DARK: Uma análise aprofundada no conceito de tempo, destino e livre arbítrio.

 

Enaltecida por muitos fãs e críticos, a série alemã “Dark“, criada por Baran bo Odar e Jantje Friese e distribuída pela Netflix, provou ser realmente uma das maiores produções audiovisuais já feitas nos últimos anos, abordando uma história complexa relacionada a viagens temporais com o máximo de detalhes possíveis, utilizando como referências diversas teorias e fatos sobre o assunto, escritos e publicados ao longo da história da humanidade.

Para manter um ritmo constante, sem que a trama desvie demais do sua propósta narrativa, o roteiro foi totalmente desenvolvido por Jantje, assim como a direção de todos os episódios ao longo das três temporadas foi feita por Baran, já que para esse tipo de história com um desenvolvimento bastante complexo, um revezamento entre diversos roteiristas e diretores poderia em algum estante tirar o foco do que realmente é importante para cada momento da história. Com essa permanência dos próprios criadores nos cargos principais da produção, a série consegue apresentar tudo o que tem a dizer sobre o assunto em questão, através de arcos dramáticos cuidadosamente criados para que cada personagem se desenvolva e dê continuidade à história. Embora seja uma obra desenvolvida para a televisão, Dark pode ser considerada como uma grande série cinematográfica, já que além dos recursos técnicos muito bem utilizados como direção de arte, fotografia, figurino, e montagem, a série é escrita de um modo que se encaixa na estrutura básica de três atos de um filme, sendo que cada uma das três temporadas representa um desses atos, a primeira temporada seria a apresentação dos personagens e dos elementos que irão compor a trama, a segunda seria o desenvolvimento e a criação dos conflitos, e a terceira e última temporada, a resolução e desfecho da história. Ao mesmo tempo em que isso compõe a estrutura geral da série, este modelo também está presente em cada uma das três temporadas separadamente, sempre dando continuidade ao que foi contado anteriormente, criando sempre novos assuntos a serem aprofundados, e finalizando outros que contribuíram com o desenvolvimento.

Cena de DARK. Foto: Divulgação NETFLIX.

A série que, como já dito, tem como temática viagens temporais, é bem construída ao longo das três temporadas, apresentando aos poucos mais informações sobre esse tema, indo mais além dos simples elementos básicos que o público conhece sobre o assunto, apresentando ao espectador  conceitos avançados e mais completos, e, a cada temporada, o roteiro dificulta o nível do tema, ao abordar conceitos mais complexos que são apresentados muito bem dentro do contexto da história, sem que pareça uma informação entregue de forma gratuita ou expositiva. Tudo isto conseguindo contar a história de forma didático. As explicações em si são fáceis de se compreender, o que talvez dificulte o espectador de absolver tudo de imediato é a trama envolvendo os personagens, no qual esses assuntos são colocados em prática, ao colocá-los em situações que envolvam paradoxos temporais, personagens que encontram suas versões mais novas ou mais velhas, objetos atemporais, que criam dúvidas sobre sua origem, e até personagens que são seus próprios ancestrais ou descendentes. Mesmo sendo difícil compreender tudo de imediato, o formato de série ajuda o público a ver um episódio por vez, refletir sobre o que viu e juntar as peças para que ele consiga prosseguir, tendo uma noção do que aconteceu, mas sempre com alguma pergunta na mente, já que nunca é entrega todas as informações de uma só vez, revelando aos poucos cada detalhe e solução, tudo em seu devido tempo.

Cena de DARK. Foto: Divulgação NETFLIX.

As histórias pessoais de cada personagem, que ajudam a locomover a trama e a temática, também são bem desenvolvidas, mostrando como a vida de um afeta ou interfere na do outro na linha temporal, revelando como o destino deles fica entrelaçado ao se conectarem quando um deles tenta impedir que alguma das tragédias ocorra, além de mostrar como a mesma história se repetiria em outra linha temporal alternativa. Ou seja, nessa terceira temporada é abordado o conceito de multiverso, mostrando linhas temporais alternativas que, mesmo separadas, estão emaranhadas através de uma origem desconhecida. Revelando assim como seria o mundo se tal personagem sacrificasse sua própria existência para que o apocalipse e o último ciclo não acontecesse, mostrando esse mundo sem esse personagem, mas que mesmo tendo algumas diferenças, os personagens caminhariam para o mesmo destino, com algumas leves mudanças, mas com o mesmo fim. Aborda também a questão sobre livre arbitro, através do qual somos livres para tomar nossas próprias decisões, mas que não somos livre de nossas próprias decisões, pois sempre estaríamos presos em algo que nos levaria para o mesmo final e que sempre iria originar alguma reação boa ou má. Um mérito da série em ilustrar bem o conceito de causa e consequência.

Cena de DARK. Foto: Divulgação NETFLIX.

Para que todos esses temas se conectem, o roteiro também cria um grande misticismo através do número 33: a cada período deste tempo em anos, uma série de eventos torna a se repetir, e de como o número 3 também tem um grande peso dentro da narrativa, de como as pessoas tem 3 vidas, 3 versões de nós mesmas entre o tempo (passado, presente e futuro), e até do próprio jeito de contar a história em 3 partes, ao usar a metalinguagem da triquetra dentro e fora do conceito da série, mostrando que estamos dentro de um ciclo que está destinado a se repetir infinitamente pela eternidade, dando origem ao propósito de alguns personagens em tentar desvendar a origem dessa triquetra e tentar impedir que o último ciclo se concretize e cause o apocalipse que sucumbirá a todos para a escuridão. Durante a segunda temporada, o diretor consegue provocar no público a sensação de desconfiança e dúvida sobre as verdadeiras intenções dos personagens, sobre quem quer realmente quebrar esse ciclo, e quem quer que o apocalipse aconteça, isso ocorre principalmente entre os personagens Claudia (interpretada por Lisa Kreuzer, na versão velha), e Adam (Dietrich Hollinderbäumer), e mais tarde por Eva (Barbara Nüsse) na terceira temporada, algo que mesmo respondendo as intenções de cada um, fica uma dúvida em questão, já que um personagem já tinha vivenciado o que tinha acontecido e então ele teria a oportunidade de mudar isso, o que reforça mais uma vez a questão do ciclo repetitivo que conecta tudo e a todos, aumentando mais a curiosidade do público em descobrir qual é a origem dele, que desencadeou todos esses eventos, no qual muitos querem desfazer, mesmo que isso custe a vida de todos.

Cena de DARK. Foto: Divulgação NETFLIX.

Logo no início da segunda temporada, é introduzido um recurso narrativo clichê, sobre a existência de uma profecia, mas isso logo fica para traz, fazendo com que o roteiro pare de cita-la e de desenvolve-la, o que por um lado é um alívio não precisar ter que usar um recurso tão batido e ultrapassado, mas por outro o roteiro encerra isso de modo súbito, como se nunca tivesse sido acrescentado a trama. Entre os novos arcos na segunda temporada que continuam contribuindo para o desenrolar da história, o arco envolvendo o investigador Clausen (Sylvester Groth) acaba contribuindo o mínimo possível para a trama, já que esse personagem só foi criado para responder o mistério envolvendo Aleksander Tiedemann (Peter Benedict), que por si só, não tem muita relevância com os principais acontecimentos, além de Aleksander ser o chefe da usina nuclear da cidade, que ajudou a criar a viagem no tempo, muito antes dele começar a trabalhar lá.

A história, que não segue uma linha linear de contar os acontecimentos, nas duas primeiras partes, é bem mais fácil de acompanhar a montagem e distinguir o tempo que cada evento ocorre através da direção de arte e do figurino, mas a partir da terceira parte, em que começa as viagens através da triquetra do tempo, poderá fazer com que o público tenha um pouco mais de dificuldade de acompanhar todos os arcos, se não fosse pelo pequeno e simples recurso da montagem, ao utilizar uma transição entre uma cena para outro, que lembra bastante um vórtice que vai de um mundo para outro, enquanto nas viagem através da linha do tempo, é utilizado um sutil barulho de “tic-tac” entre a troca de cenas.

Cena de DARK. Foto: Divulgação NETFLIX.

Alguns recursos utilizados, principalmente na terceira parte, acabam sendo explorados constantemente de forma abusiva devido a repetição da história, o que faz com que a terceira temporada pareça um breve remake da primeira, mas de forma proposital, para mostrar a questão do ciclo infinito entre as linhas da triquetra, que faz com que a direção também reutilize alguns desses recursos. Mas o resultado é feito de forma descontrolada, a ponto de se tornar cansativo, como no caso de um personagem que está prestes a fazer algo que quebrará o ciclo, e outro personagem aparece na última hora, alegando que a pessoa que mandou ele fazer isso quer que o último ciclo aconteça, tornando esse recurso maçante de tão previsível que se tornou dentro da série, que acabou fazendo com que o roteiro se preocupasse tanto nisso e esquecesse de realizar o desfecho de personagens pequenos e que já tinham feito suas partes. Assim, mesmo que eles não tennham grande importância, fica uma sensação de vácuo dentro da história.

O grande desfecho da série é algo que supera as expectativas de que acompanhou e teorizou junto com a série, revelando o motivo principal da origem que desencadeou os mundos distintos e  conectados pela mesma razão, e que ao mesmo tempo separava eles, resolvendo todos os mistérios e ilustrando todas as metáforas utilizadas, entre elas envolvendo “um erro na Matrix”, que embora é logo explicado na primeira citação da metáfora, a série quebra novamente as barreiras e leva isso a outro nível, pois interfere na jornada dos dois principais protagonistas da série, Jonas (Louis Hofmann) e Martha (Lisa Vicari), dando a série um final satisfatório e gratificante, deixando uma leve ambiguidade na última cena que faz questão de deixar para o espectador a sua prõpria interpretação, baseado no que foi apresentado.

Confira o Trailer

 

 

 

 

É notório que Dark é uma obra com um grande planejamento, com um minucioso trabalho de pesquisa e com enorme dedicação de seus realizadores, trabalhando diversas teorias e fatos que nos prendem a todos nós em vários aspectos.

NOTA: 9,5

 

Cena de DARK. Foto: Divulgação NETFLIX.

 


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Author

BRUNO MARTUCI
Colaborador de CINEMA & SÉRIES dos sites ARTECULT.com, The Geeks, Bagulhos Sinistros, entre outros.

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