De Jasão à Medéia, passando por Midas, Édipo tornou-se Narciso – parte I

 

Agir eticamente não garante, automaticamente, o paraíso, mas pode evitar o inferno.
Leandro Karnal, historiador brasileiro

A riquíssima mitologia grega, que é composta por belas histórias, embora trágicas em sua maior parte, nos chegou por intermédio de perspectivas privilegiadas de autores como Hesíodo, Apolodoro e Homero, e pode ser considerada, ao menos na cultura ocidental, como a primeira grande tentativa, mítica e mística, mas já com princípios e laivos de racionalidade, de propor uma Cosmogonia ou Cosmogênese (origem do Universo e da própria vida), que nos tirasse das trevas da ignorância sobre o que se passava no mundo e conosco. As sagas narrativas helênicas versavam, na essência, sobre a eterna luta entre o caos e a ordem. A palavra Cosmos, diga-se de passagem, empregada pela primeira vez, ao que se sabe por Pitágoras, significa “ordem, bem ordenado”.

Este artigo, como posto acima, o primeiro de quatro partes, e sua narrativa mitológica estão baseados nas pesquisas de dois grandes estudiosos do tema, de onde retirei as histórias que apenas resumi aqui. Ao longo dos resumos, fui escrevendo breves e intermitentes comentários para, ao final do texto, na quarta parte, dividir com você, caro(a) leitor(a), umas tantas reflexões que fiz a partir da leitura dos dois livros ora utilizados e que dizem respeito ao mundo como está e ao Brasil, como ficou depois de 2013, notadamente, após o desastre eleitoral e social de 2018. Os livros estão referenciados ao final da cada uma das 4 partes do artigo, mas de todo modo, os autores são o professor norte americano de Letras e Literatura, Thomas Bulfinch (1796-1867) e o filósofo e ex-Ministro da Educação da França, Luc Ferry.

Mitologia não é um privilégio dos gregos antigos, como, às vezes, pode parecer para alguns. Há muitos outros povos com mitologias tão ou mais belas do que as gregas que, de resto, são também belas e dizem muito sobre a civilização ocidental, que é a nossa. Por exemplo, no continente africano, temos o Povo Iorubá, com rica mitologia; desse povo, em termos culturais-religiosos, originaram-se a Umbanda e o Candomblé. Temos a mitologia dos Sumérios, dos Chineses, dos Egípcios, dos Maias, dos Incas, dos indígenas brasileiros etc. Em textos futuros, quem sabe, escreverei a respeito de outras mitologias. Dito isso, importante para situar a questão mitológica pelo mundo, deixo claro que esta segunda sequência de artigos (a primeira, há pouco publicada, nesta portal, intitulou-se “O um, os uns, nós todos” e versou sobre as religiões e a vida) será sobre a mitologia grega.

Mosaico romano datado do século III antes de Jesus representando Ulisses durante a Odisseia. Autor desconhecido.

Partindo das pesquisas e dos relatos de Bulfinch (2006) e de Ferry (2009), podemos observar que muitas são as aventuras a partir das quais é possível retirar valiosas reflexões sobre a vida: a odisseia de Ulisses para conseguir retornar à sua cidade natal, Ítaca, depois da Guerra de Tróia, e ter, novamente, o que os gregos antigos chamavam de “boa vida”, com a morte como coroamento da existência terrestre; os 12 trabalhos do semi-deus (filho de um deus com uma mulher mortal) Héracles (ou Hércules) em sua luta para manter a ordem universal iniciada por Zeus, seu pai; o enfrentamento indireto entre os semi-deuses Teseu e Minos, este último, Rei de Creta, com batalha de Teseu contra o Minotauro, (homem com cabeça de touro, resultado de maldição lançada por Poseidon, Deus das Águas), filho de Minos, no labirinto que lhe servia de moradia e prisão, podendo representar a luta do bem conta o mal ou da necessidade humana de ser livre, dada, não apenas a prisão do Mininotauro (o monstro que existe em cada um de nós?) como o voo para a liberdade, do inventor desse labirinto, Dédalo, que acabou preso em sua obra arquitetônica, e seu filho, Ícaro, rumo ao Sol e à morte iminente deste último. Talvez em outros textos possamos passear um pouco por essas histórias, mas não por agora.

A História do nosso mundo teria começado com a união conjugal entre o Titã original, o Deus Urano, e sua consorte, Gaia. Urano era muito fogoso e queria copular com Gaia todos os dias, gerando vários filhos. Porém, a partir daquilo que permeia toda mitologia grega, o dom da previsão do futuro, Urano previu a perda do poder de governar o Universo para um dos filhos e tomou a decisão de prender todos eles no útero da esposa. Cansada da tirania do marido, Gaia conseguiu libertar um dos rebentos, Cronos (palavra grega que quer dizer “tempo”; daí “cronologia”) que, com a ajuda da mãe, certa noite, depois do coito entre o casal, surpreendeu o pai e, atacando-o, decepou-lhe o pênis, separando, deste modo, o casal divino, originando o Céu (Urano) e a Terra (Gaia). Com a castração, como informação adicional, parte do sêmen de Urano foi derramado no mar, fazendo nascer outros Titãs.

Cronos, então, libertado pela mãe, da tirania de seu pai, acabou por se constituir no principal Titã dos primórdios do mundo; ele também engolia os filhos, o que pode ser interpretado como a metáfora do tempo que nos engole, sem piedade, e não perdoa o que fazemos sem o levar em consideração, mas também inspirou algumas ideias do médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), sobre o possível medo de o pai ser superado/substituído pelo filho. O tempo no limite, contudo, também nos define, pois não sendo possível dele nos libertarmos, somos e nos tornamos aquilo que sentimos, pensamos e conseguimos fazer, em vida, com o tempo que temos.

Cronos devorando seu filho. Pintura de Francisco de Goya.(1819-1823)

De todo modo, a queda de Urano levou, como previsto, seu filho, Cronos, ao poder sobre o mundo. Temendo, como o pai, perder o trono, tendo casado com outra Titã chamada Reia, sua irmã, Cronos passou a engolir cada filho que nascia, aprisionando-o, deste modo, em seu próprio estômago, ao invés de, como o pai, prender a prole no útero materno. O estratagema de pouco adiantou porque, enganado pela esposa, como igualmente acontecera com o pai, ao parir Zeus, Reia ofereceu uma pedra para Cronos engolir e ele o fez, sem perceber a artimanha. Zeus, então, crescido e forte, lutou com Cronos e, vencendo-o, libertou seus irmãos, dentre eles, Poseidon, que iniciou seu reinado nos mares, e Hades, que passou a governar o Submundo ou Mundo Inferior, dividido em três: o Tártaro, lugar das almas imortais que não haviam tido uma vida honesta e justa; os Campos Elíseos, o equivalente ao Paraíso Cristão ou Muçulmano, para onde se dirigiam as almas boas e justas e os Campos Asfódelos, para onde se dirigia a maioria das almas, que eram de pessoas que haviam tido uma vida simples, sem glórias ou grandes realizações (algo como o Purgatório Cristão, mas talvez com um pouco menos de sofrimentos). Zeus reinava sobre tudo e todos com a ideia de manter a ordem universal, baseado em sua cidade divina no Monte Olimpo, cujos habitantes eram, por óbvio, os Deuses Olímpicos ou Olimpianos.

Como escrevi há pouco, o artigo tem como pano de fundo a Cosmogênese até aqui descrita, mas foi construído com foco em três histórias em particular.

Nossa primeira aventura é o relato da expedição dos Argonautas e de seu navio, Argos. Na viagem estavam presentes deuses como Ares (ou Marte, no latim), deus da guerra, e sua amante, Afrodite (ou Vênus, no latim), deusa do amor e da sexualidade. Afrodite era esposa de Hefesto (o único Deus tido como feio e que era extremamente inteligente e habilidoso, tendo forjado as armas dos demais deuses, como o raio de Zeus, o tridente de Poseidon e o garfo de Hades). Dessa relação extraconjugal, entre Ares e Afrodite, nasceu uma menina, chamada Harmonia, símbolo do equilíbrio que deve haver entre opostos, como o amor e a guerra, para que o caos não atrapalhe a ordem vigente. Na viagem, também estavam presentes semideuses, como Teseu e Hércules, ambos filhos de Zeus, e Orfeu, que salvou a expedição com sua música, vencendo as temidas Sereias. Contudo, a saga dos Argonautas é, basicamente, a história de Jasão e de seus feitos e é dele que passaremos a tratar.

Os Argonautas partiram para a cidade de Cólquida, em busca do Tosão ou Velocino de Ouro, que era a pele dourada do cordeiro alado Crisómalo, sacrificado por Frixo, em honra à Zeus, no dia de seu casamento com Calcíope, princesa e filha do Rei de Cólquida, Eetes. Em agradecimento, Zeus reservou um lugar especial no Olimpo para Crisómalo e sua pele de ouro passou a ter propriedades mágicas, como a regeneração de doenças. Em alguns relatos, embora não consensuais, o Velocino poderia, até mesmo, ressuscitar os mortos – mas isso estaria em desacordo com os poderes de Hades, que reinava sobre as almas humanas e que não permitia a ninguém escapar do Submundo, daí, talvez, esta seja uma versão pouco crível de ter sido, efetivamente, narrada, na construção original da história.

Os Argonautas. Pintura de Lorenzo Costa. 1480–1490

Jasão, criado pelo Centauro Quíron, fora exilado ainda criança, junto com a família; era filho de Esão, irmão de Pélias, que o destronou, tomando o poder em sua cidade chamada Lolco. Pélias, em honra à Poseidon, decidiu, além de realizar sacrifícios, promover a busca pelo Velocino, até então, pertencente à Eetes, rei de Cólquida, que o mantinha guardado e vigiado, posto que uma profecia dizia que se o presente divino lhe fosse roubado, tal fato traria a desgraça à cidade. Pélias prometeu ao vencedor da busca pelo artefato, grande prêmio e honra em vida. O Velocino era bem guardado, protegido por um Touro e por um Dragão, ambos mágicos, que nunca dormiam. Jasão atendeu ao chamado público de Pélias, que não o deixaria participar se soubesse de sua identidade: havia uma profecia do Oráculo de Delfos de que Jasão o mataria. Delfos era a antiga cidade de Fócida e se tornou um dos principais oráculos do antigo mundo grego. Oráculo, ao contrário do que por vezes se imagina, não era uma pessoa, mas um lugar sagrado, algo como um templo, onde as pessoas buscavam respostas divinas, curas e indicações/previsões para o futuro; profecias, se se quiser assim denominar o foco principal dos oráculos.

Retomando a história, com a ajuda de Medéia, filha de Eetes, feiticeira que prometera às filhas de Pélias que rejuvenesceria o pai, mas que o matou, enganando-as, e que se tornaria futuramente esposa de Jasão (até ser posta de lado por outra mulher e assassinar os dois filhos em comum como vingança), que acabou matando os dois monstros e levou o Velocino, só que não para a cidade em que seu tio Pélias governava; fugiu e se casou com Medéia, retornando para sua terra natal. Pélias, é claro, não escapou de seu destino, outro conceito muito presente na mitologia grega, e foi morto por Jasão, como profetizara o Oráculo.

Nesta passagem mitológica, podemos ver elementos conjugados nos seres humanos e a nós inerentes, embora passíveis de controle, até certo ponto: traição, ódio e vingança – entre Jasão e Medéia; consequências na psique individual, como o medo que as pessoas sentem de monstros, reais e imaginários, que travam os sentimentos, os pensamentos e muitas das ações de todos nós, no dia a dia; comportamentos humanos fora dos padrões culturais vigentes, construídos e/ou impostos, como relações amorosas (tidas como) infiéis, notadamente nas esferas mais altas da sociedade – no caso em questão, aqui, entre dois deuses, Ares e Afrodite, expondo a promiscuidade humana, independente de juízo de valor sobre este fato; como o mal estar pelo contexto da relação entre governantes e governados – Pélias que desconfia de tudo e de todos para manter seu poder, que acaba servindo, apenas, para a reprodução deste próprio poder; a busca eterna pela cura de todos os males, psíquicos e materiais, materializada na disputa pelo Velocino de Ouro ou…

Enfim, a mitologia reflete muito do que somos e vivemos e as narrativas e sua forma são fundamentais para a preservação de nossa memória e saber e podem ser poderosos instrumentos, mentais e emocionais, para que entendamos este mundo e a nós mesmos e, com isso, possamos reconstruir nosso modo de vida. O planeta e vida que nele existe, insiste, persiste e não desiste de existir, precisa e está a nos implorar uma reconstrução profunda, de percepção, valores e ações. É isso o que veremos nas três partes seguintes deste artigo.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia – histórias de deuses e heróis. 34.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006

FERRY, Luc. A sabedoria dos mitos gregos. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009

 

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
cfgalvao@terra.com.br

 

 

 

 

 

 

 

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Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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