto, está dicionarizado e é um exemplo perfeito do que se disse desde o início: o uso consagra o vocábulo.

O mesmo ocorrera com o nome da moeda “real”. Real, substantivo, já nomeara uma moeda portuguesa num século passado, e tinha como plural “réis”. Mas, no marco de criação da moeda brasileira, em 1994, sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso, consagrou-se o plural “Reais” para a moeda “Real”.

Houve quem apontasse o erro. Mas a explicação veio da gramática: os substantivos terminados em “-al” realmente fazem plural “ais” (exemplos: “canal/canais”; “dedal/dedais”). E a tal moeda portuguesa também admitia a forma “reais” como plural, permitindo, na verdade, as duas formas: réis e reais.

5. Feminino de poeta

O uso da palavra “poetisa” vem sendo considerada pejorativa há algumas décadas, como se referente a uma literatura inferior produzida num meio protagonizado por homens. Há quem diga, também, que, como o termo “poeta” vem do latim “poeta” e do grego “poietes”, sem correspondência para o feminino, deveria ser considerado “comum de dois”, sendo “poetisa” uma espécie de construção artificial.

(Interessante notar que, nesse aspecto, o movimento em torno da aceitação de “poeta” como substantivo masculino e feminino faz o caminho oposto ao de “presidenta” como substantivo feminino. Contextos históricos e sociais diferentes).

Hoje, décadas depois de muitas escritoras se autonomearem “poetas”, apesar de a gramática chamá-las “poetisas”, alguns dicionários já incorporaram como corretas as duas formas: poetisa ou poeta. As duas formas são consideradas válidas.

A ideia deste artigo era que soubéssemos em que se apoiam as atuais polêmicas envolvendo nossa língua.

Temos à frente, como sociedade, um longo debate. Talvez precisemos definir se o significado atual da palavra/expressão é, de fato, determinado por sua origem ou se essa origem se perdeu com o tempo, criando significados novos. Ainda, se a atual configuração social, em sua complexidade, consegue ser abarcada pela gramática. Dessas reflexões resultarão escolhas que podem provocar, naturalmente, mudanças futuras. Uma coisa é certa: a língua não perpetua o que, socialmente, fica ultrapassado.

Como curiosidade, cito dois exemplos em que o significado original se perdeu inteiramente. A palavra “ilustre” que contém um prefixo de negação “i-” e deveria significar, portanto, ao pé da letra, “sem luz”,  significa o contrário: brilhante, célebre, iluminado. Em latim, “illustris” era como se chamavam as grandes autoridades políticas de Roma. Bastou isso para consagrar o uso positivo da expressão. Outro exemplo é “sinistro” que significa “obscuro, assustador”. Mas, na gíria dos mais jovens, o significado é diferente e positivo: incrível, espetacular.

À margem de toda essa discussão teórica, caberá ao falante da língua eleger que palavras serão duradouras. Na prática do idioma, entre iletrados e letrados, nas conversas em família e nas ruas (e não só nas escolas e meios acadêmicos) se consagram os signos linguísticos que definem a identidade social.

Afinal, a língua espelha o resultado das interações sociais (não é a causa; sofre os efeitos). É por isso que, escavando sua etimologia, conseguimos encontrar tantas marcas da nossa história.

ANA GOSLING

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Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, aqui no ArteCult, há texto novo da autora. Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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