Analógico Lógico: A Profundidade de Campo

Essa semana respondendo no meu canal Analógico Lógico, no YouTube, à pergunta que uma assinante havia feito sobre profundidade de campo, procurei dar a explicação mais simples, prática e direta possível sobre esse assunto e é esta que reproduzo aqui para vocês, queridos leitores de minha coluna do ArteCult.

Para exemplificar, comecei com um exemplo em que um objeto (ou uma pessoa…) havia sido posicionado a 3 metros de distância do ponto focal da câmera (e não da lente!). Usando uma lente super clara de 50mm com f/1.2 de abertura máxima e outra lente mais escura de 135mm f/2.8, bateram-se duas fotos do objeto, uma para cada lente. Ao final, comparando as duas imagens chegou-se a constatação óbvia de que a profundidade de campo mais estreita foi conseguida com a lente… mais escura, de f/2.8, é claro.

E porque isso aconteceu, se as lentes com maiores aberturas geram, em tese, menores profundidades de campo? É o que iremos ver nesse exato momento mas, para isso, precisaremos compreender uns conceitos básicos.

Antes de tudo, começaremos pelo ponto de foco ou, simplesmente, FOCO, que será aquele ponto exato de maior nitidez. Se você focar num olho, numa casa ou numa flor, esse olho, casa ou flor será o ponto de maior nitidez da foto. Eles estarão em foco. Logo, foco = nitidez. Até aqui tudo bem? Show!

Ocorre que esse foco ou ponto focal é um plano imaginário que atravessa perpendicularmente a frente da lente. Como se fosse uma parede de vidro, por exemplo, que pode ser deslocada para frente e para trás, a medida que se foca em algo.

Dessa forma, quando se diz que a sua câmera tem 96000 pontos de foco, não significa exatamente que ela faça um foco individual nesses 96000 pontos, mas a medida que esse plano, essa parede imaginária, avança ou recua, focará somente nos pontos que estão compreendidos nesse mesmo plano, dentro dessa mesma “parede”, entenderam?

Para fotografia de paisagens ou objetos em movimento, esse método/sistema é interessante, por compreender ou uma grande gama de objetos em um mesmo plano, como árvores em uma paisagem, ou por acompanhar um único objeto a se mover por todo o quadro, como numa corrida de cavalos, por exemplo, mas para retratos ou situações em que se precise de uma precisão máxima, a escolha de somente um ponto focal, selecionável, é bem mais precisa.

Outra coisa, que não mencionei no vídeo e é exclusiva para vocês, meus queridos leitores, é que, nesse plano focal o foco só será dado em um único ponto. “Ah, mas acenderam as 96000 luzinhas!”. Sim, porque essas 96000 luzinhas estão no mesmo plano e não em planos diferentes, entenderam? Porém (!) existe uma única possibilidade na qual é possível se focar em dois pontos diferentes: quando se usa uma lente tilt shift, pois essa é uma lente de controle de perspectiva e uma de suas capacidades é a de pegar esse plano focal e “incliná-lo”, fazendo com que isso, além de gerar profundidades de campo ridiculamente estreitas, possa causar como “efeito colateral” que dois pontos da imagem, em locais diferentes, fiquem em foco. Legal, né? Outra hora me aprofundo sobre isso. Voltemos.

Então dessa forma em que vemos esse plano focal como uma parede imaginária de vidro que pode ser deslocada para frente e para trás, esta também poderá se tornar mais ou menos espessa, podendo variar desde frações de milímetros até a galáxias de distância de espessura. Dá-se o nome dessa “espessura” na qual situam-se os objetos focados, de profundidade de campo visual ou, simplesmente, profundidade de campo.

Então, para determinarmos essa profundidade de campo, em termos práticos, teremos cinco variáveis. Por quê variáveis? Porque esses cinco itens variarão, serão relativos, influenciando para mais ou menos essa profundidade de campo. Vamos a eles:

1) A primeira variável será a abertura máxima da lente. Grandes aberturas, como f/1.4, f/1.2, f/0.95… são capazes de gerar profundidades de campo menores. Porém, observem, dentro da mesma distância focal da lente. Por isso é que são relativas ou variáveis. Dessa forma, uma lente 50mm f/1.2 terá menor profundidade de campo que outra lente, nos mesmos 50mm, porém f/1.8, por exemplo. Porque elas possuem a mesma distância focal. Isso não será uma verdade em lentes de distâncias focais diferentes, como veremos agora.

2) A segunda variável é a distância focal da lente. Lentes com distâncias focais maiores possuem menor profundidade de campo relativa, em comparação às lentes com distâncias focais menores, quando focadas na mesma distância. Logo, uma tele de 135mm terá uma profundidade de campo relativamente menor que uma lente de 50mm. Resumindo, teles podem gerar menor profundidade de campo que lentes normais e grandes angulares. Por isso que grandes angulares são utilizadas preferencialmente para fotografias de paisagens, pois conseguem alcançar uma grande profundidade de campo com maior facilidade.

3) A terceira variável é a distância do ponto focal da câmera ao objeto. Vocês já devem ter reparado que na câmera de vocês deve ter um símbolo de uma bolinha atravessada por um traço. Esse símbolo indica precisamente por onde passa o filme ou sensor da câmera, e é onde se fará o foco exato. Logo, o foco da câmera não é feito na distância da lente ao objeto, mas, sim, desse ponto focal ao objeto. E quanto menor for essa distância, menor será a profundidade de campo. Lembrando que ponto focal é onde o foco é feito no filme ou sensor e ponto de foco é o local em que se mira, que se deseja que esteja em foco. Como muitas coisas em fotografia, a terminologia é muito parecida e se tem que prestar atenção naquilo que se quer dizer, porque é realmente fácil de se confundir, ok?

4) A quarta variável é a distância do objeto ao fundo. Quanto mais longe o fundo estiver do objeto em foco, maior será a área de desfoque relativo desse fundo. Eu disse relativo porque em retratos ainda que seja desejável se ter um fundo desfocado, isso pode não ser uma verdade em fotografia de paisagens ou astrofotografia, onde irá se preferir que todo o fundo, permaneça absolutamente focado, se valendo, para isso, de uma coisa denominada “distância hiperfocal”.

Oriunda do prefixo Grego “hiper” que, tal qual o prefixo em Latim “super”, significam, além de, acima de (Super-Homem = acima do homem; além do homem). Dessa forma, entende-se distância hiperfocal, como aquela distância que, estando além do foco tudo se mantém razoavelmente nítido. Nem foi tão ruim, né?

Então, ainda que existam fórmulas matemáticas complicadíssimas as quais absolutamente ninguém usa em condições normais em fotografia comum, um truque para vocês conseguirem essa distância hiperfocal ou além do foco, em que desde um pouco antes do objeto focado até o infinito tudo se pareça razoavelmente nítido, não gosto, não, mas vou dar uma receitinha de bolo que vai funcionar em 96,73% dos casos: se deve fechar o diafragma da lente, entre f/8 e f/16, dependendo da lente, devendo-se sempre ter em conta dois fatores: cada lente irá ter seu desempenho máximo em números f/ não necessariamente iguais, ou seja, você deverá conhecer a sua lente e se observar quando começa a ocorrer o fenômeno da difração, na qual a imagem começa a aparecer borrada, resumidamente.

Estando isso perfeitamente claro, o jeito mais fácil de se conseguir pôr toda a cena em foco é focar em cerca de 1/3 do quadro, recompor a imagem e bater. Vai olhar pelo visor ou pela tela, dividi-la em três partes iguais, focar no terço inferior, recompor a imagem e bater. Essa nem Mister M. E te disseram que era difícil…

5) A quinta e última variável é o tamanho do quadro. Para a galera do filme, padrão médio formato gera profundidade de campo relativa menor que o padrão 35mm, lembrando a todos que o 135 funcionaria como um crop do médio formato. Então, dessa forma, a galera do digital já entendeu que o full frame gera uma profundidade de campo relativa menor que um sensor cropado. Resumidamente, maior a área do filme ou sensor, menor a profundidade de campo relativa.

Então vocês devem ter percebido que eu falei relativo para tudo, porque absolutamente tudo será relativo. Agora que já vimos o conceito fica fácil de entender porque no probleminha com o qual comecei o texto a lente mais escura tem uma profundidade de campo mais rasa que a da lente muito mais clara. Pois apesar de ser mais escura, a tele é capaz de gerar uma menor profundidade de campo relativa devido ao fato de estar sendo focada na mesma distância da 50mm (3 metros), fazendo com que a distância do objeto ao ponto focal da câmera se torne muito mais próxima, relativamente, trazendo, como consequência, uma diminuição da profundidade de campo. Além das teles terem uma profundidade de campo relativa menor que lentes normais ou grande angulares, quando utilizadas na mesma distância do objeto. Ou seja, tudo foi relativo.

Por isso que é importante pensar, planejar, conhecer o equipamento e a técnica correta. Uma foto realmente boa jamais será sorte.

Então chegamos à conclusão que, existem diversas formas de se conseguir uma profundidade de campo rasa ou ampla, e estas não necessariamente irão se valer de uma grande abertura máxima ou de determinada distância focal ou, inclusive, do tamanho do sensor ou filme, mas, sim, do somatório de todas essas variáveis que deverão ser avaliadas no momento da execução da fotografia visando ao objetivo que se deseja.

Espero que tenham gostado, não percam meus vídeos no Analógico Lógico e, quem puder dar uma força “ixperta”, siga o canal, deixe aquele like maroto, compartilhe com os amigos… o pacote completo! Um forte abraço a todos e boas fotos!

VITOR OLIVEIRA

INSCREVA-SE NO CANAL :


https://youtube.com/channel/UCom1NVVBUDI2AMxfk3q8CpA

 

 

Faça abaixo um comentário sobre este artigo. PARTICIPE!

Comentários (utilize sua conta no Facebook):

Powered by Facebook Comments

Author

Vitor Oliveira é dono de uma visão poética sobre a vida e o mundo que o permeia. Fotógrafo experiente e autodidata, fotografa desde os 10 anos de idade influenciado por seu avô, o pintor paisagista Altamiro Oliveira, de quem, além da pintura clássica, o influenciou no desenho e na literatura, arte que exerce escrevendo romances ambientados no submundo de uma São Sebastião do Rio de Janeiro do final do Séc XIX e começo do Séc XX que não mais existe. Pesquisador de métodos, técnicas e equipamentos fotográficos e colecionador, Vitor Oliveira fotografa principalmente em película, por considerar que, após quase 200 anos de evolução desta forma de arte, esta ainda oferece os melhores resultados, ao depurar a técnica artística, quase que alquimicamente. Sendo um dos únicos fotógrafos de nível mundial a participar, usando filme, no maior concurso fotográfico do mundo, o Sony World Photography Awards, da World Photography Organization, Vitor Oliveira inaugura seu Canal Analógico Lógico!, no YouTube, através do qual procura compartilhar um pouco de uma aprendizagem que nunca finda. Hare Hare! Canal Analógico Lógico! : https://youtube.com/channel/UCom1NVVBUDI2AMxfk3q8CpA Video de abertura: https://youtu.be/N_cuYPi6b4M

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *